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quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

FRANK O’HARA

Não vou chorar o tempo todo,
também não vou rir o tempo todo,
não prefiro um “gênero” ao outro.
Quero ter a imediatez de um filme ruim,
não só os de repente bons, mas também a nova
super-produção recém lançada. Quero estar
tão vivo quanto o que é vulgar, pelo menos. E se
algum aficcionado da minha tralha vier dizer: “Isso
mal parece que é do Frank!”, ótimo! Eu
não uso terno cinza ou marrom o tempo todo,
uso? Eu não. Vou à ópera de camisa,
muitas vezes. Quero os pés descalços,
o rosto barbeado e o coração –
não dá para planejar o coração, mas
a melhor parte dele, a minha poesia, é aberta.

(Meu Coração, poema do estadunidense Frank O’Hara (1926/1966). Tradução de Luiza Franco Moreira. Fonte: Revista Inimigo Rumor, número 9)

SÓ ESCREVO QUANDO SANGUE
É como arregaçar as próprias veias para escrever com hemácias. Uma coisa assim, meio que imperceptível, mas arrancada do sangue. Não escrevo com os glóbulos para não manchar a camisa que já é pleno suor. Escrevo para livrar o lado de dentro do que, quando guardado, putrefaz. Escrevo bailarino das teias, dos teares por onde a palavra é o avesso do próximo homem-bomba que por algum motivo ativa minh’alma na mira de qualquer esquina.

MÚSICA DO MUNDO
Vezenquando escuto infinitas vezes a mesma música. Gosto de Zeca Baleiro, Chico Cesar, Lenine e Paulinho Moska. Gosto dos quatro juntos cantando... Ouça aqui!

ARIANO E PAMPEIRO
Sou ariano e pampeiro. Penso que são duas marcas fortes da minha eixstência. Nasci numa região de muitas guerras sob um signo de fogo. Quando menino brincava sobre covas antigas. Pedaços de um outro tempo. Tempo de Guerras... Um tempo simulado pelo barulho dos bambus que enfiávamos terra adentro somente para bater nos caixões cujos defuntos, de tão antigos, não nos amedrontavam mais. Tum, tum, tum... Éramos meninos e ríamos da morte!

abstratado

(para Geraldo Vandré)


guardo palavras
tristes migradas
do esquecimento

palavras que
ainda sublimam
em meus dias os
sopros que
reparto no hálito
das manhãs

ando pensando
sobre tudo e canto
como se falar fosse
um ato mudo

(ls / Da série Travesseiro de Placenta)

ARIANO E PAMPEIRO
Se algo pude, foi pensar o meu tempo. Escrever poemas que me arrebataram e deixaram extenuado. Poemas tragados do fundo da alma. De lugares onde nem sei de mim...

MEU PAI
O velho Theodoro foi o homem mais importante da minha vida. Mais que Fernando Pessoa. Imagine! Mais que Rainer Maria Rilke, mais que meu irmão que amo tanto. Às vezes sinto sede desta sua memória. Viver e morrer com dignidade! Eis minha herança mais forte. Todo o resto veio em torno.
Aprendi vendo meu pai no plantio, que a vida brota naturalmente, quando cuidamos dela.

EQUILÍBRIO
Quando as travessias me são caras e raras as alegrias rasas. Quando voar sobre incêndios não derrete minhas asas...

11 comentários:

Rodrigo de Souza Leão disse...

Passei pra dá um oi. Oi: muito bacana o espaço. Recebi seu livro. Gostei muito. Só não entendo porq vc se considera um neobarroco. Se pintar com Mariano, André, Linaldo, Sérgio Castro Pinto, mande-lhes meu abraço.

Márcia disse...

Chego aí amanhã de tarde, viu? Quero ver vc.

E, by the way, adoro Frank O'Hara. ;)))

Beijo grande.

Linaldo disse...

o poema (muito bom) me fez lembra caetano: "Canto somente o que não pode mais, se calar". será que viajei?

Jacinta disse...

Gostei disso: escrevo para livrar o lado de dentro. Achei seu espaço e estou por aqui, explorando.

Um abraço
Jacinta

Ana Ramiro disse...

Lindos poemas, especialmente o do Frank O´Hara que roubei lá para o Girapemba. E, por sinal, você também está lá, ótimo, o mais novo imortal-virtual da biblioteca! beijos e gracias, Aninha

soledade disse...

Lau, fiquei um tempo sem visitar o seu espaço (ou espaço algum) na blogoesfera. É bom voltar a lê-: à sua poesia, à de outros que escolhe... E esta frase maravilhosa e aparentemente paradoxal:

«Aprendi vendo meu pai no plantio, que a vida brota naturalmente, quando cuidamos dela.»

A vida, como a poesia...

Um beijo e todo o sucesso do mundo!
Sol

Carol Timm disse...

Lau,

Nosso sangue é do mesmo tipo: poético e nosso equilíbrio quase igual: quando a tempestade não me devora e mesmo sob ráios e trovões navego em calmaria, estou em equilíbrio.

Beijos... estava com saudades de vira aqui!
Carol

Tamy disse...

.. Bem , achei incrivel a maneira com que vc lida com as palavras : sem moderações e tão fantasticamente .

"não dá para planejar o coração, mas a melhor parte dele, a minha poesia, é aberta." ou mesmo
"a vida brota naturalmente, quando cuidamos dela."
isso dá um efeito maravilhoso ao leitor...achei lindo
gostei do blog \o/
:D

Beijo:*

Larissa Gabriela disse...

Digo o mesmo do seu blog!
Vixe, que esse poema "abstrato" me de até um arrepio. Muito bom!
Está de parabéns!

Héber Sales disse...

Post intenso, visceral. Gostei muito de tudo.
Abraço!

Renata!!! disse...

Oi guri...
Lembrei de uma musica..."eu nao comsigo ser alegre o tempo inteiro"

Beijinhos meu amigo!