Translate

sábado, 26 de abril de 2008

AGLAJA VETERANYI

Na verdade ela ainda vive e sofre de
obsessão. Dia desses, mandou trancafiar seus
admiradores num armário e afogá-los no poço.

A atriz Stursa Bulandra tinha tão pouco talento que,
durante as suas cenas, até as cadeiras do teatro adormeciam.
Suas pernas criaram varizes, e aí ela se matou.

Na verdade, ela se casou, teve três filhos, ficou
roliça e satisfeita e cheirava sempre a torta de maçã.
Um dia perdeu a memória e esqueceu-se de acordar.

Verdade verdadeira é só que ela se chamava Stursa Bulandra
E que não tinha nenhum talento e que preferia papéis trágicos,
de saias longas, por causa das varises.
E quando ficou velha, bem velha, fingia-se de jovem e
parecia uma menina. No asilo, ficava sentada
o dia inteiro em frente a um pequeno espelho, penteando-se.
Duas vezes ao dia, davam-lhe um comprimido. E, certo dia,
ela simplesmente parou de se pentear. e ainda
viveu por muito tempo.

(Sturza Bulandra, poema da romena Aglaja Veteranyi, falecida em 2002 e nascida em 1962. Tradução de Fabiana Marchi. Fonte: Revista Inimigo Rumor, número 17)

POESIA MARGINAL
Não quis parecer antipático com a poesia marginal ao dizer, num post anterior, que esse tipo de debate está defasado. Na verdade, creio mesmo que a poesia se divide em boa ou ruim. Não tenho preconceitos estéticos. Os estilos, os rótulos (eca!), são verdades flutuantes. Chacal tentou configurar um confronto com a academia, aqui no FENART. Não é nada disso. O fato é que a identidade dos ditos marginais não rolava se não, pelo uso do mimeógrafo. No geral, era o desleixo comum da maioria dos jovens que se proclamam poetas apenas porque escrevem versos. Nesse sentido, Amador teve suas razões ao dizer que a poesia marginal não existia. Aliás, não havia sequer uma conexão formal ou informal entre o que era feito em Brasília, com o que era feito em Sampa, Rio, Porto Alegre, João Pessoa ou Manaus.

POESIA MARGINAL I
O que eu quis dizer exatamente é que não estou disposto a esse debate exatamente por isso. Não que eu ache que quem deseja pesquisar o tema, não deva fazê-lo. Muito pelo contrário. A verdade é que a poesia marginal no geral, era muito ruim. É preciso que se diga. Mas, é preciso que se destaque, também, poetas como Nícolas Behr e o próprio Chacal, como nomes que se consolidaram por uma vida toda dedicada à poesia (marginal ou não) e pela identidade poética que construíram, a partir da experiência das ruas. Mas qual a relação disso com uma dita estética marginal?

POESIA MARGINAL II
Também publiquei poemas em folhetos. Esta foi, diga-se de passagem, a minha única ligação com essa história. No entanto, me surpreendo às vezes com alguém relacionando a poesia marginal como grande referência minha. Como eu poderia ser um poeta marginal se na época que publiquei em folhetos mimiografados ou xerocados, jamais me relacionei com qualquer tipo de reflexão sobre poesia marginal? A poesia marginal não se constitui em um movimento literário porque nunca buscou a sua própria identidade. É objeto de estudo, mas nunca foi um grupo de estudos sobre a sua própria estética. Não teve um manifesto. Teve na espontaneidade da relação entre a língua e a vida, o seu único traçado. Portanto, a menos que houvesse possibilidade de mudar completamente essa minha concepção eu poderia ter ido. Pra ouvir o óbvio e o ululante como expressão de novidade, fico em casa.

TRAVESSIA

Por vezes
me pego pensando porque
tanto escrevo e porque a poesia é,
em mim, o escafandro
necessário ao mergulho mais fundo.

Impermeabilizo minhas falas
com este véu espesso e invisível que
cobre todas as palavras.

O mistério que cerca
cada significado, mede meus tentáculos
no fundo oceano.

Então, abro as comportas
e transbordo em mim mesmo num destino
de águas correntes...


feito riso que não abre nunca.

(ls, poema vermelho)

4 comentários:

Nani disse...

papi, um bjo no coração!

daniel sampaio disse...

Lau, sempre lúcida as tuas ponderações. Se você tem alguma ligação com a geração 70 (da poesia marginal) é com leminski... um forte abraço.

Clarissa Marinho disse...

É,se for pra ganhar um livro,posso até pensar em me aventurar em fazer um pra vc! hehehe
Obg pela visita!

Jacinta disse...

Oi Lau,
lendo "Travessia" lembrei-me do filósofo que diz: "Os poetas não têm pudor em relação às próprias experiências: eles as exploram".(Friedrich Nietzche)
Daí o " o escafandro
necessário ao mergulho mais fundo".
É pior aí.
Um abraço
Jacinta