medoescuro
eras uma rua dentro
de um rio
e eu aprendiz de
luzes e sombras
(pausa)
viver é frágil
como criança que
acorda com medo
do escuro
(lau siqueira – poema vermelho)
ADEILDO VIEIRA
Para quem estiver por João Pessoa nos dias 15 e 16 de julho vale a dica do show “de bolso” (voz e violão) que um dos mais férteis compositores da Paraíba, Adeildo Vieira, fará no anfiteatro do Casarão 34. Os shows começarão às 20 horas e o Casarão 34, unidade da Fundação Cultural de João Pessoa – FUNJOPE, fica localizado na Praça Dom Adauto, em frente ao Palácio do Bispo.
SOBRE O VINHO
Tenho o hábito de colher uvas líquidas nas prateleiras dos supermercados. E depois vir para cá, espetar palavras no enredo gregoriano que é meu canto. (o canto que escrevo) A poesia, algumas vezes, é uma taça de tinto seco… eco… eco… eco…
REVISTA ETECÉTARA
Mais uma boa publicação virtual cresce pelos espaços da literatura. É a revista Etecétara, já em seu vigésimo número.
VALÉRIA TARELHO
Em agosto sairá o livro de Valéria Tarelho, uma das grandes revelações da poesia brasileira na última década. O livro sairá pela Coleção Alguidar, dirigida pelo poeta Frederico Barbosa, na Editora Landy(SP).
POEMA DE JOCA REINERS TERRON
Se Godzilla goza
Tóquio em polvorosa
cai uma chuva viscosa
como manga com leite
O Drácula ejacula
e o seu dia encurta
King Kong esporra, range
esfrega no Empire State
e mostra a língua hirsuta
A noite se alonga, larga
pra Kong e Jessica Lange
que tira a tanga e sonha
ser mulher-macaco, a Monga
que sacode a grade, a luz apaga
e a noite segue, de encontró
em encontró, numa suruba monstro
(Sex horror show, poema de Joca Reiners Terron, nascido em Cuiabá e vivendo em Sampa. Poema da antología Na Virada do Seculo – Poesia de Invenção no Brasil – Editora Landy-SP, 2002)
Sábado, 11 de Julho de 2009
Escritos de
lau siqueira
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Terça-feira, 7 de Julho de 2009
espiral
nenhuma flor
na impossibilidade
do segredo
nenhum idílio
no olhar do búfalo
nenhuma lágrima
que não as secas
(meu coração
é manso e absurdo)
(poesia sem pele – lau siqueira)
REVISTA COYOTE
Seguramente uma das melhores revistas literárias do país é a Coyote, editada por Ademir Assunção, Marcos Losnak e Rodrigo Garcia Lopes. A revista sai de Londrina, no oeste do Paraná, e percorre o Brasil. É distribuída nacionalmente pela Iluminuras. Maiores informações pelo e-mail revistacoyote@uol.com.br
UM TEXTO DA COYOTE
“Não devemos desperdiçar a graça dos pequenos momentos de liberdade de que podemos desfrutar: uma mesa compartilhada com pessoas que amamos, umas criaturas que ampararemos, uma caminhada entre as árvores, a gratidão de um abraço. Nós nos salvaremos pelos afetos. O mundo nada pode contra um homem que canta na miséria.” (Ernesto Sábato)
FERNANDO PESSOA
Pessoa não foi apenas um poeta. Pessoa foi e sempre será um idioma da poesia. Sem ele, alguns de mim não existiriam. Certamente, nem eu. Pessoa é um aprendizado que não cessa de iluminar. Seja a cada leitura, a cada informação obtida sobre o cara que um dia amou uma mulher chamada Ofélia. Para quem, aliás, escreveu “cartas de amor ridículas”. Um dos primeiros poetas a constatar que a emoção do poema é fruto de uma construção do pensamento. Coisa que duvido muito, mas, acredito.
SALVE SALVE HERMANOS
Li que o Ministério da Educação e Cultura do Uruguay determinou que a partir de 2010 as escolas públicas do país passarão a adotar o português como o seu segundo idioma. Confesso que o governo brasileiro deveria fazer o mesmo, determinar o estudo do idioma espanhol para os estudantes deste continente irmanado pela mistura das raças, dos credos, dos sentimentos e dos medos.
