LÁGRIMAS DE PEDRA
Estive agora pela manhã no velório de Thiago. Irmão mais novo de Cassiano Pedra - um rapper “das antigas” que circula pelas periferias de João Pessoa. Quatro tiros. Dezessete anos. Estavam lá algumas pessoas com olhares de inequívoca revolta. Alguém falou em vingança. E eu vi lágrimas de ternura, ressequidas, no olhar de Cassiano Pedra. Quatro tiros. Dezessete anos. Uma aura de necessidades cercando a casa. Uma mãe que perde um pedaço da alma. Irmãos cujo lamento é guardado num olhar duro... como uma pedra.


pétalas de pedra

neste mundo dividido
entre argüidores amestrados
e inocentes bandidos

corre no ar
ainda o estampido
corre na meta letal dos sentidos


ENTÃO... É NATAL
É Natal na “posse” Nova República, comunidade periférica de João Pessoa onde morava Thiago. É Natal no Manaíra Shopping, onde Frejat foi, recentemente, a atração da noite na festa de aniversário da esposa do dono. As diferenças sociais são à base de cálculo para uma bala perdida numa rua qualquer da cidade. Vivemos em cidades estranhas dentro da mesma geografia. Uma cidade dentro da outra. Uma cidade engolindo a outra. Estas são as cidades visíveis que o personagem de Ítalo Calvino preferiu não relatar ao imperador em "Cidades Invisíveis".

JUVENAL (60-140)

Não agrada o próprio nariz? Logo, uma outra escrava
Enrola o cabelo ao lado esquerdo, capricha
Nos cachos. É chamado um conselho consultivo,
Presidido por matrona venerável, marca
Materna, promovida de grampos à alfinetes.
Fala primeiro, falam depois as subalternas
Segundo a idade e a competência: estão em jogo,
Mais qoe o renome, a vida: como luta a mulher
Pela bela aparência! Mas veja: o edifício
Do penteado parece escalar tantos andares,
Que a portadora adquire um porte heróico – de frente,
Ao menos. Por trás, é outra. Mas, se a natureza
A fez baixinha, pigméia (sem saltos altos),
Pontinhas dos pés pra ter um beijo, que fazer?

(tradução de Décio Pignatari, in “31 Poetas 214 poemas – do Rig-Veda e Safo à Apolinaire”, Ed. Cia. Das Letras)



O ABRAÇO DAS LETRAS
Algumas vezes – não poucas vezes – sentimos o caloroso abraço das letras. É estranho definir assim o prazer da leitura. Mas, é sincero. Vem da alma. Há no ato da leitura, penso eu, um certo acolhimento mútuo. Uma sensação de prazer que só o conhecimento oferece. O leitor e o escritor, neste momento, comungam com o universo em perfeita harmionia. Ninguém sabe onde começa um e onde termina o outro. E são essas as melhores sensações do universo...




NECESSIDADES DO VÔO
Formar uma geração de leitores! Deveria ser este o maior compromisso de todos que perambulam pela área. Sejam comerciantes, atravessadores ou criadores. Sejam escritores, editores, livreiros, bibliotecários, jornaleiros... E, pasmem, até os professores. O que mais me desencanta não é o aluno, o jovem que não lê. O que me desencanta é seu professor que não lê. O alegado baixo salário não é o problema. Provavelmente o baixo salário é conseqüência exatamente de uma leitura deficiente dos livros e do mundo.

Comentários

héber sales disse…
e o professor que recomenda: "veja o filme, não precisa ler."? sei de vários casos. é uma tragédia.

tragédia, como a das cidades que se engolem no Brasil.

e eu gostei da dica do livro de traduções do Décio Pignatari.

também depois de ler o poema de Juvenal, eu fiquei pensando cá com meus botões na nossa vassalagem aos gregos.

um abraço, Lau, e boas festas.
Poesia Sim disse…
os gregos são "apenas" uma grande referência para a história das civilizações, heber.
obrigado pela presença.
Lau
Constança Lucas disse…
que este Blog em 2008 continue a trazer-nos muita poesia !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
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abraços cordiais
Constança
Clarrissa disse…
O abraço das letras é mesmo sublime, caro Lau. Muitas vezes causa uma sensação de se estar sendo compreendido, como jamais se é, de fato. Não enxergo solidão na leitura, mas um encontro. Comunhão de almas que se espreitam.

Abraço e felicíssimo Ano Novo pra ti e pros teus!
Analuka disse…
Formar uma geração de leitores... sim, um belo projeto, um grande propósito!... Também me espanto, me assombro, me preocupo com os professores que não lêem, seja por preguiça, acomodação ou falta de paixão pela palavra... Mas sigo tendo esperanças, especialmente quando vejo meninos e meninas de oito a oitenta encantados, ainda, com o mundo das letras: avós e netinhos comungando as delícias da literatura e da poesia, isto sim é algo a celebrar, sempre que se vê! Beijos alados, Lau.

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