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domingo, 13 de julho de 2008

primeiro sol


um ensaio do corpo
na manhã que ensaca
as horas vazias

vadias
como quem zela
pelas rupturas do ócio

espetáculo do vento
sobrando nas folhas
da bananeira

um sopro desmedido
tremulando a rede

a sede
armada no vazio

- -

oráculo dos pássaros
cozendo a beleza
no silêncio

...

tudo acorda e a lua
cai em desuso

(ls – da série poemas vermelhos)


POEMAS VERMELHOS
Como já expliquei por aqui, a série de poemas vermelhos representa uma experimentação permanente. Um compromisso descompromissado. São poemas escritos na batata da hora, compondo o post atual do blog. Um planejamento da aventura que é escrever um poema. Portanto, temos por aqui palavras em ebulição. Poemas que compõe um processo criativo sustentado no destemor ao ridículo. Enfim, são poemas que poderão estar apagados em breve, modificados ou até mesmo publicados no meu próximo livro que deverá se chamar mesmo “Poemas Vermelhos” - objeto deste plantio e desta colheita.

“A GERAÇÃO QUE ESBANJOU SEUS POETAS”
Não quero dizer que aprendi a admirar o lingüista Roman Jakobson porque era amigo de Maiakovski. É quase isso e também muito mais que isso. (Meu lado menino não me abandona.) Admiro, por exemplo, quando alguém se entrega com amor à sua função. O livro de Jakobson cujo título nomeia este tópico foi escrito com paixão, sobretudo. Por isso merece também uma leitura apaixonada. O autor viveu de perto a brutalidade do Estado Bolchevique e conviveu com o suicídio de Maiakovski. Mas, também com o fuzilamento do poeta Nikolai Gumiliov. E com as notícias do poeta Óssip Mandelstam, num campo de prisioneiros da Sibéria, onde terminou seus dias. Muitas foram as mortes neste período e os sobreviventes tiveram que conviver com humilhações, como Boris Pasternak, obrigado a recusar o Prêmio Nobel em 1958. Foi muita desgraça que se abateu sobre a chamada “geração de prata” da poesia russa. Jackobson recusou-se à esterilidade teórica para escrever um livro imprescindível, brilhante.

PRFOMESSA CUMPRIDA
Em “Os Sertões”, Euclides da Cunha fez muito mais que inaugurar a era dos livros-reportagem no Brasil. Ele vingou os sertanejos. “Serei um vingador e terei desempenhado um grande papel na vida – o de advogado dos pobres sertanejos assassinados por uma sociedade pulha e sanguinária!” Euclides cumpriu a promessa feita em uma carta ao amigo Francisco Escobar. Leia mais na revista Discutindo Literatura, número 15, em todas as bancas. Naquele tempo, a opinião pública apoiava o massacre.

MINHAS LEITURAS
O que me emociona na leitura é o poder de reflexão ao qual somos impulsionados. Por exemplo, acho que ninguém passa impune por livros como “O prazer do texto”, de Roland Barthes. Leio, releio e não canso. É um livro onde encontro frases que me comovem, como: “Eu me interesso pela linguagem porque ela me fere ou me seduz”. Esta frase vale o livro. Um livro pequeno e denso que é, na verdade, muito mais o infinito nele contido.

OLHOS DE RESPONSA
Olhar nos olhos é pouco.
O grande desafio é o mergulho...
O grande poço incomum da ausência tramando o espantalho na expansão do que sustenta os ossos.

PENSAR O POEMA
No exercício da palavra, muitas vezes perco os sentidos. De sede e cansaço, perfuro os pendores desmedidos da linguagem. E o poema nasce depois do estampido. No esplendor das horas mortas. O poema recusa o limite até mesmo do que penso ser o infinito...

TAMARA KAMESZAIN

"Chuvas de algodão
neves de espuma
lágrimas de perfume
têm reservado
seu momento de queda
na memória do contra-regra.
E no texto do ponto
um cemitério clandestino
de palavras alinhadas
em seus iguais (os ecos) as atrizes
confiam refletidas renascer"

(“Chuvas de Algodão”, poema da argentina Tâmara Kameszain, nascida em Buenos Aires em 1957. Tradução, Cláudio Daniel. Poema extraído da antologia Jardim de Camaleões – a poesia neobarroca na América Latina, Ed. Iluminuras)

4 comentários:

Clarissa Marinho disse...

"tudo acorda e a lua
cai em desuso"
tenho impressao que tuas poesias e teus posts ultrapassam as linhas virtuais,os caracteres e crescem e saem da tela pra mente e pra vida dos teus leitores.escreve muito e sempre!
=)

Maria Eunice Boreal disse...

sequestrei o "primeiro sol"

Anônimo disse...

o ócio
sozinho
é um saco

acompanhado
é pau
no buraco

*

silêncio
se lê
o cio
do ócio

beijoca!

Natacha disse...

o ócio
sozinho
é um saco

acompanhado
é pau
no buraco

*

silêncio
se lê
o cio
do ócio

minha leitura tem um pacto de compromisso com as suas palavras descompromissadas. e elas, um (im)pacto comigo.

beijoca