BIBLIOTECA DIGITAL
A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura – UNESCO lançou recentemente a Biblioteca Digital Mundial. Lá você encontra o acervo de grandes bibliotecas e instituições culturais do mundo inteiro, inclusive do Brasil. O acesso gratuito pelo endereço www.wdl.org
POEMA DE CARLOS PENA FILHO
É o muito esperar que existe em torno
Que me destina a ação desbaratada.
A morte é bem melhor do que o retorno
ao nada.
Não nasce a pátria agora, o sonho mente,
mas, em meio à mentra, sonho e luto
pois sei que sou o espaço entre a semente
e o fruto.
(Tiradentes, poema de Carlos Penna Filho – Os Melhores Poemas, Global Editora)
Escritos de
lau siqueira
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Domingo, 5 de Julho de 2009
cordas vocais
a garganta é uma represa
de tudo que não pode ser dito
sumidouro de palavras que
percorrem na boca o véu dos
resumos infinitos
permanência do assombro
no espelho orvalhado
das manhãs
(lau siqueira – poemas vermelhos)
A POESIA DOS GRANDES PROSADORES
Estive lendo um artigo de Rodrigo Petrônio sobre a poesia de Jorge Luiz Borges. No texto eram apontados os altos e baixos do autor de obras emblemáticas em prosa, como a História Universal da Infâmia. Conheço pouco a poesia de Borges. Mas, o livro O Elogio das Sombras poucas vezes retiro da estante para as necessárias releituras de um poeta. Penso que a grande poesia de Borges está exatamente na sua magnífica prosa e nos seus ensaios. Esse Ofício do Verso, por exemplo, é um dos meus livros de cabeceira. O mesmo ocorre com Machado de Assis, prosador genial e poeta que também mantenho delicadamente dormindo na estante. A poesia precisa provocar permanentemente o leitor. Sou do tipo de leitor que precisa conversar com os livros: para ouvir e ser ouvido.
A PEDAGOGIA DO POEMA
Dificilmente lemos duas, três, cinco vezes um romance ou mesmo um conto. Com o poema não acontece o mesmo. Há poemas que leio há muito e desde sempre. Há poetas que são como se estivessem sempre nos chamando pra conversar, através dos seus livros de poemas. Como Rilke, Bandeira, Pessoa, Kaváfis, Maiakovski, Carlos Pena Filho, Hopkins, Drummond e tantos. A poesia nos ensina a recomeçar permanentemente. Apreender e aprender, sempre. Até que tudo se dissolva no bar. Digo: no ar.
AS PEQUENAS GRANDES DISTÂNCIAS
A literatura moderna vem sendo construída em cima de referenciais interessantes. Parece-me que já comentei por aqui, mas vou repetir. Em outubro passado estive participando do PortoPoesia2 em Porto Alegre. Fiquei para além da minha mesa, assistindo as palestras e os debates seguintes. Uma das falas que muito me chamou a atenção foi a de José Eduardo Degrazia, afirmando que tinha como referencial de mini-conto, as prosas poéticas de Baudelaire.
POESIA SUPERIOR POESIA INTERIOR
Dia desses, relendo os conceitos disparados por um poeta-ensaísta no prefácio de uma conhecida antologia, fiquei pensando acerca das suas argumentações para estabelecer as diferenças e justificar suas opções. Claramente o “mano-poeta” estabelecia distâncias nas suas observações. Amparava as suas análises nas prováveis origens literárias de cada um e não no osso duro de cada poema. Pose de academia. Argh!
RELEITURAS
Claro que existem formas e formas de leitura e releitura. Por exemplo, tempos atrás estive papeando pelo MSN com a poeta chilena Patrícia Cabezas. Tentei traduzi-la para o português. Na verdade, amparado pela idéia de tradução enquanto modo de reler uma obra e dar a ela um contorno aproximado com a cultura da língua em questão e mesmo com alguns elementos da nossa própria capacidade de criar. Traduzir poemas é um desafio interessante demais para a minha incompetência. Quanto à Patrícia Cabezas, sei pouco a respeito. Sei que é advogada e que foi uma das vítimas da brutalidade do regime do ditador Pinochet. E sei, também, que escreve poemas e nunca publicou um livro.
Soledad
Estoy tan sola,
Que casi no me siento.
