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Mostrando postagens de Maio, 2008
RECADO NO BLOG
NA ESCURIDÃO DA NOITE é um programa da Rádio Telefonia do Alentejo, à quarta-feira entre 23h00-01h00, onde damos voz aos poemas e poetas anónimos (desconhecidos).Pode contribuir com os seus poemas, ou ligar para a nossa emissão e também via Messenger.Saiba tudo no blog oficial do programa http://www.escuridaonoite-rta.blogspot.com/.


SAMBALMA
Pra você que voltou aqui, tenho a dizer o seguinte. Minha alma está mudando de cor. Sério! Isso já acontecia, mas agora é constante. Veja! Viu? Já mudou. É rápido. Acredite, minha alma tem o cheiro de um chão onde até uma imperceptível formiga carregada por uma folha, voa!

RECADO
Hay dias que o cansaço perfura como um espeto de dissonâncias. E ainda assim não deserto de mim. Pessoas com as quais perdemos as palavras... Palavras com as quais perdemos o silêncio. Hay dias que o sentido de tudo, parece, é escrever um poema e ritmá-lo com os impactos dos cílios caindo pela doçura do olhar... hay dias que não sou. E o poema não sai.

ELEONORA F…
quando os olhos pensam


quando os olhos pensam
...pensam que vêem
e não pensam se estão em bando
ou sozinhos

apenas pensam que vêem

quando olhos pensam que vêem
são olhos que nada sabem

... vazios

quando as imagens circulam olhos
na imensidão do que não existe
as paisagens morrem

- a noite perde o luar




nas alamedas
os olhos que pensam que vêem
cruzam os campos do invisível

enquanto olhos que nada sabem
permanecem ancorados na mesma
sede

(como a simetria das correntes
na espreita de um rio tranqüilo)

(ls – poema vermelho)

O NOME DELE É GENTE
Hoje um cidadão ofereceu seus serviços para limpar meu quintal. Um cidadão que outras vezes esteve aqui. Não haveria novidade se não tivéssemos trocado meia dúzia de palavras. Disse-me que tem 4 filhos. Um deles recém nascido. E disse ainda que sua mulher ficou cega há poucos anos. Ele falou com orgulho e carinho da prole. Um exemplo da dignidade que falta em meia dúzia de jovens sem prumo como os que eu vi cantando pneu numa noite dessas, na UFPB. Um home…
áries




quando nasci
meu pai plantou uma figueira

árvore que nunca mais vi

-




mas nenhum anjo louco
pousou na minha janela
ou qualquer andarilho pirado
parou diante do jardim
onde meu gado de osso colhia
o sumo das geadas


só por isso já valeria
e sei que por muito pouco foi assim


( )


minha mãe comemorava o próprio destino


meu pai tecia numa velha harmônica
um som de milonga que me partia em blues

era um dia azul e eu nasci

gremista roedor de unhas apaixonadamente
empenhado em sacudir as estrebarias
e libertar os bichos

cresci quando o silêncio era o preço da carne
na pajelança dos generais

suportei porque aprendi a voar

bem alto

alto

alto


(...)

até ficar com falta de

a
a
r
r


(ls - poema vermelho)


NA XAPÓN
Hoje encontrei minha doce amiga Lila no “Armazém” Tambiá. Ela queria comprar um livro meu. Magina! Deu certinho! Eu queria comprar uma leitora. Ficou um a um. Mas o livro era para sua irmã que mora no Japão e, creiam, é freqüentadora assídua aqui do todo poderoso Poesia Sim. Obrigado, amiga distante! Vou te mandar meu li…
mandacaru


nenhuma flor

somente a
impossibilidade
de um segredo
na miragem da melhor escolha

nenhum idílio que não
o poço raso
no olhar de um búfalo

onde os pastos
nem sempre são fartos

nenhuma lágrima
que não as lágrimas secas

as que já não ardem além do limite
das pedras

(meu coração é manso e absurdo)
(ls - poema vermelho)

CORRENTES
Meu rio anterior ainda corre por entre as pedras, como se cada margem fosse, em verdade, uma nova nascente. Não se pretende presa dos próprios limites. Meu rio anterior permanece. Sabe da importância das árvores e dos pássaros... das barrancas de onde um velho pescador, ao buscar a vida, escreve o poema das águas.

