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COMBUSTÃO

O que se mostra nu
não é o corpo. Porque
um corpo nu é o que
a pele jamais revela.
O que se mostra nu
é o avesso.
O que não meço.
O tropeço. O que não
posso e esqueço.
(Eis a vida
e seu endereço.)
O que se mostra nu não
é o espírito. Este nem
de pele se veste. É
vento o que se espalha
pelo ar, sem cheiro
de nada...
Apontamentos,
apenas.
Daqueles que transtornam,
mas também se derramam.
Como se derramam idílios
e bússolas nas travessias.
O que fica além de nós
enquanto ária do espanto.
No que era tudo
No que era tanto...
Temos versos para dizer,
mas calamos um silêncio que não cabe no motivo.

(Lau Siqueira)

POUSO

Trocamos olhares. Falamos através
dos nossos
silêncios... Parei pra dizer olá. Depois fui embora. Vida passarinho... Nem tudo é voo.
nem tudo é ninho. (lau siqueira)

EQUINÁCIA

Gosto de chá.
De café, também.
São prazeres diferentes.
Amores distintos, mas não
divididos.

No caso do chá, gosto de
sabor que traz cura.

Por exemplo, estou tomando
um chá de equinácia. Aumenta
a imunidade.

Mas, o que eu sinto mesmo é
um paladar pousado na beleza
da flor de equinácia.

Como uma abelha operária
elaborando o sabor do mel.

RECORTE

então
fui mudando
aos poucos
mudei tanto
nesses tantos
anos loucos
e aprendi
que mudança
é coisa que
não tem fim
mudo ainda
mais um dia
até não mais
saber de mim

(Lau Siqueira)

NEGA PINTO

Caminhei. Andei distâncias imensas
e tardias. Caminhos efêmeros,
às vezes. Espalhei pegadas cruzando
lajedos e geadas.
Pés dormentes na brasa ou no gelo.
Todavia, caminhos não são estradas.
Distâncias diluídas onde a dois
palmos e meio o mandacaru
já não é o mesmo.
O caminho pode ser plano.
Ou uma verdadeira escalada.
Outra coisa é a estrada
e suas bifurcações.
Eu caminho pelo tempo.
Horário oficial do Seridó. Onde
a vida às vezes é salobra.
Em Frei Martinho
fiz a antropologia da alma – fui
rezado pela Nega Pinto.
(Nega Pinto é um ser encantador, uma Rezadeira que conheci em Frei Martinho. Fiz um poema pra ela"

APARÊNCIAS

A preço de hoje penso
que perdemos as contas.

Não há nada nas
gavetas.

Apenas aquela nudez na
imensa nitidez da Lua.

O tempo é um garimpo entre
a pedra e a pérola de cada
momento. Destampa os alaridos
e os silenciosos grunhidos dos que
sonham com o espelho jorrando
lembranças...

Na pele da tua espera
tatuei minhas armadilhas.
Escondi todos os medos
debaixo do tapete no qual
voava.

Não costurei as feridas
que tuas mãos cavaram
em mim.
Mas, senti a rigidez das
pálpebras secando uma
lágrima. Havia um epigrama
sob a janela...

ofuscando a retina.


(Lau Siqueira)