boca boca


sem mira
atiro em mim mesmo
às vezes
-
saio lanhado e disforme
e novamente me transformo
: assumo a interina forma

no mais
sou o verso que voa
no espetáculo sem bis
do instante

(do meu quarto livro, Texto Sentido)

TERÇA-FEIRA GORDA
Meu olhar parte no espelho... Miro no aço para saber se o rosto – o mesmo rosto antigo - ainda é triste. Descubro a juventude em tanto riso (e)terno. (Menos no espelho!) Um condor imaginado mastiga minhas certezas. Não sei quando escrevo ou leio o poema. Nunca sei do próximo verso. Em cada ponto, aponto. Ponto é ponto final. Enfim, mais um café quente e forte... (ou uma ceva gelada!)

A NOVA MESOPOTÂMIA
Andei lendo na revista Continuum, do Instituto Itaú Cultural, sobre a produção artística (especialmente literária) e as novas mídias. Resumo: Como nos comportarmos, por exemplo, diante das novas tecnologias? Dos dez livros mais vendidos no Japão, atualmente, cinco deles são editados para leitura no celular. Incômodo? De jeito algum. Na Mesopotâmia, também não deveria ser mole ler naquelas placas imensas de barro. O barro digital do nosso tempo não importa diante do que ainda não foi escrito. Como duvidar do futuro?

VIRTUAL COMO UM PREGO
O avanço das mídias eletrônicas não representa, definitivamente, a derrocada do melhor suporte para a boa literatura que ainda é o velho e charmoso livro de papel. Costurado ou colado. Nem sempre o meio é a mensagem. O que as novas mídias proporcionaram foi um acesso mais facilitado ao conhecimento. As pesquisas, em qualquer área estão mais facilitadas. Isso nada tem a ver com o resultado obtido. Afinal, esse já é o papel intransferível do criador, do pesquisador, independentemente da mídia utilizada. O imaginário humano nunca foi virtual!

MILLOR FICAR CALADO!
Nunca fui fã do Millor Fernandes. Suas colunas são de um humor rabugento. Em uma palavra: reacionário! Li uma entrevista sua na Bravo (se não estou enganado) com alguns equívocos brutais acerca do que julga ser boa literatura. Ele se refere de forma reducionista ao que julga ser uma “literatura da internet”. Lamenta: “Hoje todo mundo escreve!” Que bom Millor! Mas, não é verdade. O índice de analfabetismo ainda é imenso. Menor, talvez, que o índice de boçalidade do clero intelectual. A tal “literatura da internet” não existe! Na internet a literatura está e não está. Da mesma e exata forma que existem livros de literatura e livros sem literatura. Não é o suporte, mas o conteúdo que define o que é e o que não é. Ah... em tempo: a boa literatura não deve ter olhos para veículos estapafúrdios como a revista Veja.

UM POEMA DE MARIO FAUSTINO

Não quero amar o braço descarnado
Que se oculta em meu braço, nem o peito
Silente que se instala no meu lado,
Onde pulsa de horror um ser desfeito
Na presente visão de seu passado
Em futuro sem tempo contrafeito,
Em tempo sem compasso transmudado.
O morto que em mim jaz aqui rejeito
Quero entregar-me ao vivo que hoje sua
De medo de perder-me em pleno leito
Rubro de vida e morte em que me deito
A luz de ardente e grave e cheia lua.
Ao que, se a Morte chama ao longe: Mario!,
Me abraça estremecendo em meu sudário.

(“Não quero amar o braço descarnado”, poema do livro O Homem e Sua Hora – e outros poemas. Cia das Letras, SP. Pesquisa e organização de Maria Eugênia Boaventura. Mario Faustino nasceu no Piauí, em 1930 e faleceu num acidente aéreo em 1962. Publicou um único livro e era considerado um crítico-poeta e um poeta- crítico.)

Comentários

Héber Sales disse…
Caro Lau, eu leio muito na telinha, mas, como escrevi um dia desses para o Portal Literal, a experiência de ler um livro no papel pode ser bem diferente e única. E concordo totalmente com você quanto ao preconceito do Millor em relação à literatura na internet. Um abraço.
BAR DO BARDO disse…
Adoro o Millor, mas isso não quer dizer que ele acerte em todas as tacadas. Continuo a gostar de seus textos(mas não de todos), Lau , e de todos os seus comentários e de todas as suas notas acerca de literatura - para tanto a Internet é um alívio estético e possibilidade de interação com quem sabe. Lau, você sabe.
Obrigado!

