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PONTO PASSIVO

chegou ferida de bala
jogou logo uma palavra
na lata da minha cara

tonto que nem colibri 
pousado no espantalho
tropecei no próprio riso

e na primeira tristeza
peguei a mesma palavra
estiquei o sangramento

destravei o pensamento
sacudi o meu tormento
no gelo do peito dela

e era quase um talibã
naquela noite terçã
fugindo de dentro dela

era uma dor tão caipora
que em meio ao tiroteio
sangrei no lado de fora

(LS)

ITABUNA

Se me perguntarem
o que senti em Itabuna,
cidade que gerou Jorge
Amado, direi que fui
amado na terra
de Jorge.

Acha pouco?

Saravá, Seu Jorge
Guerreiro! Marceneiro
a esticar no torno da
palavra escrita, a madeira
sem lei da história...

Do povo que nasce, morre,
volta, revolta e organiza o
quilombo na própria pele.

A cidade anda um tanto
descuidada. Mas, o Rio
Cachoeira ainda corre,
ainda belo, ainda
esquecido...

Talvez a cidade não saiba
que as suas melhores
paisagens

são as pessoas.

Pessoas que plantam flores,
que fazem amor, que sonham
com as cores e os perfumes
do acaso.

Planta, bicho, gente. Somos
a mesma multidão. Candomblé
no sangue da terra. No que
mesmo derramado se agrupa
e fortalece. No que passa como
um raio, mas tatua a cidade
na memória.

Em Itabuna a leveza
do vento carrega de
aventura o cheiro
do ar...

Itabuna é um cerco do olhar.

Cidade que geme de dor,
mas que também goza. No
ar que se respira, no vento
que vai em Ilhéus, só
pra ver o mar...

E volta pro m…

O QUE NÃO DEIXOU DE SER

De frente pra história apenas me curvo.
Pois há que se reconhecer o que é raro.
Como rara é toda verdade. Ave de
guerrilha no estribilho...
Pode ser que tudo exploda
em expressão e coragem...
Pode ser que tudo falte. Pode ser
que a noite emplaque. Pode ser que vate
ou quem sabe um mate. Erva na cuia dos
lajedos.
“Hoje acordei mais cedo” - disse. Às 4h
da madrugada não é mais o dia que vai
nascer mas a vida toda que passou
e ainda está aqui, sumindo, sumindo...
O tempo é longe!
Tem vez que a solidão toma conta. Nada
embriaga o que está só. Nem o vento. Ou
a escada.
Nem o haxixe das manadas...
O que ficou já não te pertence.
De tão imensas que são essas ilhas
da existência...
Às vezes penso nisso e
falta paciência.
(Lau Siqueira)

A ÚLTIMA PÁGINA

Não guardo mágoas. Pesam demais. São fardos que grudam
na pele e deixam as omoplatas
em carne viva.
Não guardo o que me fere para
além das próprias cicatrizes. São
exatamente as dores que não
fazem falta.
Aquelas que feriram fundo. Que
descarnaram a alma. Não hesito
em transbordá-las na primeira
janela...
Como num livro que
se lê de forma inconclusiva.
(Lau Siqueira)

LATITUDE

tem gente
que é grude

outros são
apenas nude

tem os sem
aço e sem
atitude

os que de
tanto suar
açude

hey
jude

SONHAR COM SERPENTES

Stop. Não se assuste. Não se
trata de vidência, mas de poesia.

Eram pequenas serpentes
apenas. Em algumas pessoas
elas ficam enormes. Engolem
quem se aproxima. 

Depois engolem a própria fome 
para saciar a miséria
do corpo...

Eram pequenas serpentes
que foram extraídas enquanto
estavas dormindo. Agora estás 
livre do veneno. Estás longe
de ser devorada,

comida das tuas próprias
demências.

As cobras extraídas representam
libertação. Significa dar lugar
aos pássaros do teu corpo e da tua
alma. 

Que saia o que
rastejaenha 
o que voa e canta...

Mas, o poeta não decifra sonhos.
Apenas observa e faz escolhas.

Escolhi cantar e voar pra você.
Vida de pássara que alimenta
o planeta.

Olha!
Sinta que já chegaram
os pássaros...

LS

MEU NOME É JOÃO

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