Mi cuerpo es imperceptible
Ni siquiera la soledad me carcome los huesos
Porque ya no me siento
Y.. entre el sueño y la vigilia
Con esta liviandad de cuerpo
Tal vez hay nada
Sólo silencio
Silêncio
Estou tão só
Que quase não me sinto
Meu corpo está imperceptível
Nem mesmo a solidão corrói meus ossos
Porque já não me sinto
E... entre o sonho e a insônia
Com esta leveza no corpo
Talvez eu não seja nada
Só o silêncio
(Poema ainda inédito de Patrícia Cabezas, do Chile, colhido e traduzido por mim, num papo do MSN)
Escritos de
lau siqueira
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Quinta-feira, 2 de Julho de 2009
Com muita tristeza comunico o falecimento do querido poeta Rodrigo de Sousa Leão. Rodrigo tinha 44 anos e morava no Rio de Janeiro. No próximo dia 9, às 19 horas, a Casa das Rosas, fará uma homenagem ao poeta, com a presença de Frederico Barbosa, Cláudio Daniel, Horácio Costa e outros poetas. A Casa das Rosas - Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura, fica localizada na Av. Paulista, 37 - Bela Vista (11) 3285.6986 / 3288.9447, em São Paulo - SP.
Abri o e-mail para colocar um post, mas... diante da triste notícia, silencio... tão frágil a vida! E há quem não se preocupe com ela.
Escritos de
lau siqueira
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Terça-feira, 30 de Junho de 2009
Fotografobia
Guardo as imagens que recolho na memória.
Ou mesmo na falta dela.
Sou um pensador de memórias não vividas
para uma vida de tecer memórias antigas...
(do meu próximo livro, Poesia Sem Pele)
DE LÍRIOS
Escrevo de dentro de uma caixa de ossos. Dos alambrados da pele. Com olhares que estimulam o que sereia palavras. Não escrevo o que não me retalha ou me dilui nas coisas. Palavras são lâminas. Agudez que percorre os múltiplos rios das correntes sanguíneas. (Rios que solapam a alma.) Por isso não retiro nunca o que digo. Mas, volto atrás se o engano se confunde com o medo do abismo. Escrever poemas é não temer os abismos!
LIVRO DE POEMAS
Quando empresto um livro de poemas que gosto é como se entregasse à pessoa um pedaço de mim. Quando dou um desses livros, um pouco da minha existência vai junto. Às vezes as pessoas nem percebem. Então empresto e o livro nunca mais volta. Talvez seja esta a mais delicada forma de presentear. Um livro que já tenha contaminando nossas células com o infinito...
POESIA E MERCADO
Poesia não vende? Eis um mito do mercado do livro. Na verdade, poesia não vende, mas... Livros de poemas vendem. Rimbaud continua vendendo. Quantas edições - em quantas línguas – das obras completas de Lorca já foram para as ruas? Pessoa ainda vende muito. A edição dos melhores poemas de Quintana bateu a casa dos 100 mil exemplares vendidos. Um estudo recente sobre o mercado do livro revelou que em algumas regiões, poesia vende mais que a Bíblia. Poesia não vende?
POESIA E MERCADO I
Ocorre que a lógica da poesia é a palavra e suas metalurgias e não o mercado. Isso é indiscutível! Mas, não dá pra deixar de pensar que os melhores poetas, autores dos mais significativos poemas, acabaram criando um produto de consumo. Consumo intelectual, mas consumo. E nada menos que “uma coisa chamada livro”. Uma relação desmistificada por Monteiro Lobato no início do século XX ao deparar-se com um país continental com apenas 30 livrarias para onde, em tese, distribuir seus livros. Como já disse aqui, ele enviou correspondência para donos de mercearias, farmácias, bancas de jornais e afins, com uma pergunta desmistificadora das relações da literatura consigo mesma e com o sistema em vigor. “Você quer vender, também, uma coisa chamada livro? Perguntava Lobato. E conseguiu com isso estabelecer uma rede com mais de dois mil pontos de vendas para seus projetos editoriais.
