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domingo, 18 de janeiro de 2009

deus

fingiu que estava
criando o mundo
trabalhou seis dias
oito horas em dois turnos
salário de cento e oitenta
pregos

ornamentou noites
criou nuvens
e ventos
do barro fez a criatura

num sopro
o inventário das paisagens
uma vez pronta a maquete
exonerou-se
e ficou mudo

hoje
dies dominicu
reaparece com trezentas
mil faces midiáticas

(dizem que vive em tudo)

(poema do meu terceiro livro, Sem meias palavras, editora Idéia-PB, 2002. Infelizmente não é possível editar os poemas conforme o original)



POESIA IN CONCERT
Falo muito sério quando digo que tenho dificuldades enormes para conceituar poesia. Tenho receio de dizer que acredito que seja apenas linguagem ou mesmo linguagens de conexão com algum tipo de universalidade. Para mim a poesia é uma utopia. Um vôo no oco do vazio. Poesia é a experimentação de um cio com as palavras (ou mesmo sem elas). Por isso é tanto e ao mesmo tempo, nada. É como o ar que a gente nem vê e no alvoroço das coisas, sabendo que o que respiramos de forma refletida é o melhor dos alimentos. Penso que poesia é não ter medo do ridículo. É estar no fio da navalha, entre o lírio e o ácido. A poesia é um nó que não depende de nós. E que eu duvido muito disso tudo.

QUANDO NASCE UM POETA?
A poesia é um fenômeno. Nunca se sabe se há um começo ou um fim. Quando se começa a ser poeta? É quando se começa a escrever versos? Ou quando, ainda broto, as memórias germinam no tempo. Então percebemos que o menino inexplicavelmente recitava versos numa casa onde apenas a música era um refúgio seguro. Imagine Rimbaud. Sua história sempre me encheu de indagações sobre esse tema. Por outro lado, tenho um amigo que começou a escrever poemas (e bons poemas) aos 50 anos. Acho que nos dois casos, a poesia chegou antes. Ela já estava ali. Com 51 anos de poesia errante, eu próprio me sinto sempre iniciando. É como se em cada poema tudo estivesse recomeçando. Acho que todo poeta, em qualquer poema, está se reinventando. Isso é permanente! E como iniciante atento, você deve estar aberto às influências mais diversas. Deve respirar todas as perspectivas da arte e do mundo. Somente assim poderá descobrir que o dono das suas escolhas é você mesmo e construir, quem sabe, uma identidade própria na poesia. Eis o risco!

NARCIS COMADIRA

Como bétula tremes
dócil cão, meu amigo.
Passas as horas sós
pela neve perdido
nos teus ardentes campos.
Solitude, paixão?
Não me indago o que sinto.
Não quero paz, repouso.
Quero só carícias
do teu corpo sedoso.
temo saltar a cerca
que te circunda e que, entre
teu jardim, como sempre,
me coma o desdesejo.

(poesia catalã contemporânea. Narcís Comadira é escritor e artista plástico, nasceu em 1942 na província catalã de Girona. A tradução é de Ronald Polito e a edição é da Lamparina (RJ), a mesma editora do belíssimo livro Guarda-chuvas esquecidos, do meu mano querido, poeta Antônio Mariano, cujo blog está no link ao lado.)

ROLAND BARTHES SEMPRE
Se aceito julgar um texto segundo o prazer, não posso ser levado a dizer: este é bom, aquele é mau. Não há quadro de honra, não há crítica, pois esta implica sempre um objetivo tático, um uso social e muitas vezes uma cobertura imaginária. Não posso dosar, imaginar que o texto seja perfectível, que está pronto a entrar num jogo de predicados normativos: é demasiado isto, não é bastante aquilo; o texto (o mesmo sucede com a voz que canta) só pode me arrancar este juízo, de modo algum adjetivo: é isso! E mais ainda: é isso para mim! Este “para mim” não é nem sempre subjetivo, nem existencial, mas nietzschiano (“no fundo, é sempre a mesma questão: O que é que é para mim?...”).
(Fonte: O prazer do texto, Editora Perspectiva-SP, traduzido por J. Guinsburgl)

HENRIQUE PIMENTA
Bar do Bardo
é o nome do blog do poeta de Campo Grande (MS), Henrique Pimenta. Ele é a primeira indicação do Poesia Sim aos blogs seguidores. Coisa que será praxe nas próximas edições. Já que vc chegou até aqui, vá até lá!

7 comentários:

Adriana disse...

Poeta de mil faces, mil mídias, gostei dos textos.Barthes sempre vale a pena, não é?
Sua sugestão, vou lá conferir.Parabéns pelo blog.

urbanoideiluminado disse...

Olá, Lau

Gostaria de apresentar-lhe a alguns poetas destas plagas sulistas especialmente um de nome Rodrigo Madeira:


http://poeteias.blogspot.com/


e aqui:

http://profile.myspace.com/index.cfm?fuseaction=user.viewprofile&friendid=442611062


grato
RP

Moacy Cirne disse...

Oi, meu caro, adicionei o seu Poesia Sim à Feira de Blogues do Balaio. Um grande abraço.

Erica disse...

eu vou lá, mesmo...chegarei ao mato grosso! hahahha

beijosssss

Nathália disse...

Sou antenada em poesia (não por acaso, trabalho como assistente editorial do poeta Ulisses Tavares, conhece?), visitei seu blog e gostei muito.

Olha, se puder, dá um toque para seus blogueiros e amigos olharem o site que gerencio:

www.ulissestavares.com.br

Sempre tem poesia nova lá e os visitantes concorrem a um livro autografado toda semana.

Sem burocracia e sem despesa alguma. Basta clicar no site, enviar um e-mail e concorrer.

Grande beijo e continue no caminho da poesia que o mundo precisa disso

myra disse...

mais que sim, a POESIA!!!
sou irma de iosif, te visitei e gostei tantisssssssimo,
myra

BAR DO BARDO disse...

Agradeço a dica!

:)