ADONIS AL-HAJ

vou em busca da sombra
entre os brotos e a erva ergo uma ilha
ligo a ramagem à beira-mar
e quando se perdem os portos e enegrecem os caminhos
visto-me do assombro cativo
nas asas da borboleta
atrás do reino das espigas e da luz na
morada da doçura

(“Assombro Cativo”, poema de Adonis Al-Haj. Poesia árabe contemporânea. Tradução de Michel Sleiman e Safa Jubran. Fonte: Revista Poesia Sempre)

O RIO DE JANEIRO CONTINUA LINDO
Estou no Rio. Basicamente ancorado no centrão. Sem vontade nenhuma do litoral. Juro! Afinal, tenho as areias de Cabo Branco. Pra que, então, Copacabana? Estou hospedado num hotel antigo, entre prédios antigos. O primeiro prédio da rede Othon na cidade. Hoje, o modesto Othon Travel Aeroporto. Ando pelas ruas mal disfarçando a paixão pela História Viva das fachadas. Já cumpri (com sucesso) parte dos compromissos que me trouxeram aqui. Amanhã, visito a Biblioteca Nacional, e encerro minha jornada oficial. À noite, vou pro Barteliê (veja no post anterior), lançar meu Texto Sentido no Movimento InVerso, da amiga Clauky Saba. Sábado, cedinho, volto para a Paraíba vieja de guerra. E reafirmo: viver é partilhar olhares!

PENSAR POESIA
Às vezes fico pensando: como pode alguém pensar que pensa poesia sem, pelo menos, manter a perspectiva da dúvida? O pior vexame de quem acha que pensa a poesia é o mergulho na certeza. Isso não produz erudição, mas empáfia. Em poesia, a certeza é uma mentira. Não existe certeza alguma. Literatura não é uma ciência exata. Que certeza? A de Horácio? A de Pound? A de Borges? A de Octavio Paz? A de Rilke? As múltiplas certerzas de Pessoa? A dos teóricos diluidores? Quem diz o que pensa apenas baseado no que leu, perde boa oportunidade de permanecer calado. Se após tantas leituras você ainda permanece imantado, imaculado... enfim, é porque o livro leu você. Você, neste caso, não leu livro algum. Apenas aspirou a impermanência do ácaro. As leituras teóricas deveriam levá-lo à reflexão e não ao comodismo de uma erudição que é, sobretudo, enganosa. E muito, mas muito mesmo, pretenciosa e profundamente estéril. Neste caso devo admitir que as universidades se transformaram instituioções amestradoras e não as catedrais do pensamento que deveriam ser. Claro que abro ressalvas mil para as honrosas excessões da resistência.

PENAR POESIA
Sempre me recusei cagar regras. Jamais quis dizer se um poema ou um poeta é bom ou ruim. Evito isso! Sinceramente, minha parca condição não pretende ser minimamente paradigmática. Não condeno, por exemplo, quem lê Paulo Coelho e Diogo Mainardi ou mesmo quem escreve sonetos. A pior as ignorâncias é a dos que se consideram acima da média, quando o conhecimento nos revela exatamente o contrário. Conhecimento é mergulho no charco que nos coloca imundos de vida. Escrever poemas, para mim, é experimentar, sempre. Se muito agrado é porque algo está errado. Se desagrado posso realmente estar no caminho da invenção. É hora, pois, de desacordar! Romper os acordos da lógica formal! Por isso, agradar quem olha de cima não é minha praia. Prefiro que a minha poesia seja um processo permanente de experimentação que me jogue para longe, mas para muito longe mesmo dos grandes mestres. Não que não os venere, como qualquer leitor coerente com a humildade da espécie. É que ao imitá-los, certamente estaria negando suas histórias na literatura. Imitar os mestres é a mais profunda traição para com os seus ensinamentos.

O DESDÉM DA EMPÁFIA
Eu achava triste, mas passei a achar ridículo. Uma pequena casta de jovens escritores e criaturas professorais, se julga acima de qualquer suspeita literária. Coitados! Falam profeticamente. Profetizam falácias. São apressados em tudo: no elogio fácil e na empáfia travestida de bom gosto. Vomitam uma erudição que suas próprias palavras não comportam. Eles ainda não descobriram que a boa literatura é aquela que realiza uma boa leitura do mundo e não a que realiza uma boa leitura dos livros. Mas será isso uma verdade? Duvido! A literatura amparada apenas na boa leitura dos livros, jamais passará de uma resenha rasa e mal escrita de um conhecimento que - como todo conhecimento - é apenas parcial. Os livros são feitos para o exercício pleno da leitura. Há quem pareça ser lido por eles. Os clássicos, por exemplo, são um parâmetro de fundamental importância. Jamais o fim da história. A vaidade intelectual é a mais perversa das vaidades, pois corrói a personalidade e, muitas vezes, até mesmo o caráter dos desatentos.