POESIA E MERCADO II
Logicamente que os poetas contemporâneos têm mais dificuldade. Mesmo assim, vendem. Claro que não como um Quintana. Claro que não como um Leminski. Acontece que a nova poesia brasileira, por exemplo, é escrita por poetas cinqüentões. O poeta, quando amadurece, cai do pé. Morre. A luta corporal com a palavra é coisa para uma vida inteira. Viver de poesia? Vá perguntar para os repentistas como é que se faz. Ou então, seja parceiro de um Lenine, um Chico Cesar, um Caetano, um Lula Queiroga para beber na fonte. E se o poeta contemporâneo quiser viver de poesia? Fácil! Vai trabalhar, mano!
COM A PALAVRA EDLA VAN STEEN
“A poesia sempre foi escrita para leitores que têm o código de leitura. E esse, aprende-se na fase escolar. Tanto aqui como na Europa e nos Estados Unidos. A Coleção Melhores Poemas já vendeu mais de um milhão e quinhentos mil exemplares, nestes 25 anos de vida. Dizer que brasileiros não lêem poesia é temerário. Os inteligentes lêem. Há uns três anos escrevi o roteiro – Primeira pessoa – para Eva Wilma, cheio de poemas. Ela era aplaudida de pé.”
(em entrevista para William Costa, para o jornal O Norte, de João Pessoa, em 29 de junho de 2009)
POEMA DE GIORGOS SEFÉRIS
Sinto muito ter deixado um largo rio passar
entre meus dedos
sem beber uma só gota.
Agora eu me afundo na pedra.
Um pinheirinho sobre o chão vermelho,
não tenho nenhuma outra companhia.
O que eu amava perdeu-se com as casas:
eram novas ainda no verão passado
e desabaram com o vento do outono.
(poema XVIII de Estória Mítica, tradução de José Paulo Paes. Giorgos Seréris, poeta grego, nascido em 1900 e falecido em 1971. Ganhou o Nobel de Literatura em 1963)
Escritos de
lau siqueira
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Sábado, 27 de Junho de 2009
berimbau de lua
antes que tudo
fuja aos meus pés
vou caminhando
isento das alegrias
fúteis e das tristezas
dispensáveis
vou como um bárbaro
mirando a lua
viajante do tempo
na beira de um açude
de coisas ocultas
caminho como quem
sabe das bifurcações
e dos disfarces
com medo do que
não amedronta
mais
(poema do meu próximo livro, cujo título a princípio será Poesia Sem Pele)
POESIA BRASILEIRA NA ARGENTINA
Recebi indicação do poeta brasiliense Ronaldo Cagiano para um programa da Radio Nacional de Catamarca, na Argentina. O programa é ouvido em todo território nacional argentino e tem por objetivo divulgar a poesia brasileira contemporânea naquele país. Os escritores que passam por aqui, caso desejem enviar seus livros, dirijam correspondência ao poeta Claudio Sesín – B 48 Vivendas Sur – Casa 49 (Anexo I) – 4700 – Catamarca – Argentina.
FEIRA DO LIVRO DE PORTO ALEGRE
Confirmado! Viajo dia 11 de novembro para Porto Alegre, a convite da Câmara Riograndense do Livro. No dia 12, juntamente com poetas como, Laís Chaffe, Edson Cruz e Estrela Ruiz Leminski estarei participando do sarau Cidade Poema. O sarau foi idealizado por Laís Chaffer em tributo a Paulo Leminski e Alice Ruiz. A Feira do Livro de Porto Alegre é considerada o maior evento literário ao ar livre da América Latina.
BAUDELAIRE
Há mais de 25 anos guardo exemplares adquiridos nas “promoções” da Feira do Livro de Porto Alegre. Proust, Balzac e Baudelaire por exemplo. Ontem relendo um Baudelaire comprado na Feira, colhi esta pérola: “O vinho é como o homem: não se saberá nunca até que ponto podemos estimá-lo ou desprezá-lo, amá-lo ou odiá-lo, nem de quantos atos sublimes ou perversidades monstruosas ele é capaz. Portanto, não sejamos mais cruéis com ele do que com nós mesmos e tratemo-lo como um igual.” Fragmento do livro Paraísos Artificiais, de Charles Baudelaire.
