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quarta-feira, 11 de junho de 2008

SUPERLATIVO

todos os sentimentos puros
e também os impuros os putrefatos
os absurdos os putos os rútilos
e ainda aqueles que bóiam quando a
solidão afunda os olhos no mar

todos os arremedos do ar e as bolhas
que secam na margem do rio
todos os sentimentos úmidos
e ainda os que permanecem mudos
os súbitos e os argutos os bárbaros

e ainda os que não escutam
quando abusam do que chupam

todos os impulsos esquisitos
os uivos descritos n’areia
em pegadas sumidas

todos os desníveis da fome ainda
não vivida toda essa sede de infinito
tudo que embriaga os poros e rompe
o limite dos sentidos e ainda o que
navega no que parece incontido

tudo que é som e ruído
tudo isso e mais o que não digo

tudo isso é o que sinto

) e finjo que não ligo

(ls- da série poemas vermelhos)


CARCAÇA CANIBAL
Tenho repetido coisas pra mim mesmo. Coisas nas quais acredito. Ando sumido do que, na verdade, desejo e preciso. Tenho retornado à primeira pessoa. Ao que me permito na pertinência íngreme do estágio canibal da minha calma. Ainda assim me restam ilhas de costumes e guerrilhas íntimas com as quais trafego no lume das coisas...

QUAL A DISTÂNCIA?
Qual a distância entre o crítico e o artista medíocre? No caso da literatura, é o texto. Mas, em qualquer arte é a própria arte. Leia um texto critico de Pound, Rilke, Maiakovski, Borges ou Leminski. Lá você também encontrará poesia. No entanto há os que são apenas ferinos, oportunistas e medíocres. Apontam o dedo, resmungam, constrangem... com o rabo preso e exposto.

clorofila

às vezes comungo
com as folhas das árvores
aquelas que
no acalanto do vento

algo múltiploe solitário
e é como se estivesse
observando a fecundação
das sementes

pelo invisível

(Outro poema vermelho que estará no Livro da Tribo 2009)

UM TEXTO DE JULIO CORTAZAR (pra quem acredita)
“Toco a tua boca,com um dedo toco o contorno da tua boca,vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão,como se pela primeira vez a tua boca se entreabrisse e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar.Faço nascer,de cada vez,a boca que desejo,a boca que a minha mão escolheu e te desenha no rosto,uma boca eleita entre todas,com soberana liberdade eleita por mim para desenhá-la com minha mão em teu rosto e que por um acaso,que não procuro compreender,coincide exatamente com a tua boca que sorri debaixo daquela que a minha mão desenha.Tu me olhas,de perto tu me olhas,cada vez mais de perto e,então,brincamos de cíclope,olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores,aproximam-se,sobrepõem-se e os cíclopes se olham,respirando indistintas,as bocas encontram-se e lutam debilmente,mordendo-se com os lábios,apoiando ligeiramente a língua nos dentes,brincando nas tuas cavernas,onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um grande silêncio.Então,as minhas mãos procuram afogar-se nos teus cabelos,acariciar lentamente a profundidade do teu cabelo enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores,ou de peixes,de movimentos vivos,de fragrância obscura. E, se nos mordemos,a dor é doce;e,se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de folêgo,essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura,e eu te sinto tremular contra mim,como uma lua na água.”

POEMAS VERMELHOS E UMA DO ORKUT
Outro dia meu amigo Dan perguntou qualé dos meus Poemas Vermelhos. Velho Dan, são experimentos com as palavras. São recém nascidos, despidos do ineditismo ao serem publicados aqui no blog. Na verdade, também, Poemas Vermelhos é uma analogia aos Poemas Suspensos, dos poetas beduínos. Provavelmente, o título do meu próximo livro. E a do Orkut? Bem, fui adicionado por um músico com o seguinte argumento: “te conheci num desfile da Furtacor, havia um evento (pago) com palhaços. Você disse: só rio de graça.” Eu disse isso, bróder?

4 comentários:

marí disse...

Teu texto faz pulsar
é inebriante
é tomar absinto (nunca tomei, será que é bom? rsrs)
e embriagar-se com garapa da cana
saída do engenho de minha avó
- doce infância...
Tua poesia
é como um raio de sol
ao teu suave toque
abrem-se bromélias no ártico
faz-se sonhar
na entropia dos
dias atuais.

li pouco, mas o bastante pra sentir
e, provavelmente voltarei.
parabéns.
marí

Sidnei Schneider disse...

Que blogue bom de ler esse teu: vais conversando com o visitante e expões os últimos poemas. Ula Lau!
Abraço, meu amigo.

Nydia Bonetti disse...

Um poema vermelho pra você:

RUBORES

Desconcerta saber
que ao certo
não sabemos

nada

Atravessam portais
séculos
de indagações
e incertezas

do não saber

Vestígios
nas pedras das soleiras
de antigas inquietudes

Ruínas

do pó restante
das montanhas
(de sonhos)

um dia escaladas

Nas horas breves
entre o furor
e a calma
(leve)

me deixa....

Solitária tanto
a invejar rubores
tantos

de tão poucos amores.


Nydia Bonetti


http://www.overmundo.com.br/perfis/nydia-bonetti

Cosmunicando disse...

gostei demais do seu blog, dos poemas... Superlativo é belíssimo.
Parabéns!
abraços