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NEGA PINTO

Caminhei. Andei distâncias imensas
e tardias. Caminhos efêmeros,
às vezes. Espalhei pegadas cruzando
lajedos e geadas.
Pés dormentes na brasa ou no gelo.
Todavia, caminhos não são estradas.
Distâncias diluídas onde a dois
palmos e meio o mandacaru
já não é o mesmo.
O caminho pode ser plano.
Ou uma verdadeira escalada.
Outra coisa é a estrada
e suas bifurcações.
Eu caminho pelo tempo.
Horário oficial do Seridó. Onde
a vida às vezes é salobra.
Em Frei Martinho
fiz a antropologia da alma – fui
rezado pela Nega Pinto.
(Nega Pinto é um ser encantador, uma Rezadeira que conheci em Frei Martinho. Fiz um poema pra ela"

APARÊNCIAS

A preço de hoje penso
que perdemos as contas.

Não há nada nas
gavetas.

Apenas aquela nudez na
imensa nitidez da Lua.

O tempo é um garimpo entre
a pedra e a pérola de cada
momento. Destampa os alaridos
e os silenciosos grunhidos dos que
sonham com o espelho jorrando
lembranças...

Na pele da tua espera
tatuei minhas armadilhas.
Escondi todos os medos
debaixo do tapete no qual
voava.

Não costurei as feridas
que tuas mãos cavaram
em mim.
Mas, senti a rigidez das
pálpebras secando uma
lágrima. Havia um epigrama
sob a janela...

ofuscando a retina.


(Lau Siqueira)

DE JAGUARÃO PARA JAGUARIBE

(ao amigo Paulo Ró)
Minha terra 
é o chão que piso. Cada polegada de caminho
e de pegada. No sentido
das sombras desvestidas
pela luz... A memória é o meu país.
Gaúcho, urbano, paraíba
e macuxi, tchê. Minha terra
tem coqueiros, butiás.
Figos e caju. Imenso céu azul. Tem sabores e enjoos.
Amor e névoa. Às vezes faz frio. Mas,
a vida é tórrida na torre
do meio dia. Minha terra? História
por onde meus passos
seguiram. Voos e pousos na causa
operária de desvelar
a própria teia... Sem bossa.
A vida às vezes tão triste,
noutras vezes é dolorosa. Insossa: ? : É caldo fino e veloz.
Mas, engrossa. Engessa,
enterra e cospe em cima. Também um Olimpo
e um Quilombo vestindo
o mesmo modelito
especialmente
feito. O mesmo conceito. Viver é bom. Mas, às
vezes falta jeito. (Lau Siqueira)

PONTO PASSIVO

chegou ferida de bala
jogou logo uma palavra
na lata da minha cara

tonto que nem colibri 
pousado no espantalho
tropecei no próprio riso

e na primeira tristeza
peguei a mesma palavra
estiquei o sangramento

destravei o pensamento
sacudi o meu tormento
no gelo do peito dela

e era quase um talibã
naquela noite terçã
fugindo de dentro dela

era uma dor tão caipora
que em meio ao tiroteio
sangrei no lado de fora

(LS)

ITABUNA

Se me perguntarem
o que senti em Itabuna,
cidade que gerou Jorge
Amado, direi que fui
amado na terra
de Jorge.

Acha pouco?

Saravá, Seu Jorge
Guerreiro! Marceneiro
a esticar no torno da
palavra escrita, a madeira
sem lei da história...

Do povo que nasce, morre,
volta, revolta e organiza o
quilombo na própria pele.

A cidade anda um tanto
descuidada. Mas, o Rio
Cachoeira ainda corre,
ainda belo, ainda
esquecido...

Talvez a cidade não saiba
que as suas melhores
paisagens

são as pessoas.

Pessoas que plantam flores,
que fazem amor, que sonham
com as cores e os perfumes
do acaso.

Planta, bicho, gente. Somos
a mesma multidão. Candomblé
no sangue da terra. No que
mesmo derramado se agrupa
e fortalece. No que passa como
um raio, mas tatua a cidade
na memória.

Em Itabuna a leveza
do vento carrega de
aventura o cheiro
do ar...

Itabuna é um cerco do olhar.

Cidade que geme de dor,
mas que também goza. No
ar que se respira, no vento
que vai em Ilhéus, só
pra ver o mar...

E volta pro m…

O QUE NÃO DEIXOU DE SER

De frente pra história apenas me curvo.
Pois há que se reconhecer o que é raro.
Como rara é toda verdade. Ave de
guerrilha no estribilho...
Pode ser que tudo exploda
em expressão e coragem...
Pode ser que tudo falte. Pode ser
que a noite emplaque. Pode ser que vate
ou quem sabe um mate. Erva na cuia dos
lajedos.
“Hoje acordei mais cedo” - disse. Às 4h
da madrugada não é mais o dia que vai
nascer mas a vida toda que passou
e ainda está aqui, sumindo, sumindo...
O tempo é longe!
Tem vez que a solidão toma conta. Nada
embriaga o que está só. Nem o vento. Ou
a escada.
Nem o haxixe das manadas...
O que ficou já não te pertence.
De tão imensas que são essas ilhas
da existência...
Às vezes penso nisso e
falta paciência.
(Lau Siqueira)

A ÚLTIMA PÁGINA

Não guardo mágoas. Pesam demais. São fardos que grudam
na pele e deixam as omoplatas
em carne viva.
Não guardo o que me fere para
além das próprias cicatrizes. São
exatamente as dores que não
fazem falta.
Aquelas que feriram fundo. Que
descarnaram a alma. Não hesito
em transbordá-las na primeira
janela...
Como num livro que
se lê de forma inconclusiva.
(Lau Siqueira)