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terça-feira, 10 de junho de 2008

RELÓGIO
DE PAREDE


tenho coisas amargas
nos guardados da memória

e lá estão porque são
necessárias aos momentos
de conter os tigres

esses tigres esquisitos que
às vezes habitam meu riso

e visitam meus sentidos
como se o bicho que sou
fosse outro

tenho um tempo guardado
e outro tempo perdido

ambos cantam as geadas
dos meus cabelos gris

e o gemido dos galos que
perfuram as madrugadas

(ls, da série poemas vermelhos)

DISCUTINDO LITERATURA
A revista Discutindo Literatura, da Escala Editorial (SP), pode ser encontrada nas bancas das principais cidades brasileiras. No próximo número você poderá conferir um artigo meu questionando a ausência de uma única editora nordestina com circulação nacional, apesar da imensa tradição literária da região. O “start” da idéia nasceu quando no ano passado estive como convidado no projeto Rumos Literatura, do Itaú Cultural (na Paulista). Incrédulo, ouvi a respeitada professora e antologista Heloísa Buarque de Holanda afirmar que os poetas nordestinos não entravam nas antologias nacionais porque seus livros não chegavam no eixo Rio/Sampa. Bah!

CHAMA SEU MADRUGA
A vida toda estive envolvido em militância política. Tenho oito pontos na cabeça por conta disso. Não fui torturado, mas já fui preso pelo mesmo motivo. Sei da pressão das algemas. Conheço o ar rarefeito de um camburão. Hoje, ocupo um cargo de relevância na prefeitura de João Pessoa. Dirijo a Fundação Cultural da cidade. Isso pode durar até amanhã, às 9h em ponto. Pouco importa! Ainda exerço minha função com o mesmo espírito militante. O que me move não é a vaidade, mas a verdade. De onde estou, observo quem lá esteve e tratou apenas dos próprios interesses. Convivo com críticas que procedem e com o exercício da falta de caráter. Por falar nisso, cadê seu Madruga pra dar um cascudo no Chaves?

NADA SERÁ COMO ANTES
Não vivo o dia de hoje para consumo próprio. O dia que eu vivo e todas minhas energias estão no empenho do dia que virá. O mundo que busco no cotidiano é o mundo dos que ainda virão. Depois do esquecimento, ainda estarei onde sempre estive. Porque sempre foi assim e assim será. No que me é permanente, guardo a eternidade das emoções fugidias...

TRIBAL
Por falar em antologias e coletâneas, a Editora da Tribo, hoje instalada em São José do Rio Preto (SP), lança todos os anos o maravilhoso “Livro da Tribo”, que pode ser encontrado também no país inteiro e ainda comprado pela net, no site da editora. (Confira) No próximo ano, dez dos meus poemas estarão circulando no Livro da Tribo. Entre os quais, este que publico abaixo e que era para sair na quarta capa do livro, mas, por timidez (digamos assim), não saiu. Aos editores Décio Melo e Regina Garbellini, o meu abraço.

quarta capa


O poeta
é o que busca na palavra
a dimensão do átomo.

O silêncio extremo
por detrás de cada fato.

O poeta é o etéreo e o ácido
na pele dos valores estáticos.

Estéticos são seus baralhos.

O poeta é o vapor barato e o
lance de dados. O acaso e
o atalho.

Macalé e Mallarmé
no mesmo saco:

O poeta é um guapo!

POESIA PORRAÍ
Infelizmente tive que recusar a proposta irrecusável da poeta, professora, colunista do Diário de Pernambuco, Lucila Nogueira, para uma noite de autógrafos no Festival Literário de Gravatá(PE), no frio inacreditável da serra pernambucana. Afinal, estarei trabalhando diuturnamente aqui em Jampa, na Festa das Neves (sem neve). No entanto já pude confirmar presença dia 10 de outubro, em Porto Alegre, no Porto Poesia, organizado pelos amigos poetas Mário Pirata e Sidney Schneider. Também na próxima sexta, devo ler meus poemas no Espaço Psi, aqui na cidade, a convite da poeta e psicanalista Lúcia Wanderley.

3 comentários:

Mauricio Babilonia disse...

"Isso pode durar até amanhã, às 9h em ponto."

hein?

LAU SIQUEIRA disse...

Dan, a vida é breve e bela... vamos viver como se acabasse às 9 da manhã do dia seguinte. :)
Lau

nydia bonetti disse...

Meu relógio de parede é voraz...

VORAZ

Voraz
O relógio da sala
Continua
Devorando as horas...

Selvagem
Devorou gerações
E segue...
Devastando o presente
Engolindo sonhos
Triturando vidas...
Não perdoa ninguém
Não poupa nada.

Sempre no mesmo ritmo
Sempre preciso
Sempre cruel
Sempre frio
Sempre...

Engoliu a infância
Tragou a juventude
Corroeu prateleiras
Amarelou os livros
Desbotou fotografias...

Estraçalhou vidraças
Apodreceu os forros
Descascou os muros
Lambeu as tintas
Mastigou tijolos
Vomitou poeira...

Esvaziou a casa

Fechou portas

E janelas...

Depois
Passeou sobre a casa vazia
Entrou em cada quarto
Em cada fresta
Devorando baratas
E teias de aranha...

Então
Derrubou as paredes
E engoliu tudo...
Até não restar nada.

Por fim, bateu uma hora.

É hora de ir embora

Devorar outras vidas...

Nydia Bonetti

Abraço