quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

razão
nenhuma



o que escrevo
é apenas parte
do que sinto

a outra parte
finjo que minto
e acredito

(ls – do meu livro Sem meias palavras)

TURBILHÃO
Viver é um turbilhão. Um guizo de coisas ditas e sentidas. Os dias estão vividos no olho da víbora. No encanto e no veneno. Estilhaço e o ferro inteiro! Tudo que assim como as nuvens, pluma.

PENSAR O POEMA
Não existe nada mais racional que publicar um livro. Expor-se enquanto elemento nascido, criado e atestado, enquanto propriedade privada de um nome e de uma imensa fome de palavras. O que está escrito e assinado tem uma feição egoísta. Na verdade a poesia não tem nome, nem dono. E pensar o poema é negá-lo, sobretudo. Esquecer as enchentes e as queimadas, as calmarias e as tempestades... Para emergir no oco das coisas não ditas.

GIORGOS SEFÉRIS

A cada manhã me lembra a água morna
que não tenho junto a mim nada mais vivo.

(O poeta nasceu em Esmirna, em 1900 e morreu em Atenas, em 1971. “Para onde quer que eu viaje, a Grécia me dói”, dizia. Extraído do livro Poemas, traduzido por José Paulo Paes. Editora Nova Alexandria, Sampa 1995.)

LER O POEMA
Ler poemas é sentir a respiração das folhas e alimentar-se das seivas, como uma abelha que busca um hálito para o seu mel.

CIDADE
Ando caminhando com passos de Lua pelos becos da cidade. Minh’alma comunga com o acaso. Quando menos espero encontro um elo novo e reinvento a teia inteira da vida. Até que o toque de recolher das comunas banidas me envolva num canto de partida.
Então procuro meus passos no eterno retorno desta caminhada... Com as mãos cheias de estrelas!

DESAPEGO
Tudo que consideramos bom deve ser apenas o início de um ciclo. Pois é exatamente o que necessita ser repartido. Por isso amar é um verbo macio... Amar o mundo e a nós mesmos dentro dele. Nada nos carece perdidos.

3 comentários:

Marba Furtado disse...

Lau, Poesia Sim é realmente uma afirmação à ação poética. Impossível passar por ele (blog) sem querer fazer um comentário. Parabéns pelo consistente trabalho.

Hercília Fernandes disse...

Boa tarde, Lau Siqueira.

Eis ai, em seu poema, uma verdade que poucos "ousam" dizer claramente...

O poeta mesmo fingindo não-dizer... expressa os sentimentos com sinceridade. A transfiguração dos signos pode ocultar ou conferir um novo sentindo a determinada realidade, manipulando as ações do leitor. Porém, em meio as coisas ditas e não-ditas, há a presença do estado emotivo e a soma de idéias e valores do poeta.

Permita-me transcrever um poema que trata sobre esse fenômeno:

ORIENTAÇÃO

Quando escreveres minha história...
Não te detenhas nos ditos, pleonasmos e vocativos.
Leias-me as ausências, silêncios
- verbos indevidos.
As pausas pau-sa-da-mente repetidas
preenchendo lacunas do não-vivido.
E as coisas ver-da-dei-ra-mente fingidas que,
ja-mais, ousaria dizer!...

(Hercília Fernandes In: http://fernandeshercilia.blogspot.com/2009/01/orientao_04.html)

Grata pela leitura e atenção,

Hercília F.

Gil de todos os dias disse...

Escrever nunca vai ser o todo do sentir...
bom te ler...
E como disse, bom te ver!
beijinho