condição perene


nas cheias
o rio comanda o espetáculo

e as margens são apenas
degraus para o leito mais fundo

nas secas
o rio é a margem

(poema do meu terceiro livro – Sem meias palavras. Ed. Idéia-PB, 2002)


OLIVEIRA SILVEIRA
Conheci Oliveira Silveira em outubro, quando estive em Porto Alegre participando do PortoPoesia2. O poeta já estava visivelmente debilitado. Agora os amigos gaúchos, poetas Sidney Schneider, Mário Pirata e Ronald Augusto informam a triste notícia. Oliveira faleceu na noite do primeiro dia do ano. Confesso que não conhecia muito da sua poesia. Mas pude constatar o profundo respeito e o carinho dos escritores pampeanos para com ele. Uma criatura doce, com a poesia traçada nas próprias razões da existência, na força das suas contundentes concepções de poesia e de mundo. Lembro de uma frase sua naquela noite de outubro: “Nos interessa sermos referenciados como poesia negra do Rio Grande do Sul.” Oliveira nos deixou versos assim: "mas quando menos se espera/ pode mudar-se em cor, em movimento,/ sorriso, voz, braços que vêm e cingem/ e nós ressuscitamos." Um minuto de eternidade para Oliveira Silveira!

VIEIRA, QUATROCENTÃO
Passou meio que em brancas nuvens o quarto centenário de nascimento do Jesuíta Antônio Vieira. No seminário de Olinda ainda existe o púlpito onde Vieira discursava e lecionava. Dentre muitas pérolas lapidadas pelo pensador católico, destaco esta: “Tão presumido venho de Vossa misericórdia, Deus meu, que ainda que nós sejamos os pecadores, Vós haveis de ser o arrependido.”

ZÉ VIOLA PROGRESSIVE BAND
Quando digo que existe uma nova cena musical paraibana inundando o Nordeste, mato a pau e mostro a cobra. Depois de apresentar Érica Maria e Eugênio Cruz, trago aos leitores do Poesia Sim a sonoridade contemporânea do excelente Zé Viola Progressive Band. A primeira vez que ouvi a banda, fiquei meio “de bandinha”, como se diz por aqui, no apertado (e finado) Gabinete Cultural, no Centro Histórico da Capital das Acácias. Não deu outra. Pirei com a qualidade da banda. Confiram o som dos caras, com a graça e as bênçãos do Padre Antônio Vieira, no manto sagrado do my space.

PAUL VALÉRY
Palavras De Paul Valéry em A Conquista da Ubiqüidade (1934): “Nossas artes foram instituídas, e seus tipos e usos fixados, num momento bem diferente do nosso, por pessoas cujo poder de ação sobre as coisas era insignificante perto do que temos hoje. Mas o surpreendente crescimento de nossos meios, a maleabilidade e precisão que alcançam, as idéias e hábitos que introduzem nos garantem mudanças próximas e profundas na antiga indústria do Belo.” Eis um fragmento que vale uma reflexão nestes tempos de redes sociais.

“ISTO SER POESIA? NÃOOO!”
Não vai aí nenhuma ironia ao cidadão (ou cidadã) que comentou na edição anterior, sugerindo leituras de poetas que já li (a maioria dos citados). Provavelmente estrangeiro, com domínio titubeante da Língua Portuguesa, a pessoa traz ao blog uma coisa fundamental: sua sinceridade. Infelizmente, postou anonimamente o que não acho pertinente, já que o Poesia Sim propõe o contraditório até mesmo no nome que carrega. Mas, meu caro(a), ler poetas consagrados mundialmente com a intenção de imitá-los, me parece um suicídio. E se for para afirmar-se na “aventura planejada” que é escrever versos, não tenho dúvidas, é um suicídio duplamente qualificado. Assumidamente influenciado pela Poesia Concreta, por exemplo, jamais quis ser um concretista.

