lua crescente




pessoas se tornam imprescindíveis
quando absorvem a essência do sentimento
de mundo que nos leva a perceber cada passo
como foco e âncora do destino

destino que aponta caminhos
e se refaz no sumidouro das próprias fugas

pessoas soam em foles de distância
como prosas de lirismo infinito

avarandadas no espetáculo
minguado dos becos


nos becos
onde a solidão é um tiro certeiro e um corpo que
cai na amalgamada rua

(cidade é lua crescente na noite sangrenta)

pessoas podem violar caminhos ou mesmo
submeter as próprias certezas ao híbrido faro
que nos mantém vivos diante de uma realidade
que pulsa

ri

e
chora

O ESPETÁCULO DO INFINITO
O céu azul da manhã, ou mesmo antes - as cores do arrebol... Enfim, é a noite que se guarda os mistérios do infinito. Cordel de estrelas lampejantes diante de uma eternidade escura. Algumas já sumidas que chegam ao biombo onde mascamos uma vida que se transforma em outra dentro do que há dentro de nós.

POESIA, POIS É...
É como adorar, com as mesmas rinhas, o sagrado e os profano. As leis que regem a Terra não são as mais exatas. Poesia é algo que pulsa não sabemos onde, apenas sentimos. Algo que voa ao rés do chão e rasteja no infinito. O complemento entre a massa de pão e o padeiro. A linguagem em fotossíntese. Algo que arranha os desvelos do que se possa chamar de l-i-t-e-r-a-t-u-r-a. Poesia é ou não é Literatura?

ALZIRA CABRAL
poesia africana contemporânea

Mantenha

Filha do teu adultério
existo
queiras ou não com a mesma pele.
Exilada
sobrevivo contente na terra dos sem cor.
Com a boa vontade que ganhei
das gentes daqui,
sem ressentimentos nem vergonha
cultivo a mentira da tua grandeza
no existir dos meus descendentes.

E mando mantenhas, oh terra
através dos meus poemas vermelhos:

A cor que me deste!

(Alzira Cabral nasceu em Cabo Verde (Bissau) em 1955. Sua obra encontra-se dispersa em revistas e uma seleção dos seus poemas foi publicada na antologia “Mirabilis de veias ao sol” (1991). O poema acima foi extraído da antologia “Poesia Africana de Língua Portuguesa”, organizado por Lívia Apa, Arlindo Barbeitos e Maria Alexandre Dáskalos. Lacerda Editores, RJ, 2003.

ERRÁTICA
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Comentários

héber sales disse…
Pois é, poesia é literatura?

Há uns domingos atrás a Lúcia Santaella escreveu um artigo para a FOLHA em que analisava a posição de Barthes a respeito dessa questão. Acho que ela resumiu muito bem a posição do semiólogo francês. Olha só o que ela disse:

"Em todas as fases de sua trajetória, Barthes permaneceu fiel à sua convicção sobre o poder subversivo da poesia. A subversão da escrita é a negação da literatura como sistema mítico. Por isso, a poesia ocupa a posição inversa do mito. Enquanto o mito visa a ultra-significação, a ampliação de um sistema primeiro, a poesia, pelo contrário, tenta recuperar uma infra-significação, um estado pré-semiológico da linguagem: o seu ideal seria atingir não o sentido das palavras, mas o sentido das próprias coisas."

Um abraço
Constança Lucas disse…
a poesia na voz feminina africana chega-nos tão pouco gostei desta dica

abraços
Constança
Letricidade disse…
Que legal essa revista errática,Lau! valeu pelo toque.
abraços,há braços.saudade.renálide

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