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segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

ERNST STADLER

Primeiro foi preciso forma e ferrolho arrebentarem
E por canos abertos no mundo entrarem:
Forma é volúpia, paz, divina contenção,
Mas me atrai cuidar de cada plantação.
A forma quer-me amarrar e limitar,
Mas quero meu ser pelos ares espalhar –
A forma é rigor claro e sem piedade,
Mas sou levado aos pobres, por fraternidade,
E em ilimitada eu-doação
A vida me afoga em compensação.


(Ernst Stadler nasceu em Colmar, Alsácia. Foi professor universitário, mas acabou morrendo em combate como oficial de artilharia, em 1914. O poema acima, Forma é Volúpia, foi extraído da antologia Poesia Expressionista Alemã, com tradução e organização de Cláudia Cavalcanti. Editora Estação Liberdade, SP, 2000)

TRAVA CRIATIVA
Ando caminhando sem a possibilidade do poema. Não sai um único verso da minha vertente oca. Uma única possibilidade de criação me habita neste momento. De certa forma sou grato por isso. Isso revela que a poesia, em mim, não é um ato mecânico. Não é uma técnica. A poesia é um habitar o infinito. No momento, é como se estivesse num zepelim, um dirigível qualquer, sem direção. Ruminando nuvens...

razão
nenhuma



o que escrevo
é apenas parte
do que sinto

a outra parte
finjo que minto

e acredito

(do me terceiro livro, Sem meias palavras, Ed. Idéia, 2002)


AINDA SOBRE PRÊMIOS LITERÁRIOS
Por que tanta ânsia de alguns para vencer um prêmio literário? Vencer um prêmio literário não te faz melhor. Talvez o vencedor seja apenas o mais sóbrio no trato com a forma e com o conteúdo do que, muitas vezes, é tão óbvio quanto inútil do ponto de vista da invenção (que é o que importa em qualquer expressão). Nem sempre quem escreve bem, cria. Nem todo escritor é artista. Alguns são apenas cavalos de corrida num páreo indevido com a própria vida. Alguns concorrem. Outros, apenas correm. Somente uma minoria se ocupa do que importa: a criação.

blindagem
vivo neste redemoinho
como um cogumelo de ondas
invisíveis sobre a areia
um nada que se avoluma cada
vez que domino a palavra
como amante que permanece
esguio diante do amor
começo a tecer meus rios
paralelos como os rios que em
mim permanecem
cálidos e recorrentes como um
certo expressionismo curdo
(uma vez vencido sou outro)

(do livro Texto Sentido. Ed. Bagaço, PE, 2007)

PAULO LEMINSKI
Literatura é um conceito (ou preconceito) ocidental moderno, uma categoria européia, baseada na produção textual da França, principalmente com a concorrência, meio discrepante, da tradição anglo-saxã, milioária de valores e performances textuais. Outras literaturas da Europa, a espanhola, a alemã, a italiana, a russa, apesar de cumes inseparáveis, sempre ficaram como coisa ligeiramente periférica e subsidiária. Quantos gênios e obras primas não ficaram desconhecidos e obscuros apenas porque tiveram a desgraça de acontecer em húngaro, em sueco, em gaélico, em albanês, em ídisch, em polonês, em galego, em finlandês, em holandês, em tcheco, em português...

(Paulo Leminski, no livro Anseios Crípticos 2, Criar Edições, Curitiba/PR, 2001
)

2 comentários:

héber sales disse...

sabe de uma coisa, lau?
muitas vezes eu acho que a trava criativa é a gente respirando fundo pra um novo e diferente salto no abismo.
um abraço!

marilda confortin disse...

Pois é, o livro anterior do Leminiski que se chamada Ensaios e Anseios crípticos. Muitos de nós, dividíamos a conta do bar enquanto ele escrevia nos guardanapos alguns dequeles "ensaios".
Recebi teu livro hoje. Vou ler no carnaval.