MENSAGEM
Não queira julgar, mas se quiser, julgue. É seu o arbítrio de pensar sobre o que deve ser julgado. É seu o arbítrio de premeditar suicídios permanentes, matanças de almas enluaradas... Não quero julgar, prefiro a distância como sentença do que pulsa.

FUMUCA
Ontem participei de uma mesa com o tema cultura popular x indústria cultural, no Festival de Artes …
sacalnagem



poeta
não apresse a colheita

os morangos estão
mofados em caixotes
fechados

fechados

nem caio fernando abreu

: e mais

dizem que drummond é
de itabira
e não de andrade


por tanto
) e tão pouco

) seja inútil

como um manuel
de instruções

...dando bandeira

(ls – da série poemas vermelhos)

NEM SEMPRE GANHANDO, NEM SEMPRE PERDENDO...
Lá se vão nossos dias e nós aqui, presos a tão pouco. É sempre tão pouco o alcance das nossas necessidades. A vida vai esvaindo por onde escorre a esperança. Uma esperança puta!

PREZADA SENTENÇA
A vida é um aprendizado louco. Como uma travessia, onde cada passo na lama espessa do fundo do rio carrega consigo as vidas que ficam e as vidas que seguem. A vida é um eterno guardar-se de si mesmo e um expor-se à nudez das coisas invisíveis.

UM POEMA DE LI PO

Para lavar velhas mágoas,
É preciso beber mil frascos.
As belas noites são feitas para as palavras puras.
A lua branca deve impedir o sono.
Ébrios nos deitaremos na montanha deserta.
Céu e terra nos servirão de colcha e travesseir…
HOPKINS

Meu coração carece apenas pena; tento
Meu triste mim viver agora doce entrega
À piedade; não mais tormento a mente lega
À atormentada mente em mais e mais tormento

Vou em busca de paz, sem ter contentamentos,
Tateando a impaciência, em trevas, como cega
Visão que pede luz, sede que não sossega
Em mar sempre maior que a sede do sedento.

Alma, mim; ah! Meu João-de-mim, cria juízo,
Descansa, pobre ser; ao teu pensar dá-lhe uma ilha
Nalgum lugar; à paz, raiz-espaço; e o riso,

Deus sabe quando ou quanto; um dia, ei-lo que brilha
Não retorcido e- como um céu que, de improviso,
Entreave montes – luz, maravilhosa milha.

- do poeta inglês, Gerard Manley Hopkins – 1844/1889 – no livro A Beleza Difícil (Editora Pesrspectiva), com tradução de Augusto de Campos. Um livro fundamental para a história da poesia.

PALAVRAS BONITAS
Belas palavras! Eis uma frase sempre seguida de uma impávida exclamação. Não me cabe, digo sempre, buscar escrever belas palavras. Prefiro, ao invés, descrevê-las... desnudá-las,…
ANTONIO PRECIADO!Aquí tengo, para un grito,
polvo de trece gargantas!
Un hueso de cada muerto,
el largo de su pisada,
y aquí te resucito las vidas
que te hacen falta.
("Matabara del hombre bueno", poema do equatoriano Antônio Preciado. Atualmente, o Ministro da Cultura do Equador com quem conversei rapidamente em Brasília, há alguns meses.)

