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quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

ANTÔNIO MARIANO

Sabia que não era feio
e o que insinuava
não era espelho.

Mirava-se
no que era externo,
ilusão de horizonte,
extensão dos olhos,
imagem mais bela.

Primeira lição de admirar:
o melhor reflexo
está na janela.

(Narciso ao avesso. Poema do poeta paraibano Antônio Mariano extraído do livro Guarda-chuvas esquecidos. Ed. Lamparina-RJ)

JOÃO BALULA
Morreu nesta madrugada o militante do Movimento Negro e do Movimento Cultural de João Pessoa, João Balula. Balula era um estandarte das próprias crenças e descrenças. Soube se conduzir com dignidade diante dos tantos desafios que a vida impõe a todos nós. Era meu colega de trabalho na Fundação. Cumpria fielmente a sua missão, demonstrando em cada gesto que somos todos iguais. Quando saí do necrotério, olhei para o céu e a Lua estava em eclipse.

DIGNIDADE
Dignidade não combina com vaidade desmedida. Pela vaidade, algumas vezes, as pessoas perdem as menores noções de ética. Vale mais o próprio umbigo. A vida vira um vale tudo. Os amigos não valem nada. Nada vale nada. Só a vantagem que se possa levar sobre os fatos. A fantasia de ser ímpar, sendo apenas desigual. Só as relações que, por ventura, possam catapultar a mediocridade humana de quem precisa conviver com a notoriedade. Cada vez que a morte se aproxima de forma tão imensa, como na partida de Balula, penso um pouco no quanto são diminutos determinados gestos, determinadas atitudes...

O BARCO

noturno
no mar
ele
soturno
no mar
ele
o barco

no mar
uma luz
na noite
um barco
no mar
um marco

(Poema do meu primeiro livro, O Comício das Veias)

OLHAR A VIDA
Olho a vida com olhos de quem não vê importância em nada além do invisível. Nada além do que está ausente das piruetas do ego. Vejo a beleza das coisas inanimadas. A certeza do imperceptível. A inocência das árvores plantadas nas calçadas do Terceiro Milênio. E parece que o tempo estanca...

BARULHO

palavra
por palavra
minha úlcera
de verbos
tece aos poucos
a membrana
do silêncio

(Poema do meu primeiro livro, O Comício das Veias)

4 comentários:

Priscila Lopes disse...

Adorável o poemeto.

Me diga: donde estás, corazón? Já respondi teus e-mails. Você não me enviou o número da conta, já te disse que faria questão.

Coloquei teu livro lá no Cinco Espinhos (a imagem da capa, lógico) para expor junto de outros aos quais já tive acesso, de escritores também muito bons.

Abraços!

Michel Carlos disse...

Bons textos... como sempre. Engraçado esse nome de livro "Guarda-chuvas esquecidos"
postei um guarda chuva hj.
Sinto muito pelo seu amigo, da até pra sentir q o eclipse n foi por acaso.
abraço!

Jacinta disse...

Do mar e no mar, sempre extraimos maravilhosas belezas, como o que se vê em O BARCO. Muito bonito.
E a vida é assim, hoje estamos aqui, a brincar com as palavras, amanhã, quem sabe.
É o mistério da vida.
Melhor mesmo é viver com intensidade os momentos que nos são proporcionados. Isso penso.

sandra camurça disse...

Lau,
estou conhecendo agora tua poesia. já devia conhecer há mais tempo, eu sei. Devo isso a Moacy Cirne que publicou esse poema teu e já publicou outros anteriormente, lá no Balaio. Também vi alguns poemas na Germina Literatura. Muito bons, sem puxação de saco, viu? Gosto de poemas curtos.
Um abraço.