SOBRE O VINHO
Sempre fui um apreciador de bons vinhos. Não dos vinhos caros, mas dos bons vinhos chilenos e gaúchos. Sobretudo os acessíveis ao meu salário. Como trabalhador brasileiro sempre vivi na mais soberba dureza. No entanto nunca deixei de comprar vinhos e livros. Conservo com o vinho uma relação muito próxima da relação que tenho com a literatura e, muito especialmente, com a poesia. Não raras vezes foi o vinho que congregou pensamentos e sentimentos numa profusão de linguagens que, num processo de acareação de responsabilidades, acabou resultando num ou noutro poema. Tipo assim: no vinho a embriaguês é inspirada.
POEMA DE JORGE PIEIRO
Enquanto espera vida passar, vai morrendo. Hoje só tem apelo. Tarde. Mas, quem sabe?, deixa de escutar bentivis, se transforma em lodo. Lodo é verde...
(Brincar de Estátua, poema de Jorge Pieiro, poeta cearense, no livro Bolha de Osso)
Escritos de
lau siqueira
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Terça-feira, 23 de Junho de 2009
mobília
.
na madrugada insone
os objetos afirmam suas linguagens
de silêncio
desenvolvem suas prosas mudas
sob a nudez do telhado
imobilizados
movimentam a rodilha do tempo
dilaceram os vultos
espectros antigos
que entre eles se escondem
(poema do meu primeiro livro, O comício das veias. Ed. Idéia, 1993)
JOANA BELARMINO I
Barrados no Braille é o nome insinuante do blog desta professora do Departamento de Comunicação da Universidade Federal da Paraíba, doutora em semiótica pela PUC/SP. Joana canta divinamente. Já gravou algumas parcerias minhas com Erivan Araújo (ex-Tocaia). Mas, também escreve. E como escreve. Texto fluente, cheio de lirismo. Arrisca-se sempre na busca do sublime. Foi parceira no meu primeiro livro, O Comício das Veias (1993) escrevendo contos. Autora de “Dartanhan, um gato com gosto de pinto” (literatura infantil), publicado pela Editora Moderna - SP (1983). Enfim, uma intelectual, uma profissional, uma pessoa brilhante em todos os sentidos. O blog de Joana está linkado ao meu. Ofereço como sugestão aos leitores do Poesia Sim.
JOANA BELARMINO II
Acontece que Joana é jornalista de formação com mais de dez anos de batente. Entrou na UFPB, como professora de jornalismo, com uma média avassaladora: cinco notas 10 e uma nota 9. A maior média da história dos concursos desta universidade, segundo os jornais da época. No momento da desregulamentação da profissão de jornalista, apesar de indiferente ao fato e incrédulo quanto às conseqüências danosas apontadas pela pelegagem da FENAJ e dos sindicatos, presto homenagem aos jornalistas que honram a profissão. Com ou sem diploma. Joana é um exemplo de dignidade profissional. Ela é, também, mãe das minhas duas filhas, Mariana e Mayra. Fomos casados 13 anos e hoje somos cúmplices da mesma vida. Ah, quase esqueço. Joana é cega de nascença. É saudável, mas tem ouvido de tuberculoso. Neste dia 24, completa os mesmos meus 52 anos. Este post é a minha homenagem a esta grande mulher.
DETALHE
Enquanto escrevo este post, comovido, lamentando profundamente as minhas fraquezas por tinto seco, bebo solenemente o vinho que comprei de presente de aniversário para Joana Belarmino.
INDIQUANDO
Algumas revistas virtuais ganharam uma força incrível devido a qualidade visual e ao seu conteúdo. Por aqui, continuaremos a dar as nossas dicas sobre sites, revistas e blogs interessantes. Por enquanto, conheçam a revista Capitu: http://www.revistacapitu.com/
POEMA DE FLÁVIA MUNIZ
Permanece o mistério
daquilo que há de ser um segredo
nunca revelado.
Há uma rosa
onde o indizível habita:
semente da procura.
Há uma vila.
Carrega-me o sonho do homem.
Já não sei dos apontamentos do tempo.
Seria eu pigmento da escrita?
(A Rosa, poema ainda inédito da poeta, compositora e cantora carioca, Flávia Muniz.)
