ANA LUÍSA AMARAL

Neste palco de sol,
de repente:
os teus lábios:
anjos caídos mas abençoando

Cada curva e tremura
dentro do nervo exacto
da memória

Por esses lábios
eu faria tudo:

rasgava-me de sangue
e inocência,
partia com as mãos vitrais
e estrelas,
desintegrava o sol

Já não anjos caídos
os teus lábios,
mas deuses transportados
pelos meus

(Anjos caídos, poema de Ana Luísa Amaral. Ana Luísa é escritora e professora da Faculdade de Letras, do Porto, Portugal)

QUEM É?

Pois bem, esta criatura do universo chamada Ana Luísa Amaral escreve poemas que me deixam em transe. Poemas arrancados da vida. Nunca li Ana Luísa Amaral fora da Internet. mas sempre que leio algum poema seu, fico embriagado com o que acredito seja o verdadeiro sentido da poesia. Não vejo em Ana Luísa Amaral a capa preta de qualquer rótulo. Vejo poesia. A mais pura e implacável poesia. E reafirmo a minha convicção duvidosa de ver o sublime no que, muitas vezes, na verdade... arrebenta, explode o que nem sabíamos que existe, mas que nos absorve e em uivos que nos fazem vivos. Confiram!

AINDA JOÃO BALULA
Continuo consternado com a morte do amigo João Balula. Foi um ser humano integral. Cheio de contradições, como todos nós, mas envolto em uma sinceridade que vinha das entranhas de uma raça. Um negro lindo, Balula! Um gênio da raça. Não gosto de lamentar a morte de pessoas queridas. Prefiro agradecer o privilégio de tê–las conhecido. Mas, enfim... Caramba, fiquei triste! O enterro foi de uma alegria triste no batuque da Malandros do Morro. No aboio de mestre Zequinha, do Cavalo Marinho de Bayeux. No toque do berimbau de Manhoso. Nos cânticos do candomblé de Mãe Renilda, nas palavras do Padre Hernandez, na Poesia de Ronaldo Monte. Nas lágrimas amigas... Agora, vamos correr atrás do legado de um cara que veio ao mundo ensinar as pessoas a arte da felicidade. Já vi Balula puto. Nunca vi Balula triste. Mas, estou melancólico demais, pra não falar mais de tristeza com a morte de uma pessoa que era um símbolo de alegria de viver, da igualdade entre os povos, das lutas negra e libertária no mundo.

ECLÍPSE PRA BALULA
Quando saí do necrotério, diante do que ainda restava de um riso amigo e constante, olhei para o céu e a lua estava em eclipse. A Lua ficou negra pra receber Balula. Então me vesti de um luto branco, cujas águas despejo aqui no Poesia Sim, com a permissão dos seus visitantes. Ou não. O inevitável não pede permissão. E os leitores do Poesia Sim sabem disso.

poema seco

não estou para muita coisa
vim escrever um poema seco
coisa de lágrima que pedra

não estou para inventar uma
angústia ou mesmo tripudiar sobre
meus olhos secos

não estou para outra coisa se
não mergulhar no murmúrio
incrédulo das palavras

pois o poema é a face descoberta
de tudo que pulsa

o poema é a atitude permanente
em tudo que passa

(ls... da série, Poemas Vermelhos)

MUTAÇÕES EM CÓDIGO
Hoje vou participar de um Seminário chamado A Permanência do Efêmero, no Atelier de Maria dos Mares, aqui na capital da Paraíba. O projeto reunirá uma artista plástica, um psicólogo, um arquiteto, um teatrólogo e um poeta, em depoimentos que serão registrados em vídeo. São 11h49m. Não sei ainda o que vou dizer. A propósito, acabo de tomar uma taça de vinho tinto seco. Porque a embriaguez é a perenidade de tudo que em nossas certezas, permanece apesar de já ter ido. A perenidade é uma certeza efêmera.

Comentários

Moacy Cirne disse…
Pô, cara, é a primeira vez que visito seu novo espaço. Muito bom. E o rio Jaguarão parece tão belo quanto o Seridó. Voltarei. Voltarei. Aliás, vou espiar agora mesmo o que tem por aqui em matéria de boa poesia. Um abraço.
Ana disse…
Por enquanto só dei uma espiada, mas embora não entenda quase nada de poesia quanto outras pessoas, posso garantir que aqui há poesia da melhor qualidade, e digo com certeza há de um tipo que eu mais gosto. Voltarei
Márcia disse…
Poise u tenho todos os livros dela, de Ana Luísa. E de quebra, ainda somos amigas via e-mail. ;) Quando vc vier por aqui, lhe empresto.
Beijo!
Belo blog!
:D

By Fran
http://devassaaar.blogspot.com/
Jacinta disse…
Passo por aqui, com a sede de querer aprender. Fico contente, fico curiosa, fico...apreendendo o seu olhar que confirma: "viver é partilhar olhares!"

Parabéns pela realização e abraços

Jacinta

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