diário de saturno

quando sobre infâmias e injúrias
nossas pobres asas de cedro virarem
pedra sobreposta ao feltro de uma
mandíbula atávica em seus abrolhos
como os álamos que cortejavam as luas
nas noites imensas de um .corpo ruim
())))))))))))(((((((((((((()
perfídia é o que tango permanece no
baile das palavras pousadas numa rude
meia-boca meia-sola meliantes como
as que apenas borram os muros com as
tintas do que permanece impuro
())))))))))))(((((((((((((()
protegidos da chuva com as mãos em
côncavo reflexo carpindo nas eiras de uma
insidiosa canção do que não sabe onde
e como haverá de cobrir-se na viagem do
lobo que perdeu as presas roendo o vazio

(lau siqueira – poema vermelho)

NERVOS EXPOSTOS
Não esqueço mais a frase dum amigo querido quando do lançamento do meu último livro, Texto Sentido: “Você está se expondo demais!” E, realmente... Mas, fazer poemas é tentar escrever. Não é ainda escrever. Fazer poemas é apenas arrancar a própria pele e mostrar os nervos aos cães famintos para voar com graça, como as golondrinas. Como não expor-me se tudo que sou transborda em palavras? Minha existência é um caminho de conjugações tardias e futuras... Sou um espírito antigo, vagando por cálidas lonjuras.

O EU LÍRICO
O que fala por mim no poema que não eu mesmo?
Como o fabrincante de versos, respondo: A vida! Viver é um alerta do infinito. Cumpra-se em silêncio, então, no terço de cada grito...

indiferença

no que limita
e no que solapa
as cumeeiras
do espetáculo
jejuado aos
poucos por sobre
a cordilheira
que soluça em
bocas que rosam
o mundo das
canções tardias

perdido em luas
que navegam ao
rés de mim

coleto os óleos
da palavra zen

como um ardil
e insensato rosto

que nunca se
mostra
por inteiro

(lau siqueira – poema vermelho)

ELA TAMBÉM DISSE:
- Cara, tua alma está com a bunda na janela!
E ELE:
- Peraí, eu explico: É que minha alma é solista de uma ópera-bufa. Ela se alimenta de ar. E meu coração não usa pantufas! Ele apenas vulva!

LIA DE ITAMARACÁ
Tava lembrando agora de Lia de Itamaracá. Um patrimônio vivo da mais autêntica cultura brasileira. Lia é merendeira numa escola estadual de Pernambuco, na ilha de Itamaracá. Com a nobreza e o carisma de uma rainha negra, ela faz o mundo dançar à sua volta...

Comentários

fred disse…
"Como não expor-me se tudo que sou transborda em palavras?"

Não há como, grande Lau.

Grande abraço.
Ler o que quer que seja sobre meus conterrânios é, em mim, como aquela coceirinha que você se segura pra não meter a unha, mas que é mais forte que você... Não dar pra ficar calado!! Com todo o bairrismo que me entope as veias meu peito se enche de alegria quando falam de minha terra, seja Vitalino, Gonzaga ou de Lia.
beijooo
CotidiAmo disse…
Lau Lau,
A tua nudez veste-se de poesia e tua letra exigi-me ir além.
beijos.
paulo de toledo disse…
lau, meu camarada, vim dar uma espiada nas novidades. e nos nervos expostos. abrações
Álvaro Andrade disse…
Adorei a última frase, falando da rainha negra.
E isso de transbordar, sei como é. Tenho poema inclusive com a mesma metáfora. A gente não controla.

Abraço, cara.

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