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Mostrando postagens de Junho, 2008
exercício lúdico

a palavra semente
enquanto estrutura

...germe do poema

ventre é verbo é

óvulo fecundado na
substância do que
semeia

germinação do que virá
no desmonte do silêncio
e da ira do que
p e r m a n e c e

palavra semente
princípio de tudo

muda

(ls – da série poemas vermelhos)

“JARDIM DE CAMALEÕES”
Eis um livro necessário na estante de quem estabelece uma relação com a poesia contemporânea, seja na pesquisa ou na criação. Uma antologia poesia neobarroca na América latina, organizada por Cláudio Daniel e com traduções do Cláudio Daniel, do Luiz Roberto Guedes e do Glauco Mattoso. Sabe aqueles livros que quando você compra fica feliz? Pois é!

CALÇANDO PALAVRAS
Na verdade fui ontem ao Tambiá Shopping comprar sapatos porque meus dois únicos andam algo rotos. Esqueci que não vendem sapatos em livraria. Acabei almoçando no Iokan e comprando dois livros na Prefácio. Um deles “Jardim dos Camaleões”, comentado acima. Outro, “A geração que esbanjou seus poetas”, do Roman Jakobson. Lindos meus li…
poema diário


minhas mãos
caminham sobre o teclado

aliás
correm

voam
algumas vezes
na busca do poema das
palavras libertárias

escrevê-lo é subtrair
distâncias

navegar do cálido ao ártico
na perenidade do instante

faço poema
como quem cuida das lidas
necessárias

descobrindo a balbúrdia
do silêncio

penso

(ls – da série poemas vermelhos)

VOLTAIRE
Aprendi a ler Voltaire em “Tratado sobre a tolerância”. Não importam os motivos. Na verdade, uma banalidade me levou até ele. O texto denso e veloz do francês me cativou. Vi em Voltaire, na prática, a universalidade de descrever a própria aldeia. Agora leio “Cândido”, com o mesmo encantamento. É a história de um cara que viveu acreditando no que havia afirmado seu mestre (que no mundo só havia bondade e justiça) e foi violentamente expulso do castelo onde vivia. Um livro escrito em 1758, lido em 2008 por quem acredita que os castelos (sejam quais forem) ainda são as mais sólidas ilusões.

VOLTAIRE I
O nome de batismo de Voltaire era François-Marie Arouet (1694-1778). E…
nada não

sabe
essa coisa que limita a sorte
de quem foge da fome
com a cara clandestina

e suprime a certeza
diante da
impressão de vida fluente na
imensidão da
paisagem humana da cidade

e se perde de mim
se perde de mim

e de ti
e permeia as gameleiras
que em simples nós
comprimem o que não está no
que dizem
nossas bocas secas

nossas bocas
prescritas pelo cansaço dum
pálido fiapo de rio que
insurge o crespo silêncio
da noite que assim
parece mais amena

) mas...
é a mesma noite assassina (

a mesma noite
dentro dum carretel de coisas
que no espaço de um minuto
acontecem no mundo

por isso respiro fundo
o hálito da manhã que nos
abriga para um dia de luz

no meio da meia noite
que trafega no ar


e em mim

r
e
s
p
i
r
o

(espirro!)

(ls - da série poemas vermelhos)ILIMITES

A distância entre o sim e o não e a distância que os separa na amplitude de uma decisão, são infinitamente distintas. Estamos sempre na medida do erro. A vida está sempre na medida da morte. A soberania está sempre na medida da mais profunda servidão. Por isso não é a di…
cordas vocais

a garganta é uma represa
de tudo que não pode ser dito

sumidouro de palavras que
percorrem na boca o véu dos
insumos infinitos

um epitáfio do silêncio
e a permanência do assombro
no espelho orvalhado
das manhãs

por isso as flores acolhem
na beleza os colibris com seus
beijos azuis convertidos ao
sabor do pólen

lentamente

(ls – da série poemas vermelhos)

VOZES DISSONANTES
Um dos espetáculos mais emocionantes que assisti nesses cinqüenta e um anos errantes (porém certeiros) foi o de Denise Stoklos, Vozes Dissonantes. Um monólogo de impermanências diante de uma compulsiva realidade mundial. Uma realidade de constante rendição à ditadura das coisas visíveis. Quem compreende a vida pela importância da larva que passa pela inadequação do sangue em nossas veias entupidas por uma gorda empáfia... não ouve, não vê, nem sente.