Digo sim!
Elaine Siderlí disse…
Sou o verso que voa...

Ual!!!

Voe também pelo palavras ao vento...talvez vc aprecie!

http://palavrasaoventoelaine.blogspot.com/

bjus!
Fiota disse…
hauhahua pai, não sabia que não gostavas de millor também. não perco tempo nem em olhar pro título da coluna. não consegui gostar do humor dele, se aquilo é humor mesmo. tem outro boçal no veja, o mainardi. bjinho, papito! te amo muitãozão.
Ricardo disse…
Oi Lau,

Achei muito feliz seu comentário, "na Internet a literatura está e não está". Não só em relação à questão de conteúdo, mas pelo caráter mesmo flutuante e vulnerável da literatura aqui registrada. Quanta coisa que já escrevi e postei na Rede que, simplesmente, desapareceu. No mais, nunca fui muito fã do Millor, embora lhe reconheça o talento. Abcs, Ricardo Alfaya.
Marcos disse…
Vim pelo blog do Afonso Junior e valeu a pena ter vindo.
Constança Lucas disse…
o retrato é mutante, captar o rosto de alguém é demorado e o próprio complexo infinito

gosto de vir aqui ler/ver seu blog

abraços
Constança
Lau,

a literatura na Internet, conforme minhas observações, vive uma fase de expansão e busca por afirmação. Enquanto críticos e pesquisadores fazem vista grossa ao fenômeno, os autores buscam abarcar aceitação junto ao público leitor e alcançar legitimidade à literatura virtual. Afinal, não é a natureza propriamente do suporte que oferece status quo a uma obra literária, mas a sua fortuna criadora.

Novamente, a sua postagem é um “espanto” de conteúdos, sabedoria e poética.

Parabéns! Gosto muito de acompanhá-lo.

H.F.
Juliano Sanches disse…
Eu digo poesia sim, com todo gosto que um ser humano pode ter. Esse blog é um espetáculo. Adoro ver/ouvir/sentir/tocar/degustar/saborear sobre o tempo. E Mauro Faustino o fez com capricho. Lembro-me de Tempo Perdido, do Legião Urbano. Essa música explica um pouco das boas contradições da vida e do tempo. Nessa semana, fiz uma comparação entre a vida humana e a natureza no meu blog. Citei o bambuzal, como símbolo de resistência, inclusive. Dê uma olhada.

Visite minha Casa, quando puder.

O endereço é:

(http://casadojulianosanches.blogspot.com/).

Um grande abraço.
Assis de Mello disse…
Lau, meu compadre, este blog está ficando muito bom !!!
A sua "Fiota" tá certa. O Mainardi é indigesto pacas, puro ranço. Quanto ao preconceito do Millôr, millôr nem comentar. rsss
Um abraço do Chico
Olá!

É a primeira vez que visito o seu espaço e gostei muito.

Sobre Millôr, gosto dos hai kai. E sobre Mário Faustino, sou fã. Tenho uma comunidade no Orkut - com a minha amiga Hercília Fernandes - com um tópico dedicado aos poemas dele.[Poesia...Um bem Necessário]

Mandei-te um e-mail que lhe chegou como spam, não entendi. Meu e-mail é taninha-anjinha@hotmail.com.

Forte Abraço,

Poesia? Sim, é claro!!

Parabéns.
Lau, tu tens razão(em bom gauchês)
Literatura ruim existe em livro e outros suportes.
A boa literatura se impõe em qualquer mídia, mesmo em celular...
Quanto ao Millor, acho que ele foi um jornalista combativo na época da ditadura militar. No mais, nunca apreciei muito aqueles haicais dele...
Nosso Grêmio jogou barbaridade na Libertadores, mas não fez gol...

Abraços tricolores.

Ricardo Mainieri
paliavana4 disse…
De tipos miúdos quanto este Milton (mau tradutor de Shakespeare), melhor passar ao largo, melhor que ele meta o saco na viola. Mais: não lhe faria mal nenhum ouvir Construção, já que a literatura da Internet, segundo este Fernandes, é "menor".

Um abraço. Bela postagem.
Darlan M Cunha

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