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COMBUSTÃO

O que se mostra nu
não é o corpo. Porque
o corpo nu está sempre
escondido debaixo
da pele.
O que se mostra nu
é o avesso.
O que não meço.
O tropeço. O que não
posso, mesmo quando
imerso.
O que se perdeu por dentro
não pode ser exposto. A
menos que a morte aponte
o oposto.
(Eis a vida e seu rosto.)
O que se mostra nu não
é o espírito porque este
nem de pele se veste. É
vento que se espalha
pelo ar. Sem cheiro
de nada.
Apontamentos
apenas...
Daqueles que transtornam,
mas também se derramam.
Como se derramam os
os idílios e as bússolas
da travessia.
Necessárias cordas de fio
afiado. Rapel de caminhadas
íngremes e árduas.
Mensurações do abandono
enquanto lado reverso
da solidão.
O que fica além de nós
é a rua do espanto...
No que era tudo
No que era tanto...
Tenho versos para dizer.
Falo de um silêncio que não
cabe no abismo.
(Lau Siqueira - agosto 2018)

DO TEMPO QUE DEVORA

o sopro da tua falta
acaricia meus braços

e esta sede é apenas
a água que me basta

POUSO

Trocamos olhares. Falamos através
dos nossos
silêncios... Parei pra dizer olá. Depois fui embora. Vida passarinho... Nem tudo é voo.
nem tudo é ninho. (lau siqueira)

EQUINÁCIA

Gosto de chá.
De café, também.
São prazeres diferentes.
Amores distintos, mas não
divididos.

No caso do chá, gosto de
sabor que traz cura.

Por exemplo, estou tomando
um chá de equinácia. Aumenta
a imunidade.

Mas, o que eu sinto mesmo é
um paladar pousado na beleza
da flor de equinácia.

Como uma abelha operária
elaborando o sabor do mel.

RECORTE

então
fui mudando
aos poucos
mudei tanto
nesses tantos
anos loucos
e aprendi
que mudança
é coisa que
não tem fim
mudo ainda
mais um dia
até não mais
saber de mim

(Lau Siqueira)

NEGA PINTO

Caminhei. Andei distâncias imensas
e tardias. Caminhos efêmeros,
às vezes. Espalhei pegadas cruzando
lajedos e geadas.
Pés dormentes na brasa ou no gelo.
Todavia, caminhos não são estradas.
Distâncias diluídas onde a dois
palmos e meio o mandacaru
já não é o mesmo.
O caminho pode ser plano.
Ou uma verdadeira escalada.
Outra coisa é a estrada
e suas bifurcações.
Eu caminho pelo tempo.
Horário oficial do Seridó. Onde
a vida às vezes é salobra.
Em Frei Martinho
fiz a antropologia da alma – fui
rezado pela Nega Pinto.
(Nega Pinto é um ser encantador, uma Rezadeira que conheci em Frei Martinho. Fiz um poema pra ela"

APARÊNCIAS

A preço de hoje penso
que perdemos as contas.

Não há nada nas
gavetas.

Apenas aquela nudez na
imensa nitidez da Lua.

O tempo é um garimpo entre
a pedra e a pérola de cada
momento. Destampa os alaridos
e os silenciosos grunhidos dos que
sonham com o espelho jorrando
lembranças...

Na pele da tua espera
tatuei minhas armadilhas.
Escondi todos os medos
debaixo do tapete no qual
voava.

Não costurei as feridas
que tuas mãos cavaram
em mim.
Mas, senti a rigidez das
pálpebras secando uma
lágrima. Havia um epigrama
sob a janela...

ofuscando a retina.


(Lau Siqueira)