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quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

VÔOS LOTADOS PARA PASÁRGADA
Ah, MBandeira... essa é muito boa! Sou amigo dos três reis magos, cara. Estou, finalmente, pra lá de Pasárgada. Aqui as brisas são carinhosas e o sol fomenta os desejos da pele. As árvores não cabem inteiras nas sombras. Mesmo assim possibilitam que todo o resto sobreviva. Arvoreavidamente! Por isso os vôos estão lotados para lá de Pasárgada. Lá, os três reis magos são generosos e seus reinos recomendam...

PELOS PERSAS
Que importa se Pasárgada, de capital passou a sítio arqueológico? Os poetas que buscam Pasárgada sabem que não encontrarão igrejas ou muros, apenas superposições de colunatas em ruínas de uma memória antiga. Pasárgada, Bandeira, sabemos bem, é ir em frente. É buscar um tempo onde nem tempo existe. O tempo da memória não vivida. O tempo da mansidão e do silêncio. O tempo de um vácuo num imenso e infinito foco - guerrilha de estrelas no céu enluarado de dois mil e oito.

VAI QUE É TUA, BANDEIRA!

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que eu nunca tive
E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada
Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar
E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

("Vou-me embora pra Pasárgada, o poema de Manuel Bandeira pra onde quero ir)

POIS É, POESIA!
Falar de poesia nunca é tarefa das mais fáceis. Geralmente significa falar de tudo, menos de poesia. Em Natal, pensei isso enquanto falava – não lembro bem – de alguns dos processos vividos por um escritor brasileiro contemporâneo. Nem falo do calibre de cada um. Isso é o que menos importa quando a própria sobrevivência autoral do poeta depende de atos concretos, tipo escrever, selecionar, publicar... e pagar as dívidas de uma moderna civilização. Poesia, pois, é tudo que se move. E mesmo quando parado, ainda assim se move. Poesia é o átomo em uma rocha. A molécula de oxigênio de um pitaco de vento. A mola propulsora do invento...

2 comentários:

Priscila Lopes disse...

Que susto! Pensei que abandonarias também a tua forma de comunicar, assim, agitada, com várias intervenções escritas... Graças a Deus que não! Estás aqui, belo como sempre.

Vai que é tua, Lau Siqueira!

adelaide amorim disse...

Lau, que o ano seja tudo isso que você desejou aí no dia 31.
Poesia é assunto esquivo, é mercúrio que não se deixa pegar mas está ali, bem à vista.
Passa lá no meu blog de poemas
www.inscries.blogspot.com

Beijo e sucesso.