sábado, 27 de dezembro de 2008

poema final

busco a última palavra
- jamais o ponto final )

I
sílabas sobrepostas nas
melopéias gratinadas duma
estrebaria brasil

barroquices emparedadas
num múltiplo degredo

) texturas diluídas
em signagem una e dada

con
temp
orân
nea
s (

II

versos colhidos no breu
dum olhar submerso

brusco na escolha perdida

trilha que pedra no lume
imperfeito das manhãs

III

tristes

como o cão
que encontrou o dono


(lau siqueira – poema vermelho)

CÓDIGOS E SECREÇÕES...
Na condição perfilada do cenário contemporâneo, não há espaço para marolas. A poesia pulsa e pula. É a plenitude de quando fechamos os olhos e não pensamos em nada. A arte (“antes que tarde”) permanece impávida. A arte conflui na beleza, no sublime e na transgressão de si mesma. A poesia não precisa de nós. (Desatemo-nos!)

AOS TEMPOS QUE VERÃO
Não estou em Nova Iorque. Estou descalço na brevidade do lado-baço do Equador. Nenhuma covardia perfaz o limite dos meus medos. Na ponta dos dedos, a incerteza de quem faz da ousadia um mergulho de insumo desconhecido. Escrevo como quem risca, como quem rasga, como quem nega, como quem não abre as pernas... Como quem, faminto de palavras, mastiga a palavra fome.

POESIA FRANCESA CONTEMPORÂNEA
Quando encontrei “Dois ao Cubo”, uma minúscula coletânea de poesia francesa contemporânea, a última coisa que me interessou foi a precariedade da edição minúscula da desconhecida editora Olavobras. Também nunca tinha lido as traduções de Roberto Zular e Verônica Galindes Jorge (ambos da USP). Jorge é a porção materna da família da minha mãe, Maria Joanna (que se foi). Mas, foi nesta minúscula edição que encontrei o poeta Jean-Paul Michel que escreve pequenas porradinhas, assim:

"A maior glória é saudar

Um poeta com muita ambição deve
Recusar toda exaltação inútil.
A verdade do que é já ultrapassa
seu poder de formular."

GRAN FINALE!
Para finalizar o post, indico o novo blog da querida Ana Peluso (http://laescenadelamemoria.blogspot.com/) e deixo o poema Ítaca, de Konstantinos Kaváfis, traduzido pela infinitude do saber de José Paulo Paes.

ÍTACA

Se partires um dia rumo a Ítaca
faz votos de que o caminho seja longo,
de aventuras, repleto de saber.
Nem os Lestrigões nem os Ciclopes
nem o colérico Posídon te intimidem;
eles no teu caminho jamais encontrarás
se altivo for teu pensamento, se sutil
emoção teu corpo e teu espírito tocar.
Nem Lestrigões nem os Ciclopes
nem o bravio Posídon hás de ver,
se tu mesmo não os levares dentro da alma,
se tua alma não os puser diante de ti.
Faz votos de que o caminho seja longo.
Numerosas serão as manhãs de verão
nas quais, com que prazer, com que alegria,
tu hás de entrar pela primeira vez um porto
para correr as lojas dos fenícios
e belas mercancias adquirir: madrepérolas,
corais, âmbares, ébanos, e perfumes sensuais
de toda espécie, quanto houver de aromas
deleitosos. A muitas cidades do Egito peregrina
para aprender, para aprender dos doutos.
Tem todo o tempo Ítaca na mente.
Estás predestinado a ali chegar.
Mas não apresses a viagem nunca.
Melhor muitos anos levares de jornada e fundeares
na ilha velho enfim, rico de quanto ganhaste
no caminho, sem esperar riquezas que Ítaca te desse.
Uma bela viagem deu-te Ítaca.
Sem ela não te ponhas a caminho. Mais do que isso,
não lhe cumpre dar-te. Ítaca não te iludiu,
se a achas pobre. Tu te tornaste sábio, um homem
de experiência, e agora sabes o que significam Ítacas.


Ministério da Saúde adverte: Ler bons poemas alimenta o espírito e faz bem pra pele dos nossos versos.

4 comentários:

BAR DO BARDO disse...

Ei, eu digo "sim"! Seu texto é instigante - "cão triste". Obrigado pelas dicas, de novo.

Álvaro Andrade disse...

Felizano que
vem!

LAU SIQUEIRA disse...

Brigado è vc, Bardo.

Procê também, Álvaro.

: A Letreira disse...

Oi Lau, participei do evento EisPoesia (junto com você também) e assim como os outros não recebi exemplar nenhum. Na época, eu cheguei a me comunicar com um pessoal que organizava o evento, porém, depois de um tempo eles deixaram de responder emails. Mas, sei que a coletânea realmente existe e há exemplares espalhados em Portugal. Você sabia que o Mia Couto foi um dos jurados ? Um beijo, Sônia Alves Dias (http://a-letreira.blogspot.com/)