Escritos de
lau siqueira
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Sábado, 20 de Junho de 2009
da utopia
dentro de mim
morreram muitos tigres
os que ficaram
no entanto
são livres
[En na virada do século, Landy, São Paulo, 2002 e O Guardador de Sorrisos, 1998, Trema, PB]
als predadors
de la utopia
dins meu
van morir molts tigres
els que van restar
mentrestant
són lliures
[Traducció de Joan Navarro]
“Aos predadores da utopia” é, provavelmente, o meu poema mais publicado. É usado até mesmo em ‘profile’ de pessoas no Orkut. Já andou até por coluna social. Na agenda do PSTU, também. No Livro da Tribo, antologias, blogs, sites, zines, revistas, suplementos, foi musicado por Zé Guilherme... Agora descobri no site sèrieAlfa.art i literatura do poeta catalão Joan Navarro, este poema traduzido para o idioma oficial da Cataluña, um País que mora na Espanha. Originalmente, o poema faz parte do meu segundo livro, “O guardador de sorrisos”, publicado em 1998, pela Trema Edições. Um selo experimental organizado pelos poetas Antônio Mariano, André Ricardo Aguiar e José Caetano.
MAIS UM TEXTO CATALÃO
Emboscada.
Não de trata de condenar a solidão por sua transmutação silenciosa. Vamos pelo que revelam os nossos minúsculos passos: a imensidão no milésimo de segundos que gastamos movimentando os artelhos para descrever os bosques onde soltamos nossos tigres e nossas araras imediatas...
Lá, onde as palavras são lapidadas como a natureza lapida um raio.
[Texto sentido, Recife, 2007]
[Emboscada]
No es tracta de condemnar la solidesa per la seua transmutació silenciosa. Ens movem pel que revelen les nostres minúscules passes: la immensitat en la mil·lèsima de segons que gastem movent turmells per a descriure els boscos on amollem els nostres tigres i les nostres mentides immediates...
Allí, on les paraules son lapidades com la natura lapida un llamp
[Traducció de Joan Navarro]
ÓDIOS INCONCLUSOS
Tenho amigos que sentem verdadeira repulsa por Ferreira Gullar. (Amigos que muito estimo.) Repulsa construída pela ruptura com o concretismo. Remonta, portando de um tempo de grandes poetas e imensos bicudos. Ironicamente, um movimento que foi uma ruptura gerou alguns dos seus seguidores avessos às rupturas.
Vejo tudo com meus olhos de longe. Não consigo deixar de dizer que li quase tudo de Ferreira Gullar Gullar. Assim como li Thiago de Melo e Neruda.
Achei engraçado quando falei em Quintana para um amigo, poeta gaúcho, e ele torceu o nariz. Pois bem: eu sou avesso a essas imposturas professorais travestidas de modernas. Aqui in PB tem professor de cursinho chamando Clarisse Lispector de “Chatice” Lispector para seus alunos. Barbaridade, meu bichinho! (Do aprendizado poético só desejo uma coisa: o aprendizado com o futuro.)
POESIA INDO E VINDO
Linguaraz é o título do novo livro do poeta pernambucano Pedro Américo de Farias. Um livro que é um disco, pois é bom de ler com os ouvidos e ouvir com os olhos. Na verdade, uma bela edição composta de poemas em todos os sentidos. Contém ainda um CD com a exuberância musical impregnada na poética de Pedro Américo. Vale à pena ouvir. Vale à pena ler. Vale a pena viver uma poesia que subverte a incoerência de ser poeta num mundo de mares revoltos e barcos sumidos. O livro de Pedro se destaca também pela arte de Victor Zalma percorrendo as páginas. Pedro, poeta e pessoa maior. Linguaraz é poesia indo e vindo. E tenho dito!
INDIQUANDO
http://www.letras.ufmg.br/atelaeotexto/
Uma revista interessante.
CONSTRANGIMENTO
Na verdade, o que constrange mesmo é a pequenez das pessoas que sentem com o intestino. Não que seja indigno sentir com o intestino. Mas, é impossível não perceber que quando abordadas por sentimentos intestinos, algumas pessoas viram um bolo de insolências. Outras usam o papel higiênico, dão descarga nos distúrbios e vão embora... (Quem sabe, colher amoras.)
