DYLAN THOMAS

Sem trabalhar com as palavras por três meses estéreis nas
sangrentas
Vísceras do ano opulento e na grande bolsa de meu corpo,
Censuro amargamente minha pobreza e meu ofício:

Tomar, dar, eis
tudo, devolver o que se dá com fome,
Soprando para o céu as libras do maná
através do orvalho,
O gracioso dom da conversa ricocheteia numa lança.

Elevar-se, afastar-se das riquezas humanas e gostar da morte
Que
varrerá todas as moedas do alento marcado
E calculará os mistérios furtados
e atraiçoados numa escuridão maligna.

Render-se agora é pagar em dobro a
esse ogre perdulário.
Antigos bosques de meu sangue, arroja-os à amêndoa dos
mares
Se eu me puser a queimar ou restituir este mundo que é obra de todos
[os homens.



(Sem trabalhar com as palavras, poema de Dylan Thomas, com tradução de Ivan Junqueira – Poemas Reunidos, Ed. José Olympio)

“A BELEZA DE SER UM ETERNO APRENDIZ”
Foi Dylan Thomas quem disse: “Para mim, o impulso poético ou a inspiração é apenas a súbita, e geralmente física, chegada da energia para a perícia e o senso estrutural do artesão”. Já Euclides da Cunha ironizou bastante quando afirmou: “Estilo? Quem tem estilo? Tolstoi, Stendhal. Maneira tinha o Machado de Assis. A gente só tem mesmo é jeito”. Mas quem realmente arrebentou mesmo foi Paul Valéry: “É inútil para mim conhecer algo que não posso transformar”.

POESIA SUOR E DELÍRIO
Outro dia, num seminário, ouvi um cidadão cartesiano afirmando que Mozart somente foi o gênio que foi porque começou a estudar piano quando menino. Fiquei calado diante de tamanha tolice. Claro que a técnica é importante. Mas, se somente a técnica importasse, todo doutor em literatura era quase um Drummond. No entanto, a maioria se limita a escrever teses enfadonhas, retrato de uma universidade falida. Dylan Thomas mata a pau. Ele anula aquele conceito imbecil dos percentuais de inspiração e transpiração. Ele coloca a artesania literária e o chamado impulso poético no mesmo plano. São, na verdade, complementares (lógico!). Em termos percentuais eu diria que somente com os tradicionais 90 por cento de transpiração, ninguém jamais conseguiria sequer escrever um poema.

COMENTANDO
Euclides da Cunha, no entanto, ironiza os caçadores de estilos. Também Zeca Baleiro quando canta “não sou maluco nem sou careta/ minha tribo sou eu” declara publicamente que não tem um estilo, mas o ”seu jeito”. Mas quem arrebenta mesmo é Valéry. Vez que outra me aparece um ser qualquer, mentalmente inanimado, vomitando regras academicistas. Contestando sem argumentos a invenção poética. Ora, se para escrever poemas no século XXI o poeta precisa se reduzir aos conceitos tradicionalmente conhecidos, estaríamos simplesmente repetindo a história da literatura, quando a nossa obrigação é escrever a nossa própria história. Por linhas tortas, se preciso, mas com personalidade, com substância. O mundo não precisa de um novo Aristóteles. Precisa sim é de pensadores integrais, originais... Como foi Aristóteles, aliás. O Brasil não precisa de um novo Drummond, porque ele continua sendo um dos maiores poetas vivos brasileiros. Quem morreu e não sabe é quem sonha com um novo Gregório de Matos e desconhece a obra de Glauco Mattoso.

DISTRIBUIÇÃO NACIONAL
Sempre que viajo realizo algum tipo de distribuição do meu livro. No Rio, recentemente, deixei 3 livros em telefones públicos. Minutos depois, fui conferir e não estavam mais. Os livros tinham uma dedicatória ao leitor(a) desconhecido(a). Também deixei um livro numa estátua de Manuel Bandeira. Fiquei estarrecido! Em pleno centro do Rio (fervendo de gente), deixei o livro na hora do almoço e às 19h, quando me dirigia para Ipanema para uma festa poética, o livro ainda estava lá. O último exemplar eu depositei naquela bolsinha onde ficam as cartelas de instruções dos aviões. Fiz isso no vôo 3080, da TAM. Um vôo que seguia para Natal e Fortaleza. Enfim, o mó sucesso! J

CLEMENTE E MARILDA
O uruguaio Padin é um dos maiores poetas visuais do mundo. Performático, vanguardista pelos quatro costados, faz parte de um grupo de artistas que sempre me interessou. Marilda, querida amiga, ingressou num caminho que no creo: o caminho dos punhetrix. Ou seja: os velhos e surrados tercetos rebatizados por um poeta da Bahia, muito esperto. Marilda tem talento. Não precisa desses rótulos grotescos (poetrix). Padín é um mestre da invenção poética. Uma das grandes referências poéticas que carrego pela vida.

Comentários

Priscila Lopes disse…
Excelente postagem!

E uma coincidência fe-no-me-nal: acabei de lhe enviar um poema do Glauco.

Oh-my-God.

E você, um dia, escreveu assim:

às vezes me desespero
e cometo absurdos

às vezes simplesmente
fico mudo

não sei de onde vim
nem porque assim
me desnudo
adelaide amorim disse…
Poema e comentários sempre ótimos!
Beijo.
Jacinta disse…
Gosto de passar por aqui.
Um abraço
Jacinta
Renata!!! disse…
Oi Guri..Tudo bem??

Adoro tudo q vc posta


Beijinhos
Declev disse…
Parabéns pelo blog e pelas palavras...

http://hebdomadario.com

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