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SEM PAREDES

A vida é água corrente,
das cheias às estiagens.

O que permanece
é imagem disparada.

Parece um rio e suas
corredeiras num vale
de pedras submersas.

Imóveis, impávidas,
imutáveis na espera. O que permanece é
imagem e memória
pregadas no enigma.

A certeza é um vento
e a vida que bate
no peito.

Essa vida que bate
nos ombros e mesmo
onde pesa crescem
asas...

O instante é o signo
de um infinito veloz.


(Lau Siqueira)

MENTIRAS ÍNTIMAS

Perdi o medo dos abismos.
Não pelo meu porte de asas
em voos vencidos. Já não me cabem as penas. Aquele medo de ir na esquina
e nunca mais voltar. Não voltar
não muda nada. Somos
semente germinada...
Somos o que trafega até o fim
e depois continua, firme. Sou o que somos.
Somos o que sou. Sou o que me supera
e o que me separa. O que permanece no vigor
das coisas frágeis. Do que não mais transita na
pele. Do que não deixa rastros
e nem faz sombra na romaria
dos mormaços. Na contramão dos enredos, dos
diapasões e dos medos que
ajudam a caminhar... E nos permitem perder
o caminho.
Lau Siqueira

COMBUSTÃO

O que se mostra nu
não é o corpo. Porque
o corpo nu está sempre
escondido debaixo
da pele.
O que se mostra nu
é o avesso.
O que não meço.
O tropeço. O que não
posso, mesmo quando
imerso.
O que se perdeu por dentro
não pode ser exposto. A
menos que a morte aponte
o oposto.
(Eis a vida e seu rosto.)
O que se mostra nu não
é o espírito porque este
nem de pele se veste. É
vento que se espalha
pelo ar. Sem cheiro
de nada.
Apontamentos
apenas...
Daqueles que transtornam,
mas também se derramam.
Como se derramam os
os idílios e as bússolas
da travessia.
Necessárias cordas de fio
afiado. Rapel de caminhadas
íngremes e árduas.
Mensurações do abandono
enquanto lado reverso
da solidão.
O que fica além de nós
é a rua do espanto...
No que era tudo
No que era tanto...
Tenho versos para dizer.
Falo de um silêncio que não
cabe no abismo.
(Lau Siqueira - agosto 2018)

DO TEMPO QUE DEVORA

o sopro da tua falta
acaricia meus braços

e esta sede é apenas
a água que me basta

CANTO BREVE

Parei pra dizer olá. Depois fui embora. Vida passarinho... Nem tudo é voo.
nem tudo é ninho. (lau siqueira)

EQUINÁCIA

Gosto de chá.
De café, também.
São prazeres diferentes.
Amores distintos, mas não
divididos.

No caso do chá, gosto de
sabor que traz cura.

Por exemplo, estou tomando
um chá de equinácia. Aumenta
a imunidade.

Mas, o que eu sinto mesmo é
um paladar pousado na beleza
da flor de equinácia.

Como uma abelha operária
elaborando o sabor do mel.

RECORTE

então
fui mudando
aos poucos
mudei tanto
nesses tantos
anos loucos
e aprendi
que mudança
é coisa que
não tem fim
mudo ainda
mais um dia
até não mais
saber de mim

(Lau Siqueira)