POEMA COMENTADO
o tempo
meu pai me deu esse olho de pássaro
pra mim
o tempo
voa
Escritos de
lau siqueira
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Quinta-feira, 18 de Junho de 2009
cobaia
não existem feridas
que não cicatrizem
mas a marca funda
de um olhar amargo
dói como a dor de
um bicho esmagado
(poema do meu primeiro livro, O Comício das Veias – Ed. Idéia-PB, 1993 – que será republicado do Livro da Tribo 2010)
OFICINA DE CRIAÇÃO POETICA
Certamente o poeta gaúcho Ronald Augusto é dos mais contundentes da cena contemporânea brasileira. Se você mora em Porto Alegre (ou arredores) não pode perder de vista a oficina que será ministrada pelo Ronald. Na verdade é um verdadeiro curso de criação poética. Vai de 2 de julho até 3 de setembro. Maiores informações, aqui.
LIVRO DA TRIBO
Assinei hoje a autorização para que oito poemas e quatro textos de rodapé sejam incluídos no Livro da Tribo 2010. Há mais de dez anos publico poemas neste veículo e tenho colhido vários bons frutos. Por exemplo, meu terceiro livro, Sem meias palavras, foi publicado com recursos provenientes do direito autoral que recebi da Editora Tribo. Eles pagam esses direitos em exemplares que, pelos cuidados gráficos, possuem um forte apelo comercial. Principalmente entre o público jovem. Vendi as agendas e em três dias estava com a grana para a publicação. Já contei essa história 358 vezes, mas adoro sempre contar de novo.
LEITORES E LEITORAS
O poeta Frederico Barbosa contou que estava selecionando poetas para a antologia “Na virada do século – poesia de invenção no Brasil” , pela Editora Landy-SP (2002) e surpreendeu-se com seus alunos lendo meus poemas em sala de aula. Os alunos e alunas conheciam meus poemas das páginas do Livro da Tribo e da internet, apenas. Fred destaca esse fato no posfácio do meu livro. Tenho um imenso orgulho disso, já que nunca tive meus livros distribuídos nacionalmente. (Esse papo já ta qualquer coisa. Contei isso 435 vezes)
POETA MARGILAU
Na verdade, minha história na literatura sempre foi bastante singular em termos de publicação. Nos velhos tempos da arte-correio eu publicava poemas, verbais e visuais, em aerogramas e enviava centenas pelo Brasil afora. Produzia zines, enfim... Não pensava sequer em publicar um livro naquela época. Em 1993, juntamente com Joana Belarmino (mãe das minhas filhas, com quem era casado na época), publiquei O Comício das Veias. Aí, lascou!
A REPERCUSSÃO
Surpreendeu-me quando li nos jornais uma repercussão positiva do meu primeiro lançamento. Afinal, muito pouco mostrava o meu trabalho e muito pouco, logicamente, repercutia. Depois, em 98, veio O Guardador de Sorrisos, com aquelas provocações da concretude e outros babados, meio que quebrando o nariz do meu pobre lirismo. Enfim... a lupa continua! Então, fui aprimorando a visão e, confesso, estou imensamente comovido com a possibilidade de escrever um poema ducaralho (só não sei quando).
UM POEMA DE PEDRO AMÉRICO
arrombou cerca
abriu porteira
apurou ouvido
liberou fala
assobiou gemido
lavrou palavra
e foi embora
mostrando a língua
Recebi hoje o livro e o CD do poeta pernambucano e amigo querido, Pedro Américo. Uma edição de primeiro mundo. Fuga é o título do poema acima, que integra a edição de Linguaraz. Espero em breve estar tramando o lançamento deste livro aqui na doce e selvagem capital da Paraíba.
Escritos de
lau siqueira
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Domingo, 14 de Junho de 2009
RAZÃO NENHUMA
o que escrevo
é apenas parte
do que sinto
a outra parte
finjo que minto
e acredito
(poema do meu terceiro livro, Sem meias palavras, Ed. Idéia-PB, 2002)
MÁRCIA TIBURI
Logicamente que vou pinçar aqui um fato isolado num artigo da professora Márcia Tiburi (Cult 133), onde ela aborda o conceito de instalação e outros babados da arte. Portanto, sem precipitações além das minhas próprias, ok? Márcia sentiu necessidade de escrever o artigo após ser inquirida por uma jovem aluna universitária de Santa Catarina, durante uma palestra. A menina queria saber que danado era a tal da instalação. Márcia percebeu, então, o quanto ainda é preciso começar do zero. O que me deixa perplexo, entretanto, não é a pergunta da aluna. Mesmo que seja considerada ingênua ou desinformada. O que me deixa perplexo é o silêncio dos demais. Principalmente dos que tinham certeza que sabiam o que era uma instalação.