RESISTÊNCIA
Sempre estive nas trincheiras dos que resistem. Por isso não engulo pedras nem guardo mágoas. Por isso nem mesmo na dor sou amargo. Resistir, sobretudo, é manter-s…
SUPERLATIVO

todos os sentimentos puros
e também os impuros os putrefatos
os absurdos os putos os rútilos
e ainda aqueles que bóiam quando a
solidão afunda os olhos no mar

todos os arremedos do ar e as bolhas
que secam na margem do rio
todos os sentimentos úmidos
e ainda os que permanecem mudos
os súbitos e os argutos os bárbaros

e ainda os que não escutam
quando abusam do que chupam

todos os impulsos esquisitos
os uivos descritos n’areia
em pegadas sumidas

todos os desníveis da fome ainda
não vivida toda essa sede de infinito
tudo que embriaga os poros e rompe
o limite dos sentidos e ainda o que
navega no que parece incontido

tudo que é som e ruído
tudo isso e mais o que não digo

tudo isso é o que sinto

) e finjo que não ligo

(ls- da série poemas vermelhos)

CARCAÇA CANIBAL
Tenho repetido coisas pra mim mesmo. Coisas nas quais acredito. Ando sumido do que, na verdade, desejo e preciso. Tenho retornado à primeira pessoa. Ao que me permito na pertinência íngreme do estágio canibal da minha calma. Ainda assim me re…
RELÓGIO
DE PAREDE


tenho coisas amargas
nos guardados da memória

e lá estão porque são
necessárias aos momentos
de conter os tigres

esses tigres esquisitos que
às vezes habitam meu riso

e visitam meus sentidos
como se o bicho que sou
fosse outro

tenho um tempo guardado
e outro tempo perdido

ambos cantam as geadas
dos meus cabelos gris

e o gemido dos galos que
perfuram as madrugadas
(ls, da série poemas vermelhos)

DISCUTINDO LITERATURA
A revista Discutindo Literatura, da Escala Editorial (SP), pode ser encontrada nas bancas das principais cidades brasileiras. No próximo número você poderá conferir um artigo meu questionando a ausência de uma única editora nordestina com circulação nacional, apesar da imensa tradição literária da região. O “start” da idéia nasceu quando no ano passado estive como convidado no projeto Rumos Literatura, do Itaú Cultural (na Paulista). Incrédulo, ouvi a respeitada professora e antologista Heloísa Buarque de Holanda afirmar que os poetas nordestinos não entravam nas antologias …
na pele de um rio



a solidão
é a uma pedra que
no meio de uma tempestade
permanece imóvel

uma provação aos ventos

a escuridão que não fere
e tantas vezes absorve
o limo

tantas vezes transborda

um cântico
ao silêncio dos românticos

coisa roendo os ossos

testando o limite do que
alimenta o ar

(ls – poema vermelho)

GRANDE CAMPINA
Estive ontem em Campina Grande conversando com um grupo de artistas sobre a questão das políticas públicas e a relação com as instituições, enfim... a falta de, também. Articular, organizar, planejar e insistir, formar... eis as palavras que estiveram na pauta. Aliás, As palavras pautaram a reunião. oO Universo faz sentido!

ERROS CRASSOS
Tenho convivido com a repercussão de erros crassos e com a remissão de atitudes ridículas. Tudo numa didática comum: a vida é uma estrada de mão dupla. O que perdemos quando esticamos a corda sem saber da sua espessura, é o conceito de partilha desigual. Não compreender a circunstância do outro é um erro crasso e a pífia performance do ego.

VOCAÇÃO
N…