tese de machado

no entalhe
a madeira se reparte

com porte de quem
cumpre o rito criador

o machado parte

a árvore tombada
já não é a mesma

virou linguagem
substrato e signo de
abismo e arte

EXERCÍCIO PERMANENTE
Escrever poemas é um compromisso de partilha. Por isso escrevo (como no poema acima) diretamente no blog. Apressado? Não! Descoberto. Nu. Experimental. Acredito que nem mesmo um poema publicado está pronto. Poesia é um processo de permanente mutação. Ou não é Poesia (com P maiúsculo). Todo poema é (ou deveria ser) uma Obra Aberta, como diria talvez Umberto Eco. Por isso, não me preocupo em escrever poemas "agradáveis" ao bom gosto de gente cult & grossa. Me ocupo apenas em escrever versos sinceros, mutantes, simulacros da minha própria existência. Portanto, estou escancarado ao contraditório. Abro mão de tudo que penso se o que penso tem algum vestígio de algema conceitual. Até porque nunca me preocupei em ser ou não poeta. Respirar é, provavelmente, o grande ato igualitário da humanidade. A maioria, infelizmente, respira automaticamente.

Comentários

Lilia Tandaya disse…
“viver é partilhar olhares”... eu faço a minha parte nessa partilha, mas acho q vc faz mais... partilha idéias, reflexões, indignações...
Na minha compreensão de fotógrafa o olhar é apenas um caminho... viver é trilhar vários caminhos, melhor que sejam poéticos...
Sim, Poesia Sim!!!
Após relutar um pouco, também estou partilhando por aqui... “Circulando” http://liliatandaya.blogspot.com/
Moacy Cirne disse…
Nos veremos amanhã à noite, meu caro. Um abração.
sandra camurça disse…
desejo uma noite deliciosa procê.
beijos, vizinho ;-)
e o mundo real, a poesia real, das pessoas reais, onde é que fica nessa historia, caba?
abraço, e quanto às camisetas, respondo noutro email, ando (a)prensado
Analuka disse…
Sim, querido Lau de alma alada e lunar: escrever poesia é partilha... é reinvenção constante de si e do mundo... é a aceitação da dúvida... e o mergulho no mar da incerteza, para poder reencontrar seiva, sabor, mel e luz!... Também sinto saudade de ti, querido. Beijos pintados em tua alma.
Moacy Cirne disse…
Oi, cara, a noite de ontem no Barteliê foi agradável, não? O Balaio de hoje registra o fato. Abraços.
Silvia Chueire disse…
Barteliê, Lapa,samba, chorinho, espero que tenha sido uma boa re-apresentação de um certo Rio que eu amo.


Beijos,
Silvia
Héber Sales disse…
Caro Lau,

Fiquei curioso a respeito de quais seriam as universidades que desenvolvem a resistência elogiada por você. Quais seriam afinal?

Um abraço,

Héber Sales
Lau: Legal (desculpe a cacofonia) o seu post sobre a roubada de pensar a poesia como certeza. Quem pensa através de certezas não pensa verdadeiramente - sequer digo uma novidade, pois isso puro Descartes, o homem que instaurou a dúvida metódica (aliás, há muita poesia em Descartes, um contemporâneo do barroco, como há muitas páginas poéticas em Marx, o “Assim chamada acumulação primitiva contém páginas de puro diálogo com a poética, quando me perguntam um grande poeta, logo incluo na lista Hobbes, é sério)-, e em poesia é mais complicado ainda. Pensar é o próprio exercício da dúvida. Há muitos caminhos, muitas veredas para a poesia. Quando à Universidade, condordo com vc, porém aduzindo que ela é uma máquina ao mesmo tempo de prisão e floração. Contradição dialética, caro, como a vida e o vivido. Abração, Jaldes.
Ricardo Mainieri disse…
Lau :

Acho que conheço estes jovens letrados que devoram livros e retornam uma poesia eivada de citações e certo pedantismo.
Parece que todos, poetas e leitores, devem estar "up to date" com o livro lido nos círculos iniciáticos, com a peça de teatro- cabeça, com o novo filme do cinema irianiano...
Eles são ricos em erudição, mas pobres em emoção...
Fico com a poesia cheia de brasilidade & invenção.
Os outros fiquem com os círculos iniciáticos da literatura.

Abração.

Ricardo Mainieri
Nina Araujo disse…
Lau,penar poesia,nunca!!!Tô contigo!!!Digo Sim Poesia,ò que eu mando proçê:

Denguinho

Meu amor quando merenda
E vê um pé de sapucaia
Sonha que está me amando
Com a malícia duma arraia
Colhe a fruta mais linda
Que é pra se degustar
Traz-me o hálito fresco
Doce como abelha uruçu
Forte como pau de jatobá
Quando me trunca no peito
Tonto de ter convulsão,
É feito formiga no corpo
Sopro de asas de viração
Um punhado de destino
Não cabe na minha mão
Nem com cigana e domínio
Nem com profeta e visão
Nada nos separa o ninho
Nada nos põe ciúmes
Nem uma gata no cio
Nem o vôo de arribação...


Nina Araújo

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