EDUCAÇÃO E REFORMAS
Ainda hoje há uma predominância professoral, corporativista e conservadora sobre as políticas para a educação em nosso país. Talvez tenha sido mesmo um avanço a determinação de garantir um percentual (25%) para as escolas. No entanto, a Educação não pode nem deve ser tratada apenas no âmbito escolar. Uma revolução na Educação Brasileira passaria por muitas estradas. Uma delas iria certamente rever as concessões de rádio e TV que em sua imensa maioria derrubam qualquer tentativa de implementação de uma mentalidade produtiva em nossos jovens.
POETAS DE HOJE EM DIA(ANTE)
Recebi um presente carinhoso da poeta Priscila Lopes, a antologia organizada por ela e por Alice Gallina. Mais uma boa tentativa de desvendar o universo poético brasileiro. Como diz Jayro Schmidt na quarta capa do livro, se trata de um trabalho que representa “um recorte e todo um panorama que, por sua vez, compõe camadas de semas e semantemas agrupados por estratégias poéticas que vão do discurso mais ou menos coloquial à visualidade do poema.” Além de Aline e Priscila, amigos como Ronaldo Werneck, Estrela Ruiz Leminski, Wilson Guanais e Marcelo Sahea fazem parte da antologia. Os demais, confesso, não conhecia. O que revela a importância de um trabalho assim para divulgar os novos poetas. Salve, salve, Pri!
UM POEMA DA ANTOLOGIA
sou poeta
de um poema
inacabado
: ainda
espero
o inesperado
(destaco na antologia este poema de Wilson Guanais. Numa rápida vista d’olhos, pude observar outros bons poemas da ousada investida de Priscila e Aline)
EU TENHO APRENDIDO COM O SILÊNCIO
Durante o nosso dia encontramos alguns tipos de silêncio. O silêncio terno e o silêncio taciturno. O silêncio terno flutua pelos corredores, sem medo do abraço. O silêncio taciturno refugia-se numa espécie de couraça. E se revela múltiplo. Existem tristezas que se arrastam para a gosma cinzenta da injúria. E o silêncio somente incomoda na fala de quem não pensa.
UM TEXTO DE FLÁVIA MUNIZ
“Menos silêncio houvesse e seria a culminância da obra. Mas não: são as voltas. Como me tornar mais humana? Como provocar as chamas incisivas da fala? O amor é mais largo que a morte. O tempo não dissolve palavras escritas em cartas. Por isso escrevo, para fazer do tempo uma espécie de abraço enorme. O conforto é usar vírgulas no lugar de ausências. O corpo sabe dos lugares das páginas. Quando foi que nossas letras entrelaçaram os pés? Sempre sei a próxima frase, mesmo quando a boca é outro nome, e o nome a presença aguda da falta. Não é poesia o que escrevo e me permaneces a alargar as ruas, as vias, as praças. Porvir é pássaro livre. Voar é epifania. Na imaginação o amor acende o sol, a distância o desejo. Querer perto e beijo é oásis no deserto? O rio da vida deságua em mar aberto... O ponto final não aprisiona o tempo da história. Papel e pele guardam a memória do imponderável. As linhas não contém a língua. A língua escreve em papel-corpo o pergaminho do fogo.”
(publico aqui de forma privilegiada o texto de Flávia)
UM POEMA EMBLEMÁTICO DE JOSÉ PAULO PAES
a poesia está morta
mas juro que não fui
eu eu até que tentei fazer o melhor que podia para salvá-la
imitei diligentemente augusto dos anjos paulo torres
carlos drummond de andrade manuel bandeira
murilo mendes vladimir maiakovski joão cabral de
melo neto paul éluard oswald de andrade guillaume
apollinaire sosísgenes costa bertold brecht augusto
de campos
não adiantou nada
em desespero de causa cheguei a imitar um certo (ou
incerto) josé paulo paes poeta de ribeirãozinho
estrada de ferro araraquarense
porém ribeirãozinho mudou de nome a estrada
de ferro arraquarense foi extinta e josé paulo paes
parece nunca ter existido
nem eu
(Acima de qualquer suspeita, poema de José Paulo Paes, colhido na revista ETCétara, Literatura & Arte, número Zero)
Escritos de
lau siqueira
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23:41:00
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