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Mostrando postagens de Abril, 2008
AGLAJA VETERANYI

Na verdade ela ainda vive e sofre de
obsessão. Dia desses, mandou trancafiar seus
admiradores num armário e afogá-los no poço.

A atriz Stursa Bulandra tinha tão pouco talento que,
durante as suas cenas, até as cadeiras do teatro adormeciam.
Suas pernas criaram varizes, e aí ela se matou.

Na verdade, ela se casou, teve três filhos, ficou
roliça e satisfeita e cheirava sempre a torta de maçã.
Um dia perdeu a memória e esqueceu-se de acordar.

Verdade verdadeira é só que ela se chamava Stursa Bulandra
E que não tinha nenhum talento e que preferia papéis trágicos,
de saias longas, por causa das varises.
E quando ficou velha, bem velha, fingia-se de jovem e
parecia uma menina. No asilo, ficava sentada
o dia inteiro em frente a um pequeno espelho, penteando-se.
Duas vezes ao dia, davam-lhe um comprimido. E, certo dia,
ela simplesmente parou de se pentear. e ainda
viveu por muito tempo.

(Sturza Bulandra, poema da romena Aglaja Veteranyi, falecida em 2002 e nascida em 1962. Tradução de Fabiana …
ARNAUT DANIELVejo vermelhos, verdes, blaus, brancos, cobaltos
Vereis, plainos, planalto, montes, vales;
A voz dos passarinhos voa e soa
Em doces notas, manhã, tarde, noite.
Então todo o meu ser quer que eu colora o canto
De uma flor cujo fruto é só de amor,
O grão só de alegria e o olor de noigandres (*)

(*Noigandres, poema de Arnaut Daniel, trovador provençal do século XIII. Noigandres, enoi gandres / é uma expressão provençal de sentido incerto. Ele era, chamado por Dante de "o melhor criador" e por Petrarca, "o melhor entre todos". Sua obra repercutiu no Brasil, por meio dos ensaios e traduções de Augusto de Campos)

MAYRA BARROS
A sensualidade da mulher brasileira. O swing nordestino derramado nas águas da contemporaneidade. Penso que em breve o país estará conhecendo mais uma talentosa cantora paraibana. Mayra está finalizando um novo trabalho. Música de raiz com roupagem futurista. Tudo cuidado com muito zelo e competência. Sem abrir mão das raízes, passarinho, ela vôa…
LI PO

As ervas são como fios azuis-esverdeados,
A amoreira deixa pender seus ramos verdes.
É o tempo em que se pensa no dia do regresso,
o momento em que a minha dor se torna insuportável.
Vento da primavera, não te conheço!
Por que entras pelas minhas cortinas de gaze?

(Pensamentos da Primavera, poema de Li Po, poeta Chinês que nasceu no ano 701 e morreu em 727 da era Cristã. Tradução de Cecília Meireles. Editora Nova Fronteira)

DELÍRIOS DO LIRA
Confesso que estava curioso a respeito do monólogo escrito, dirigido e encenado por Lirinha. Afinal, admiro bastante o performático vocalista do Cordel do Fogo Encantado. Ontem fui assisti-lo, no XII FENART, aqui em João Pessoa. De cara já fiquei desencantado com o inexpressivo desempenho cênico do cantor. Um texto, abre aspas, monocórdio, fecha aspas, e sem muita conexão com o que se propõe: a polêmica sobre o preço da arte. Uma parafernália eletrônica no palco, uma iluminação pífia, um falatório alucinado e só. Teatro é outro signo, bróder. Vai cant…
FRIEDRICH HÖLDERLIN
"Antes de tudo importa que neste instante o poeta não admita nada como (pré-)concebido, que ele não parta de nenhum traço positivo, que a natureza e a arte tais como conhece como lição não lhe falem nada, antes que uma língua esteja lá para ele, isto é, antes do que isto que agora é desconhecido e sem nome no mundo se torne conhecido e nominável por ter sido composto em concordância com sua Stimmung (disposição)".
(Friedrich Hölderlin (1770 - 1843), poeta lírico e romancista alemão. O texto acima foi extraído da revista Cult)

