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terça-feira, 6 de maio de 2008

ALZIRA CABRAL

Filha do teu adultério
existo
queiras ou não com a mesma pele.
Exilada
sobrevivo contente
na terra dos sem cor.
Com a boa vontade que ganhei
das gentes daqui,
sem ressentimentos nem vergonha
cultivo a mentira da tua grandeza
no existir dos meus descendentes.


E mantenhas, oh terra
através dos meus poemas vermelhos.

A cor que me deste!

(“Mantenha”, poema de Alzira Cabral, poeta do Cabo Verde nascida em 1955. Poesia africana contemporânea)

PASSO HÍBRIDO
Sempre tive reservas. Não importa os motivos. Na verdade é que sempre tive mesmo muitas reservas. Nunca quis muito destaque. Sabia que em determinadas circunstâncias meus demônios calariam o próprio silêncio. A minha relação com a poesia sempre foi uma relação direta com a vida. A minha relação com a vida sempre foi uma relação de sinceridade fingida. Por isso sempre tive reservas. Ficava no meu canto, em solo. Sabia que a empáfia escondia algo podre. Por isso tinha reservas. Precisava cozer certezas para puxar a máscara do cão...

RUMOS DISPERSOS
A vida me deu oportunidades variadas de experimentar sensações. Algumas vezes tive a impressão de ser uma pedra brilhando fosco na beira da estrada, quando em caminho. Algumas vezes percebi meu destino no zumbido da chaleira, no amargo da erva por onde chimarreava minha sina de guapo. Também senti arrepios no que em mim era espectro e solidão. No que em mim permanece apesar dos espelhos que me cercam e que dizem a todo instante que meu destino começa aqui e agora. Nessa outra mesma história.

SUBLIME
Tenho receio de me aproximar. Não queria repetir meu silêncio percutindo em teus sonhos. Pode haver um poço enorme, um buraco fundo atravessando um desejo que cala. Permaneço, pois em salvaguardada distância. Cometendo um suicídio que aos poucos escancara o amargo vinho de onde sugo gota por gota este desejo que espalha seus ácidos pelo que ainda não vivi.

SOBRE O MEDO
O medo é um cavalo saindo das trevas, com o susto de quem foge não sabe de quê. O medo é um sol imenso no céu e uma boca escancarada para a sede.
O medo é a possibilidade de enfrentá-lo.

boca boca




sem mira
atiro em mim mesmo
às vezes
-
saio lanhado e disforme
e novamente me transformo
: assumo a interina forma

no mais
sou o verso que voa
no espetáculo sem bis
do instante

(do célebre e esquecido, Texto Sentido)

9 comentários:

Anônimo disse...

... profunda! Daquelas que cortam a "carne"... Adorei!

Anônimo disse...

Grande Lau Siqueira, ando meio longe dos blogs e dos poemas, desejo sucesso ao livro novo e deixo um poeminha por aqui:


não se move uma montanha com um pálido pedido


enquanto a canção explode como as cigarras no verão
a montanha me acompanha na linha da visão
paisagem reinventada
memória afetiva
construção
de delírios
de luzes
de reflexos
de reverberações


Flávio Machado

Anônimo disse...

muito arrepiante, de uma belaza superficial e muito bela, não sendo nada intimista!

Álvaro Andrade disse...

Obrigado pela visita.

Do comentário, continuei. Fiz um poema só, ou vários.

Veja se tiver um tempinho.

Renata!!! disse...

Olá, tudo bom?

Adorei...
"Tenho receio de me aproximar."
Bonito isso!


Beijinhos

Constança Lucas disse...

as suas palavras tocaram-me como uma terna amizade, obrigada!!!!

Dri- disse...

Grande Lau, fico maauito feliz meu caro , de vc ter gostado dos vídeos,aliás só faltou o Lau verdadeiro na apresentação.! Muito obrigado! e a princípio , quando sobrar um tempinho (dificil rs) continue visitando meu blog,visita mais do que bem vinda!
Grande abraço
Deus lhe abençoe!

Adriano Mota

Samelly Xavier disse...

Fazia tempo que eu não passeava por essas bandas e logo quando vejo, veja só do que você está falando: vinho, receio, distância...

A vida se repete ou é a poesia?

Beijo recitado, criança!

BSH disse...

Parabéns.