SAMPOEMAS III
No dia 25, em João Pessoa a Orquestra Spok de frevo abre o projeto folia de Rua e em Sampa, em comemoração ao aniversário da cidade acontece o Sampoemas III, no espaço mágico da Casa das Rosas – Espaço Haroldo de Campos, dirigida pelo poeta Frederico Barbosa. A Casa das Rosas tem sido um monumento à invenção poética. E nosso amigo Fred (grande como poeta e como pessoa), um timoneiro insubstituível.

JOAN BROSSA

Són tants els canvis que noto
quant al que sento il al que veig
que si em recordo de tragèdies
personals encenc um cigarrer
i surto del poema.

ENTONAÇÃO (tradução de Wanderley Mendonça)

São tantas as diferenças que noto
entre o que sinto e o que vejo,
que, se me lembro de tragédias
pessoais, acendo um cigarro
e saio do poema.

(“Entonació”, poema de Joan Brossa, poeta catalão (1919-1998), extraído de uma bela edição do livro “Poesia Vista”, que saiu pela Ateliê Editorial em 2005. Joan Brossa fez da sua trajetória literária um ato de liberdade. Jamais comungou com os modismos literários e nunca atrelou-se a qualquer doutrina. “Minha obra sempre teve o tom experimental que acompanha a evolução da arte. Me movi e me movo, numa linha alternativa à arte oficial, que nos quer comparsas em tudo. Porque, definitivamente, os que fazem a História são os que vão contra os tópicos da História”.)

PESSOAS, PESSOAS...

“Fico pensando nesta madrugada de janeiro:há pessoas que se revelam menores ainda do que sãoquando as coisas acontecem da maneira que não desejam.Elas sabem o que fazem?...Mas, como canta Gustavo Magno em "Divina virtude":"Não perca tempo pensandono tempo que virou passado, caro amigo.O passado mora ao lado, caro amigo.Viver é ser mais divino"...

(Perfeita a reflexão do pensador e DJ marinheiro, Carlos Aranha. Um puta dum sábio poeta-puto)

SOBRE O MESMO TEMA
Em dezembro, conversando agradavelmente com o pianista Gilson Peranzetta e sua esposa Eliane, caminhando pelo tombado Centro Histórico de João Pessoa, ouvi uma das paradas mais inteligentes e certeiras dos últimos tempos sobre as agruras da vaidade. A conversa pairava sobre os egos alheios (nunca os nossos, claro). Gilson me contava que um dia ouviu de Tom Jobim: “Gilson, descobri um artista que é maior que a própria obra. Sabe quem? Egoberto Gismonti.” Sem comentários! J

AINDA SOBRE BROSSA
Sempre entendi poesia como um exercício de liberdade. Portanto, metáforas perfeitas, pleno domínio dos elos lingüísticos, erudição e outros babados, não garantem a originalidade de uma obra. Poesia é um ato de ruptura com as próprias convicções estéticas e filosóficas. Joan Brossa foi um ícone desse pensamento. Ele se definia apenas como poeta, apesar de ser também dramaturgo, artista plástico e designer gráfico. Ocorre que seu conceito sobre poesia sempre foi muito amplo. Por isso abraçou diversas formas, do soneto ao poema visual. Ser poeta é não ter medo do ridículo, como diria eu mesmo refletindo sobre minhas próprias e imensas dúvidas.

LIBERDADE É UMA CALÇA VELHA?
Nos anos oitenta mantive uma correspondência bastante profícua com o poeta potiguar Luiz Rabelo (1921-1996). Minha admiração por este poeta estava exatamente na sua capacidade de conviver com a Poesia Concreta e as formas mais tradicionais. Reclamando muito da própria condição física, em missivas de larga inteligência, com a simplicidade dos grandes, Luiz Rabelo disparou: “Ultimamente tento escrever, mas só sai mixórdia”. Fnalizo este post com uma homenagem à liberdade e à dignidade de quem as possui.

LUIZ RABELO

Oito luas fatais de desenganos
Quebraram a harpa e o som inviolado
Das horas improváveis que a meu lado
Construíram de enganos meus enganos

Os negros passos tardos viajados
Do fundo das origens pelos anos,
Me proclamaram morte em altos brados,
Em altos brados proclamaram danos.

E eu vi a flor da morte vicejando,
- Rosa a florir em treva de amargura –
A vida, em sua essência, violentando...

E caminhei à sua sombra escura,
O cadáver do sonho amortalhado
Nas negras dobras de uma noite impura.

(“Soneto negro”, de Luiz Rabelo. Poema do livro “Os símbolos inúteis/1970)

Comentários

Carito disse…
ousa o dia me permeter por aqui e fal(h)ar que meu dente fiquei de boca aberta com seu blog: côr-incidências, com(in)fluências da leminskriação, por ode (diz)peço que a lau sim queira navegar sempre alçado! parabéns!
alana disse…
Oi, Lau!
Quanto tempo, hein?!
Seu novo espaço está ainda melhor que o anterior, vou ficar freguesa(rsrs).
Beijo,
e poesia, sempre.
Priscila Lopes disse…
Não conheço a Casa das Rosas!!! Com certeza já está incluída no meu roteiro em minha próxima ida a SP.

E o que foi esse Joan Brossa? Muito bom. Obviamente me identifiquei. Com a escrita e com o que ela transmite.

"Ser poeta é não ter medo do ridículo". Verdade. Verdade também que alguns se dizem poetas por não terem medo algum, em hipótese alguma, do ridículo. E fazem isso tão bem.

Gostei do soneto. Você tem ótimas citações por aqui. Conhece Ruy Espinheira Filho?

Abraços,
Cinco Espinhos
Lau Siqueira disse…
Obrigado pela presença sempre intensa, Priscila.
beijos!
Lau

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