POESIA? POIS É, POESIA.*
Primeiramente devo dizer que não escrevo poesia. Escrevo poemas. Nem sempre versos, mas sempre poemas. Poesia é apenas uma busca. A poesia é a utopia do poeta. Escrever poemas é não ter medo do ridículo. A poesia é o risco. Por opção, em se tratando das várias linguagens com a bunda exposta na janela do terceiro milênio, trabalho no fio da navalha. Trabalho na margem do erro. Até porque não desprezo o sublime, nem as vanguardas que preferiram negá-lo. Não gosto de ficar sentado nos degraus de uma consagração estabelecida pela diversidade dos cleros literários. Sinto ânsia de vômitos nesses casos. Então, vomito palavras. Este blog, conforme está escrito em sua apresentação é um espaço de experimentações. Raramente, como hoje, publico algum poema registrado em um dos meus 4 livros. Escrevo direto, sem os “lapidários” de qualquer vocação poética. Na verdade, uma provocação direcionada para o aprimoramento dos meus próprios conceitos. E eu dialogo até mesmo com o silêncio dos prováveis leitores. No mais, meu querido(a), muito obrigado pela visita. Espero que volte. Suas críticas são bem vindas.

POESIA SIM!
E nesta busca indeterminada continuo dizendo Poesia Sim! Não procuro consensos artificiais, mas entender um pouco dessas inevitáveis distâncias entre as nossas vidas e a infinitude das linguagens que nos cercam. Vivemos num borbulhar de signos. Aqui, todas as críticas são muito bem vindas, sempre. (só não aceito baixarias de qualquer tipo) E não é necessário esconder-se num anonimato infantil. Pra quê? Afinal, somos bem mais que os nossos blogs. Somos poetas (mesmo que uns não entendam assim) e somos seres humanos. E ainda que alguns prefiram acreditar que sabem tudo, prefiro ter a certeza que nada sei. Que outra melhor motivação eu teria para seguir em frente?

* "Poesia? Pois é, poesia", foi o tema de uma mesa da qual participei no Festival Natalense de Escritores, em Natal-RN, no ano passado.

Comentários

amigo,tuas palavras são lindas,e parabens por elas,pois voc~e tem talento,e é um grande amante!

amigo,se puder,visite o meu blog!

e deixe suas palavras!
"...o rio é a margem"
Lindo!!
Erica disse…
condição perene. Lindo!lindo.
Mara faturi disse…
Sua poesia é perene SIM, querido poeta;)
Tive o prazer de ser aluna no segundo grau do Prof. Oliveira ( literatura,claro). Posso dizer que ele influenciou alguns alunos certamente. Oliveira, figura inesquecível!
bjo!
*qdo tiveres um tempinho, vai lá no per-tempus têm novos poemas *)
Adalgisa disse…
Poesia, sim? Poesia, Sim!

Vou postar aqui o que postei na tua página no orkut, antes de ler o questionamento sobre o que é ou não poesia aqui no teu blog:

"Lau,
Teu livro está muito lindo. Levei-o comigo pra Santos e minha irmã de lá, que entende muito de literatura (não como eu que sou só atrevida rss..), ficou encantada com a força de teus poemas.
Mostrei o blog à ela pra que te acompanhe também.
Beijos, carinho
Ada"

Passei e deixei rastros rss...
Mayra disse…
Condição Perene

que poesia linda Pai!
Retrata bem a minha visão de vida...para mim estão contidas nele perspectivas, degraus...avanço e evolução!
Que as nossas águas nos prova de abundância, amor e equilíbrio! :)
Te amo MUITO
Taiyo Omura disse…
o Rio é a margem de uma capital feita de círculos
feira de místicos
colares de prédios
colagens de tédios
num pedacinho de areia

tuas palavras seguem seu curso
o rio segue sua rima
e não verga, aguenta a falta de trema
e tece a trama dos destinos


obrigado pela sua poesia
ela nos salva da barbárie
O que posso falar do Lau Siqueira é que eu sou um ferrenho admirador do trabalho literário dele. E olha que não é de hoje e sim precisamente de 21 de fevereiro de 1997, Momento Lítero Cultural nº 307, hoje no nº 898, e até hoje os melhores frutos da poesia e amizade. Tenho dele a entrevista com Mário Quintana, quer mais ? Parabéns pelo blog está tinindo de belo. Abraços amazônico e fraterno.
... “nas secas o rio é a margem”.

Frase concisa.
O verso fecha e/ou reinicia, perene-mente, o ciclo mutável da natureza humana.
Bravo, Lau!

Abraços,
Hercília F.
ADRIANO NUNES disse…
Lau,

Parabéns pelos seus escritos e blog. Descobri você através do Antônio Cícero.

Abraços,
Adriano Nunes.
mario cezar disse…
teu nome, calamaria de arbusto ou indecisão de beijos? princípio de mar ou voo partido? teu nome sede de árvore ou dinastia do barro? abraços
betina moraes disse…
poeta-lau

fantástico encontrar teu blog indo até antônio cícero!

felicidades!

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