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SOBRE EXPLOSIVOS E OUTRAS MISSANGAS

A poesia não abre portas. Não espalha
o ar rarefeito da sala. Não tira os pelos
da cama. Pentelhos...
Não importa aos senhores
do Conselho. Nem às senhoras
do movimento.
A querem luta. Pobre puta!
Aos suicidas é apenas o motivo. Que no
sabre sobra e surta.
É só um caos. Um penhasco do qual salto
sem asas para dentro das miragens.
A poesia não reconhece as covas
da eternidade. O cânhamo e não o cânone
é sua matéria.
Artéria de aquarelas. Metáforas singelas.
A poesia, esperta, finge que é pássaro
e voa longe da sua verdade fingida.



(Lau Siqueira)

os dias não são todos iguais

são tempos estranhos
de campos verdes e mentes
secas


as nuvens que atordoam o espanto
tomaram formas vis – e estúpidas

os caminhos estão híbridos
qualquer lugar é um pouso

e o ninho somos nós

não há o que guarde um voo
nem mesmo as asas

o voo é um mergulho
cercado de ar
as noites não são frias no nordeste
o desconforto morre numa manta

tudo era fome
antes da janta


nas ruas o soldado aponta o fuzil
para o povo e atira

as ruas estão vazias
as calçadas estão varridas
o meio-fio pintado

nada mais me foi contado
(Lau Siqueira)

NUNCA MAIS

Uns jogavam pessoas
nos fornos das usinas
e depois iam pra casa
assistir o Jornal
Nacional.
Outros torturavam
o dia inteiro: choques
na vagina, no pênis,
no ânus...
Retornavam à noite
com a Bíblia debaixo
do braço para cuspir
num Cristo sangrado.
Sobrevoavam
o Atlântico despejando
corpos.
Enfiavam agulhas nas
unhas. Davam porrada.
Estupravam prisioneiras.
Lacaios!

Estavam apenas
cumprindo ordens.
Ainda hoje lambem
as botas dos ianques.
Baixam as calças para
Trump...
Celebram ditadores
pedófilos. Chupam
O ovo de Netanyahu.
Fizeram escola.
Criaram correntes
de mentiras repetidas.
Inventaram mamadeira
de piroca.
Elegeram um presidente
que quando perguntado
sobre os desaparecidos
diz que não é cachorro
para ficar procurando
ossos.
Beócios!

(Lau Siqueira)

DISSONANTES

Não tenho algo que possa
realmente chamar de meu. Talvez as distâncias que
declaro. Meus os silêncios
não extirpados... Entre o caule e o pólen,
existe a flor. Sentimento
que germina. Olhos arregalados na paisagem.
Coração em festa de ano novo. Os arremessos que acerto, não
meço. Não tropeço no que me encanta. Também não tenho medo
do deserto. Só sei que estou vivo.
Não sei se estou certo.

(Lau Siqueira)

MEU NOME É JOÃO

Quando João nasceu era
Lua Cheia em Boa Vista.

Uma imensidão
de estrelas mergulhava
no infinito...

Yanomamis caminhavam
pelos corredores da
maternidade...

Ao menor
sinal de atenção,
sorriam.

João nasceu como
legítimo e digno filho
do povo.

Com direitos.
Sem privilégios.

Um príncipe buscando
o reino mamário da mãe...

Meu coração ciscava
de amor, de esperança
e de medo. A delicadeza
era o lado extremo da vida
naquele momento.

Dias passados e o menino
já estica seu olhar para
o futuro.

- Olha, João! A Lua...

Onde ainda estarão os
mesmos olhares estendidos
no chão da Guyana?

Onde há bolívares sobrando
para o troco das fronteiras?

Quando João nasceu já era
solidão nas trilhas do
Monte Roraima...

E Jaguarão era tão longe.

Mas, lá estava o menino
que agora sorri para
o mundo.

(LS)

PIRILAMPOS

quando tu
cigarra em mim
com teu perfume

eu vaga-lume

ECLIPSE

toda beleza é ancoradouro
e é barco e é mar aberto e

é farol e é tempestade e é
o azul com arco-íris e é sol bebe a sede que veio
de longe jorrando aos risos num rio
de metal e metáfora toda beleza é pura
e é mestiçagem violeta algo brusca
na manhã que a ilumina no mais
é a vida que ensina

(Lau Siqueira)