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sexta-feira, 2 de maio de 2008

ALLEN GINSBERG

Vachel, as estrelas se apagaram
A escuridão caiu na estrada do Colorado
Um automóvel se arrasta lento na planície
Pelo rádio ressoa o clangor do jazz na penumbra
O inconsolável caixeiro viajante acende um cigarro
Há 27 anos em outra cidade
Eu vejo sua sombra na parede
Você de suspensórios sentado na cama
A mão de sombra encosta uma pistola na sua cabeça
Seu vulto cai no assoalho

(Para Lindsay, poema escrito por Allen Ginsberg para Vachel Lindsay, poeta americano nascido em 1879 e falecido em 1931. Extraído do livro Uivo e outros poemas, L&PM Editora. Tradução de Cláudio Willer)

COM GOSTO DE ETERNIDADE
O XII FENART encerrou no último sábado. Conferi vários dos seus principais momentos. Um deles, o belo espetáculo de dança da Cia. Cena 11. A constatação da técnica apurada foi só um detalhe. Fiquei extasiado com o desempenho individual e coletivo no grupo. Também reafirmei meu conceito de arte: é quando a técnica vira detalhe. Até o cachorro em cena foi perfeito. Um espetáculo longo, mas de forma alguma cansativo. O show de encerramento foi com a maravilhosa Elza Soares. Incrível! A mulher esbanja vitalidade aos setenta e cinco. Seu rebolado, seu repertório, sua voz negra... Enfim, Elza continua a grande diva dos palcos brasileiros neste início de milênio. E o FENART encerrou com gosto de eternidade...

UM POUCO DE PETER BROOK
"Nunca acreditei em verdades únicas. Nem nas minhas, nem nas dos outros. Acredito que todas as escolas, todas as teorias podem ser úteis em algum lugar, num dado momento. Mas descobri que é impossível viver sem uma apaixonada e absoluta identificação com um ponto de vista. No entanto, à medida que o tempo passa, e nós mudamos, e o mundo se modifica, os alvos variam e o ponto de vista se desloca. Num retrospecto de muitos anos de ensaios publicados e idéias proferidas em vários lugares, em tantas ocasiões diferentes, uma coisa me impressiona por sua consistência. Para que um ponto de vista seja útil, temos que assumi-lo totalmente e defendê-lo até a morte. Mas, ao mesmo tempo, uma voz interior nos sussura: Não o leve muito a sério. Mantenha-o firmemente, abandone-o sem constrangimento."
Esse texto me foi enviadohá tempos, pela minha querida amiga Isabella Benício.


SARAU EM POÇOS DE CALDAS
Recebi do mineiro João Paulo alguns vídeos com o sarau feito em minha homenagem, no último dia 24. Fico emocionado sim, João Paulo! Muito mais do que o fato de ter meus poemas encenados (o que não foi a primeira vez), gostei de me ver representado cenicamente como poeta. Os vídeos já estão no youtube. Para João Paulo e Adriano, poetas e atores responsáveis pela homenagem que aconteceu no Instituto Cultural Companhia Bella de Artes, em Poços de Caldas (MG), o meu eterno carinho. (Até mesmo o blog Poesia Sim entrou na roda). Gracias!
Confiram!

PENSAR POESIA
Sempre que passo por esses tempos de retração produtiva, me dedico um pouco mais a pensar a minha própria poesia. Não me arrependo de um único verso que fiz. Principalmente os péssimos, foram os que mais contribuíram para a minha sede de buscar a linguagem poética. Escrevo poemas sempre na margem do erro. Não busco a perfeição. Não busco a unanimidade crítica. Muito menos a crítica. Escrevo da forma que respiro: algumas vezes jogando para dentro, algumas vezes jogando para fora... E nesse ouro de tolo, vou vivendo e me surpreendendo com a vida e com a própria poesia.

MAIO, QUARENTA ANOS DEPOIS
Maiomeiaoito foi um tempo de transbordamentos. Lembro da célebre frase de Timonthy Leary: "Desconfiem dos chefes, dos heróis. Desconfiem de todas as pessoas de fora que tentam impor a vocês suas estruturas. Façam o que tenham de fazer. Sejam o que vocês são. Se não sabem o que são, descubram". O mundo fervia. No Leste Europeu, nos Estados Unidos, no Brasil... o movimento estudantil francês simbolizava uma explosão transformadora. Os costumes, a arte, a política, a família, a sexualidade... tudo estava em pauta. E o que vemos hoje? Em que avançamos e onde foi que erramos?

refrão





os ventos
são algazarras do infinito
em nossos cabelos gris...

(bis)

(do livro Texto Sentido, meu quarto livro)

2 comentários:

Gil de todos os dias disse...

Ah essa bendita retração criativa... como sei o que é isso. Mas na verdade, no meu caso, acho que é por estar produzindo muito em outros campos (matérias e pautas e edições e textos...)que um dos grandes prazeres de minha vida - escrever o que gosto e o que sinto - está em quarentena.
Acredito que vai dá pra desacelerar um pouco daqui pra frente, vai dar pra respirar, pra escrever e até pra te visitar um pouco mais.
Gosto de suas letrinhas!!
Beijo grande!!

Winnee Louise disse...

salve, Peter Brook e a nossa mutabilidade inata!

salve as gavetas que abrimos e reencontramos os nossos erros impressos, as nossas poesias cravadas de tempo e ainda a aquelas que só colocamos um ponto tempos depois da gaveta aberta.