Translate

sábado, 21 de junho de 2008

poema diário


minhas mãos
caminham sobre o teclado

aliás
correm

voam
algumas vezes
na busca do poema das
palavras libertárias

escrevê-lo é subtrair
distâncias

navegar do cálido ao ártico
na perenidade do instante

faço poema
como quem cuida das lidas
necessárias

descobrindo a balbúrdia
do silêncio

penso

(ls – da série poemas vermelhos)

VOLTAIRE
Aprendi a ler Voltaire em “Tratado sobre a tolerância”. Não importam os motivos. Na verdade, uma banalidade me levou até ele. O texto denso e veloz do francês me cativou. Vi em Voltaire, na prática, a universalidade de descrever a própria aldeia. Agora leio “Cândido”, com o mesmo encantamento. É a história de um cara que viveu acreditando no que havia afirmado seu mestre (que no mundo só havia bondade e justiça) e foi violentamente expulso do castelo onde vivia. Um livro escrito em 1758, lido em 2008 por quem acredita que os castelos (sejam quais forem) ainda são as mais sólidas ilusões.

VOLTAIRE I
O nome de batismo de Voltaire era François-Marie Arouet (1694-1778). Ele fez da filosofia um processo de permanente diálogo com o tempo. Sua obra é, sobretudo, um exercício de linguagens, vivências e idéias de mundo. Admiro escritores que não se rendem aos passos delimitados por sua época. Escrever é um ato de dignidade selvagem.

PENSAR O POEMA
O poema deve ser pensado como se estivesse sendo sentido. Ou seja: com os sentidos. O poema deve permanecer ancorado numa linha tênue entre o balbucio e o berro. Buscando palavras, mas, deixando-as à vontade por não precisar.

VIVER O POEMA
O poema deve ser vivido como se estivesse sendo pensado. Ou seja: ancorado nos enleios de um dia comum. Calado no meio da noite escura. Arrepiado. Seduzindo e seduzido pelo desconhecido. Num eterno seguir em frente... Como se as mensurações do calendário não pudessem reter a memória dormida.

DENSIDADE
A densidade do poema deve ser, antes de tudo, tudo. Antes de submeter-se às cercanias das estéticas temporais, o poema deve desabotoar-se ao mundo. Alguns poemas nos fazem pensar que o eterno e o provisório, a matéria e o espírito... somente quando em conjugação seguem em frente. Como esse poema do catalão Joan Brossa!

“O que fazemos? Aonde vamos?
De onde viemos?

Mas aqui tem uma caixa de lápis
De cor.”

Ao ler os versos, você percebe que o espelho da sua densidade, está no título. “O SOL DETIDO”. Joan Brossa nasceu em Barcelona em 1919 e morreu em 1998. Para ele não existiam fronteiras entre as artes. Brossa foi um poeta desvinculado de doutrinas. O poema acima foi extraído do livro Poesia Vista, das editoras Amauta Editorial e Ateliê Editorial, com tradução de Vanderley Mendonça.

BROSSA POR BROSSA
Em La poesia em present, discurso pronunciado nos Joes Florals de Barcelona , em 1985, ele disse: “Minha obra sempre teve o tom experimental que acompanha a evolução da arte. Me movi e me movo, numa linha alternativa à arte oficial, que nos quer comparsas em tudo. Porque definitivamente, os que fazem a História são os que vão contra os tópicos da História.”

4 comentários:

Clarissa Marinho disse...

"navegar do cálido ao ártico
na perenidade do instante"
E num instante pode surgir um poema,uma briga,uma amizade,uma história...
Sempre posts bons de serem lidos!
=)

Jaquelyne disse...

Belos caminhos, belas palavras!!
Poesia sim!!Poesia em mim!
Abraços!

Ni ... disse...

Gostoso de ler, bom de descobrir...

Com certeza voltarei... rs

Beijo

Dri- disse...

"O poema deve ser pensado como se estivesse sendo sentido." maravilhoso Lau.... como anda a vida meu caro ? Grande abraço das Minas.!