sábado, 11 de outubro de 2008

improvivo

seco
como uma lágrima

escorado
na pele do espanto

parece miragem

(...)

é linguagem

(ls – poema vermelho. Ou seja, inventado agora)


UM PORTO NÃO MUITO ALEGRE
Lembro da canção, não lembro mais do autor. Falava de um tempo não muito alegre. Os militares no poder. Hoje li uma reportagem no decadente Jornal Zero Hora (decadente como a maioria dos grandes jornais) sobre a repressão à encenação da peça Roda Viva, há quarenta anos. Atores sendo intimidados pelo Comando de Caça aos Comunistas (o temível CCC) e o belo teatro Leopoldina sendo pichado pela direita raivosa. Depois o teatro Leopoldina foi transformado em Teatro da OSPA (Orquestra Sinfônica de Porto Alegre). Agora o teatro da OSPA está fechado, a orquestra está sem teatro e se discute a transformação do antigo Leopoldina em igreja. Que tristeza!

PORTO POESIA 2
Ontem foi a minha participação no Porto Poesia 2. Um evento que se revela e se rebela. Praticamente sem apoio, os poetas porto-alegrenses foram extremamente ousados e criaram um evento que em muito pouco tempo irá se firmar como um dos maiores eventos de poesia no país. O que me faz acreditar nisso é a qualidade das pessoas envolvidas. Ter sido convidado para estar aqui me fez um homem mais feliz e um poeta realizado. Finalmente me foi devolvida a cidadania poética na minha terra. Há uns 15 anos, saí numa revista literária daqui como poeta paraibano. Amo a Paraíba, mas continuo gaúcho.

FAMÍLIA
Nos braços da família. Que sensação gostosa! Apesar de ter sido carinhosamente adotado pela Paraíba, o que me manteve por aqui foi o acolhimento e o amor gaúcho da minha família e de amigos que não consigo mais encontrar.

DONALD SHULLER
Aquele senhor de terno, gravata e touquinha tipo rapper que eu vi anteontem no Porto Poesia é um dos maiores intelectuais do país. Disse coisas sábias, contestou as tentativas de organização da literatura contemporânea porque considera a contemporaneidade uma loucura. Disse ainda que tinha doze milhões de anos e que era completamente louco. O mais importante, disse ainda que “devemos preservar a nossa identidade mas nãom podemos nos fechar par o mundo”. Se eu tivesse vindo apenas para ouvir isso, já me sentiria contemplado.

PORTO É POESIA
Estar com o amigo poeta Mário Pirata, ter conhecido o poeta Sidney Schneider e outros poetas importantes da cena gaúcha, certamente, me fará voltar revigorado aos pampas da Paraíba. Conheci também a poeta Mara Faturi que muito me impressionou por seus versos e pela sua doçura. Pessoas ousadas gritando poesia ao mundo.

MÁRIO PIRATA
Um cidadão incrível esse poeta. Já era seu fã, fiquei mais, muito mais. Ele revelou toda a sua generosidade para com a poesia quando disse num dos debates: “Eu troco todos os 11 livros que escrevi e os que ainda venha a escrever, por uma canção de amor que as pessoas possam cantar pelas ruas”. Lindo!

MARIA CARPI
A poeta Maria Carpi, mãe do poeta Frabricio Carpinejar pelestrou sobre “A presunção do gênio e a busca do leitor desconhecido. “Um livro não é justificativa para não termos vivido”, disse. Por outro lado, me pareceu ter ouvido um absurdo da bca de Liana Tim: “Toda letra de música tem poesia”. Duvido muito! Tem música que não tem nem música, imagine poesia.

RONALD AUGUSTO & OLIVEIRA SILVEIRA
Dois puta poetas. Duas gerações da poesia negra do Rio Grande do Sul. Preciso ler com calma cada um deles. Com calma, preciso refletir sobre a complexidade da linguagem poética desses dois gigantes da poesia da minha terra.

MARA FATURI

Dou sempre
os mesmos passos
cansados
seculares


não sei se me jogo
do andaime
ou no sofá,
opto pelo segundo,
poeta sonha
mas não sabe voar...

(Opção, poema de Mara Faturi. Jovem poeta gaúcha que poderá ser conferida e admirada num link ao lado.)

5 comentários:

Mara faturi disse...

AFF...Quantos comentários pertinentes e eu quero referir que, como você caro poeta,concordo com sua "contrariedade" com o dizer da Liana; nem toda letra de música tem poesia não, pode ter Rima, mas não poesia.Para muitos fazer rima é fazer poesia, se for isso, vá lá...rs,rs...
Nossa, eu estou toda boba, obrigadíssima pela postagem de meu poeminha aqui,do link e de seu carinho querido poeta GAÚCHO. Você é que nos honrou muitíssimo com sua presença e palavras ( faladas e sentidas). Espero que este projeto cresça e traga mais e mais poetas, que este diálogo seja brasileiro acima de tudo!
bjo!

Sidnei Schneider disse...

Valeu, Lau! Abraço grande

Átila Siqueira. disse...

Foi muita informação hoje aqui. Primeiro me deixe falar sobre a ditadura no Brasil, e tudo o que se pode falar sobre isso em poucas palavras é que foi um horror. Coisa terrível. E ainda sofremos com muitas das feridas deixadas por esse momento triste de nossa história.

Quanto ao evento de poesia que tu mencionaste, e pela forma como o fez, certamente deve ter sido uma coisa muito boa e interativa. Um dia quero estar em um desses, mas ainda é cedo para mim, e só me resta sonhar estar do lado dos grandes poetas da minha geração e das gerações um pouco mais velhas que eu.

Pelo que eu percebi teve muita coisa boa por lá, e adorei aquela parte em que o poeta falou que trocaria todos os livros que escreveu por uma canção de amor que o povo pudesse cantar nas ruas. Quanto a poetisa que disse que toda música tem poesia, acho que ela se referia a música de verdade. Ela não levou em consideração essas porcarias que andam fazendo por ai. Como ela disse, ela falou de música, e não de barulho. Mas em fim, fica a cargo da interpretação de cada um.

As duas poesias desse post são bem interessantes, e serei humilde em não ousar tentar comentá-las, com a exceção de expressar apenas que gostei muito de lê-las.

Um grande abraço,
Átila Siqueira.

Priscila Lopes disse...

É bom demais isso aqui.

adelaide amorim disse...

Lau, o livro chegou! Valeu mesmo, já gostei dele pelos primeiros poemas.
Beijo e aparece lá no inscrições, vai :)