STOLICHNAYA
Não, não se trata de nenhum bailarino das palavras nascido e criado na periferia de Moscou. O nome acima, que não ouso repetir, é a marca de uma vodka russa que ganhei de uma colega de trabalho e agora tento dizer que é maravilhosa. (Mas, não é.) Tem um aguçado perfume. Como a boca de quem tem lume. Mas, seu limite no meu corpo não passa de um quarto de copo. Minha bebida, na verdade, é o ar. Por isso sempre penso que a consciência e o prazer de respirar é a melhor reposta que podemos dar à vida.

ana terra

que a razão nos salve das
dívidas do que em nós foi
e é essência

não sei o que há quando o
tempo abre sua boca de
ciladas

nem o que perdi…
ANA HATHERLYo e
ai e ie o e
o o é
o ai é
ou u eu
e e e
o a a a é
e ou e eu
i e e e i
e eu ou i
é ai é eu
eu a e e
e e ai uo
u e e ua
u i ie e
o o e e
a e e à
(o e, poema de Ana Hatherly em “um calculador de improbabilidades” – Quimera - 1ª edição 2001)

CONVERSANDO COM SERGUILHA
Hoje conversei um pouco no msn com o poeta português, Luis Serguilha sobre o panorama da poesia de língua portuguesa. Falamos dos portugueses Helberto Helder, Ana Hatherly, Luiza Neto Jorge e de brasileiros como Delmo Montenegro, pernambucano, meu grande amigo e poeta dos mais inventivos. Luis também me falou em Ronald August, um gaúcho que nunca ouvi falar e sequer encontrei na net. Alguém aí sabe algo desse poeta?

SOBRE ANA HATHERTLY
Ana nasceu no Porto, em 1929 e iniciou a sua carreira literária em 1958. É poeta, ensaísta, pesquisadora e artista plástica. Destacou-se na poesia experimental portuguesa dos anos 60 e 70, sendo um dos nomes mais representativos da vanguarda portuguesa.

POESIA MARGINAL
Parece que continua rendendo a po…
ALZIRA CABRAL

Filha do teu adultério
existo
queiras ou não com a mesma pele.
Exilada
sobrevivo contente
na terra dos sem cor.
Com a boa vontade que ganhei
das gentes daqui,
sem ressentimentos nem vergonha
cultivo a mentira da tua grandeza
no existir dos meus descendentes.


E mantenhas, oh terra
através dos meus poemas vermelhos.

A cor que me deste!

(“Mantenha”, poema de Alzira Cabral, poeta do Cabo Verde nascida em 1955. Poesia africana contemporânea)

PASSO HÍBRIDO
Sempre tive reservas. Não importa os motivos. Na verdade é que sempre tive mesmo muitas reservas. Nunca quis muito destaque. Sabia que em determinadas circunstâncias meus demônios calariam o próprio silêncio. A minha relação com a poesia sempre foi uma relação direta com a vida. A minha relação com a vida sempre foi uma relação de sinceridade fingida. Por isso sempre tive reservas. Ficava no meu canto, em solo. Sabia que a empáfia escondia algo podre. Por isso tinha reservas. Precisava cozer certezas para puxar a máscara do cão...

RUMOS DISPE…
ALLEN GINSBERG

Vachel, as estrelas se apagaram
A escuridão caiu na estrada do Colorado
Um automóvel se arrasta lento na planície
Pelo rádio ressoa o clangor do jazz na penumbra
O inconsolável caixeiro viajante acende um cigarro
Há 27 anos em outra cidade
Eu vejo sua sombra na parede
Você de suspensórios sentado na cama
A mão de sombra encosta uma pistola na sua cabeça
Seu vulto cai no assoalho

(Para Lindsay, poema escrito por Allen Ginsberg para Vachel Lindsay, poeta americano nascido em 1879 e falecido em 1931. Extraído do livro Uivo e outros poemas, L&PM Editora. Tradução de Cláudio Willer)

COM GOSTO DE ETERNIDADE
O XII FENART encerrou no último sábado. Conferi vários dos seus principais momentos. Um deles, o belo espetáculo de dança da Cia. Cena 11. A constatação da técnica apurada foi só um detalhe. Fiquei extasiado com o desempenho individual e coletivo no grupo. Também reafirmei meu conceito de arte: é quando a técnica vira detalhe. Até o cachorro em cena foi perfeito. Um espetáculo long…