MÁRIO FAUSTINO

Não quero amar o braço descarnado
Que se oculta em meu braço, nem o peito
Silente que se instala no meu lado,
Onde pulsa de horror um ser desfeito
Na presente visão de seu passado
Em futuro sem tempo contrafeito,
Em tempo sem contato transmudado.
O morto que em mim jaz aqui rejeito.
Quero entregar-me ao vivo que hoje sua
De medo de perder-me em pleno leito
Rubro de vida e morte em que me deito
A luz de ardente e grave e cheia lua.
Ao que, se a morte chama ao longe: Mário!,
Me abraça estremecendo em meu sudário.


(Não quero amar o braço descarnado, poema de Mário Faustino, 1930/62. Extraído do livro O Homem e Sua Hora – e outros poemas, Cia das Letras)

O POETA E SUA HORA
Enfim o dia 21 de março. Dia Internacional da Poesia. Comemoro hoje cinqüenta e um anos de convivência com as muitas linguagens do mundo. Por esses dias tenho refletido sobre as coisas que me cercam. Circunstâncias que muitas vezes calam diante do silêncio. Pessoas que se revelam posseiras do medo. Pessoas que vomitam ácido no apelo das miudezas cotidianas... Por isso me dei de presente esse poema de intensidades múltiplas. Obra de um dos maiores poetas brasileiros: Mário Faustino. Boa noite!

suicídio lento
na mobília da alma
os versos que
invento
(do meu terceiro livro, Sem Meias Palavras, Ed. Idéia-PB, 2002)

LUIZ RABELO
O poeta potiguar Luiz Rabelo, sempre me impressionou pela sua capacidade de usar a forma, ao invés de ser usado por ela - como tantos por aí. Tive a oportunidade de trocar correspondências com ele no início dos anos 90. Impressionou-me muito positivamente sua capacidade de conviver, crítica e ludicamente, com o compasso das suas esgrimas estéticas. Seja no soneto, na quadrinha, no poema concreto... Em todas as formas ele mandava bem. Era um poeta exato. Presenteou-me certa vez com seu livro Espaço Concretista (que li e repassei ao bróder Fred Barbosa). Ando querendo pesquisar sua obra e sua vida. Quando falei em seu nome, lá no Encontro Natalense de Escritores, despertei a saudade do poeta Jarbas Martins, seu amigo querido. Agora estou na busca da história e da poesia de Luiz Rabelo pra juntar algo que um dia possa ser, quem sabe, uma edição à altura do poeta que foi Luiz Rabelo. Quem puder ajudar, será bem vindo.

cobaia

não existem feridas
que não cicatrizem
mas a marca funda
de um olhar amargo
dói como a dor
de um bicho esmagado

(do meu primeiro livro, O Comício das Veias, Ed. Idéia - PB, 1993)

POEMA/PROCESSO
A revista Brouhaha, da Fundação Capitania das Artes, de Natal-RN, em seu número 10, traz uma edição especialíssima sobre o Poema Processo que tem no amigo Moacy Cirne um dos seus criadores e uma das suas principais vigas de sustentação nos dias de hoje. Eis uma edição para ler e guardar, pois abriga um dos mais importantes documentos da Poesia de Vanguarda em nosso país. Os interessados podem arriscar e solicitar a revista, pelo e-mail revistabrouhaha@hotmail.com. Acho pode rolar até de grátis, de repente!

TEMPESTADE DE IDÉIAS
Tenho escrito alguns textos reflexivos acerca da vivência no olho do furacão da produção cultural neste Imenso Portugal. Confira: http://lau-siqueira.blogspot.com/

PORTO ALEGRE DÁ POESIA
Quando deixei “as ruas de um Porto não muito Alegre”, a poesia me parecia retida nos passos lentos de Mário Quintana. Gostava dos seus passos! Eram caminhos que eu não percorreria. Talvez por isso, gostava de sabê-los percorridos. Nos dias de hoje, Porto Alegre respira poesia. É pura efervescência! Entre os dias 24 e 29 de março, por exemplo, o coletivo PortoPoesia promove “Porto Alegre Dá Poesia”. Os timoneiros, ao sabor do rio, são os amigos Mário Pirata e Sidney Schneider. Sempre no Centro Cultural CEEE Erico Verissimo – CCCEV, no Mezanino do 1º andar (Rua dos Andradas, 1223, Centro, Porto Alegre).

Comentários

Lau, parabéns pelos 51 anos de poesia.
ânimo nas empreitadas, a tranquilidade necessária, saúde e, claro, poesia em alta-voltagem, é o que desejo.
abraço
Constança Lucas disse…
com a poesia caminhamos
adriana zapparoli disse…
sim, para poesia,sim! beijo
Álvaro Andrade disse…
Não sei da poesia, mas ouvi falar que a Porto não é tão alegre...
minha amiga voltou triste.
Anônimo disse…
cobaia

"não existem feridas
que não cicatrizem
mas a marca funda
de um olhar amargo
dói como a dor
de um bicho esmagado"

Este fui tão fundo em mim...
Verdades, meias ou inteiras, a força da palavra.
Não importa o que se diga, vivem dentro de nós, alegres ou triste e sem repouso...

Lindo de doer Lauzito! Beijo de Beatriz

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