sábado, 5 de julho de 2008

cilada

comungo com as pequenas coisas

com o que mergulha no sumidouro
das horas mortas

também com flores miúdas
que harmonizam o jardim e
com abelhas que somem
no invisível

estabeleço um tempo para a fruição do
que mensuro no pulsar das coisas
tortas e nos espaçamentos da alma

depois teço a esperança

retomando o eito do cansaço

como se os limbos da calma que degola
meus gestos pusessem em minhas mãos o
lodo cinzento do que não sou

a lua permanece intacta entre as
nuvens a devorar o uivo e um lobo
sedento de paisagens inanimadas

num sussurro ao silêncio
suprimo o hálito das estrelas e a escuridão
contempla meu olho nu

(ls – da série poemas vermelhos)

CALDO CULTURAL
Participei ontem do Caldo Cultural promovido pelo Espaço Psi, aqui em João Pessoa, falando de política cultural, vida e poesia. Um momento ímpar, uma vez que nunca tinha lido poemas meus em público. Pessoas interessantes e interessadas caminhando comigo na impermanência das idéias que me restaram depois de uma seqüência de noites e noites de sono precário. No final, uma maravilhosa “cabeça de galo”.

CALDO CULTURAL I
O público bacana do Caldo Cultural me permitiu um caldo de idéias e partilhas. Minha fala caminhou, fatalmente, pelas soluções encontradas para compatibilizar a carpintaria poética com o processo político e burocrático que estou vivenciando atualmente. Uma discussão afortunada que teria se prolongado deliciosamente se eu não estivesse tão avariado mental fisicamente, pelo cansaço.

O ESPAÇO PSI
Uma clínica? Um centro de eventos ligados à psicanálise? Um escritório de consultorias? Um centro de cultura e pensamento? Tudo isso e muito mais, na verdade. O Espaço Psi é um local agradabilíssimo, habitado por pessoas especialíssimas. Por isso foi tão maravilhoso. E melhor: fica aqui, pertinho da minha casa, no arborizado bairro de Miramar, na bela capital da Paraíba.

ALGUMAS PROVOCAÇÕES
Gosto de pensar Poesia. Gosto de pensar que nada sei sobre Poesia. (Com p maiúsculo). E porque nada sei sobre poesia, mergulho no oco e não vejo mais nada além do que pluma entre as palavras e que se revela diante de minhas mãos que neste momento teclam sem direção. A Poesia é uma aventura. Planejada, como quer Pignatari, mas... sobretudo uma aventura. Um andar de patins sobre a rede elétrica. Um malabarismo híbrido em busca de palavras exatas. A Poesia tem a beleza de um nada. Não é o pássaro, mas o vôo.

CARLOS RODRIGUEZ ORTIZ

Depois da experiência do mercúrio
a suas fissuras e tentáculos aparece um envelope branco
discretamente rajado.
Vai o senhor e se afasta com a mão no chapéu.
Rangem os occipitais sob o embaraço da última fibra
E está distinto o panorama, sereno, escuro como esta nota de outono.
É caso, fogo cortado o filtro cheio de líquido branco e espumoso.
Assim o distante de si mesmo, o ácido do vôo
agora que me salpico de verniz e aclaro minha posição de unhas mansas.
Declaro-me tal qual sou sem precisamente sujeitar-me em meus níveis.
Ousam as asas em um deserto panorama onde atino a neutralidade
e oprimo vida e morte.

("Envelope", poema do poeta Carlos Rodrigues Ortiz, da República Dominicana, nascido em 1951 e falecido em 2001. O poema acima foi extraído da antologia “Jardim de Camaleões – a poesia neobarroca na América Latina”, organizada pelo poeta paulista Cláudio Daniel e publicada pela Iluminuras.)

OUTRA HOMENAGEM EM MINAS
Depois da homenagem carinhosa dos jovens atores da Cia. Bella de Artes que realizaram um sarau em maio, encenando a minha vida e recitando meus poemas, chegou a vez de Cataguases. O projeto Chá Com Leitura realiza uma homenagem a um poeta brasileiro por mês, com a leitura dos seus poemas na praça Rui Barbosa. O projeto é realizado pelo Instituto Vencer e coordenado pela poeta Idalina de Carvalho. Confiram o blog do projeto, aqui!

3 comentários:

Saramar disse...

Sempre me perco aqui, muda, mas a leveza deste poema me fez pairar nesta nuvens que devoram uivos...

Muito bonito!

beijos

mercurio disse...

Tão distante, mesmo internalizado...
De uma beleza inefável!

Natacha disse...

"A Poesia é uma aventura. Planejada, como quer Pignatari, mas... sobretudo uma aventura. Um andar de patins sobre a rede elétrica. Um malabarismo híbrido em busca de palavras exatas. A Poesia tem a beleza de um nada. Não é o pássaro, mas o vôo."

a poesia é uma aventura dolorosa. ela nos usa, não é o patins que passeia sobre os fios, mas os fios que passam por baixo dos patins. esses fios de energia vivem dentro da cabeça da gente, entram em curto-circuito. as palavras circulam, as palavras brincam, caem, ralam os joelhos. mas a gente não larga os patins. a gente nasce com ele grudado aos pés.

ou eu diria que poesia é luta? o que quer ser dito é dificílimo de ser dito. a palavra exata parece ser rara. mas quando a linguagem rompe seus limites, rasga suas vestes e alcança o cume, uma verdade foi atingida. e eu também. a luta termina, temporariamente.

beijo