CULT E GROSSO
Certa vez ouvi um amigo criticar a revista Cult, por ter ampliado sua linha editorial. No entanto, ainda acho de extrema importância para a criação literária os temas propostos pela revista. Por exemplo, este último número trouxe uma reportagem sobre o filósofo francês Merleau-Ponty que muito me instiga. "a verdadeira filosofia é reaprender a ver o mundo". Mas, afinal, a verdadeira literatura também não é exatamen…
JÜRGEN HABERMAS
“A cidadania é uma posição definida pelos direitos civis. Mas temos que considerar também que os cidadãos são pessoas que desenvolveram sua identidade pessoal no contexto de certas tradições, em ambientes culturais específicos, e que precisam desses contextos para conservar sua identidade. Em determinadas situações, devemos portanto ampliar o âmbito dos direitos civis para que inclua também os direitos culturais. Esses são direitos que garantem igualmente a todos e a cada um dos cidadãos o acesso a uma tradição e à participação nas comunidades culturais da sua escolha, para que possam estabelecer a sua identidade.”
(Em, A Ética da Discussão e a Questão da Verdade. Ed. Martin Fontes)

PENSAR, PRA QUE?
Hoje o post não começa com poesia, mas com filosofia. Li, certa vez (acho que no livro Comunicação Poética, do Décio Pignatari) que a filosofia é a maior inimiga da poesia. Não pude concordar. Fosse assim, pensei, não teríamos um Antônio Cícero. A filosofia é, tanto quanto a po…
ADEMIR ASSUNÇÃO

o sol aponta o cocuruto no ombro da manhã
espadas de luz sangrando o escuro
bombeiros, sirenes, crianças, praças
nenhum incêndio queima essa lágrima

(Zoom, poema extraído do livro Zona Branca. Puta poeta, grande amigo do universo)

JOGOS DE INTERESSE
Não. Não se trata de uma paródia ao projeto do Itaú cultural, Jogos de Idéias. No entanto, também acontece na Literatura. E como! A pessoinha A procura a pessoinha B para um acerto na situação C. Isso é indo e voltando. No Jogos de Idéias, o debate arranca pedaços do teto teórico. Nos Jogos de Interesse a ética borbulha na merda.

O MEDO DA MESMICE
Eu sou um poeta destrutivo. Mais deleto que escrevo, parece. O que me espanta, entretanto, é que ainda escapa muita coisa ruim. Tenho uma visão muito crítica acerca do meu último livro, Texto Sentido. A mesmice é a principal marca do livro. Me repito na temática e nas metáforas. Mas, não me repito vagamente. A coisa acontece de forma cavalar. Pudesse, republicaria incluindo alguns poemas e…
MÁRIO QUINTANA

Da primeira vez que me assassinaram
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha...
Depois, de cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha...

E hoje, dos meus cadáveres, eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada...
Arde um toco de vela, amarelada...
Como o único bem que me ficou!

Vinde, corvos, chacais, ladrões da estrada!
Ah, desta mão avaramente adunca,
Ninguém há de arrancar-me a luz sagrada!

Aves da Noite! Asas do Horror! Voejai!
Que a luz, trêmula e triste como um ai,
A luz do morto não se apaga nunca!

(XIII, em A Rua dos Cataventos. Para quem curte, ou não)

PELAS RUAS QUE ANDEI
Dia 3 estou em Sousa, região habitada por dinossauros num passado de milênios. Dia 4, em Cajazeiras. Duas cidades do Alto Sertão paraibano, para onde vou nesta tarde de dia 2 conversar sobre política cultural. Dia 11, faço a mesma coisa aqui em Jampa, no Espaço Psi, onde também vou ler poemas e conversar com as pessoas. Dia 12, participo de uma mesa redonda no teatro Lima Penante, também em Ja…