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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Escala


Às vezes, quando estou de um jeito
que nem mais a tristeza incomoda
penso que minh’alma é uma escada.

Então vou subindo, palavra por
palavra... Separando as sílabas
conforme a capacidade de
armazenagem dos meus bolsos. Até
que a poesia acena para mim de
alguma janela.

E depois some como o vôo que fica na memória
tamanha a beleza do pássaro.

(poema do meu quarto livro, Texto Sentido)

SOBRE MARIO QUINTANA
Minha filha ganhou de um amigo o livro do jornalista Juarez Fonseca (LP&M Pocket) sobre o humor do poeta Mário Quintana. Registro aqui dois momentos pitorescos que testemunhei quando estive com o poeta em janeiro de 1987 (e que não estão no livro). Ele disse, por exemplo, que o prefeito de Alegrete (sua terra), quis prestar-lhe uma homenagem mandando fazer uma estátua de bronze. Quando o prefeito veio pedir uma frase para colocar no monumento, Mário falou: “Não faça isso! Um erro em bronze é um erro eterno”. E lá está a estátua: “Um erro em bronze é um erro eterno”- Mário Quintana. Também me contou uma sobre a Academia Brasileira de Letras: “A ABL e um tipo de associação recreativa e funerária que passa o tempo todo recebendo estrangeiros ilustres de qualidade duvidosa.” Depois de cada uma Mário dava uma sonora e gostosa gargalhada. Ele era muito bem humorado. O poeta era um contador dos próprios “causos”.

MAIS QUINTANA
O que facilitou meu acesso ao poeta naquele momento agitado dos seus oitenta anos, foi o fato de ser amigo da sua secretária, Mara, que trabalhou comigo na falida Casa Masson, em Porto Alegre. Ele foi muito amável comigo e com Joana, minha ex-mulher. Fizemos uma longa entrevista com o poeta que foi publicada em jornais da Paraíba, Goiás, Rondônia e se não me engano, Piauí. Mario, por exemplo, me mostrou a porta do seu quarto com um painel de fotografias de Bruna Lombardi. E saiu-se com esta: “a amizade é um tipo de amor que não acaba nunca.”
A entrevista foi publicada também em sites e blogs e pode ser encontrada num link aqui no Poesia Sim.

ROLAND BARTHES
“Na cena do texto não há ribalta: não existe por trás do texto ninguém ativo (o escritor) e diante dele ninguém passivo (o leitor); não há um sujeito e um objeto. O texto prescreve as atitudes gramaticais: é o olho indiferenciado de que fala um autor excessivo (Ângelus Silencius): ‘O olho por onde eu vejo Deus é o mesmo olho por onde ele me vê.’”
(em O prazer do Texto, Editora Perspectiva-SP, tradução de J. Guinsburgl – eis um livro ao qual sempre recorro, seja por prazer, seja por necessidade de compreender a volúpia do texto.)

outras eras

tão perto o que transcende
seja pela imagem seja pelos
símbolos do abstrato

belezas tropicais e miséria
contida no contato

no ato
no fato
no relato
de uma civilização transcrita
aos pedaços

pedaços da alma
inçada na cordilheira
no âmbar da melanina índia

tomado de palavras perdidas
proscritas em pedras
para uma leitura dos ventos

e do tempo

(vem daí
a palavra amuleto)

(poema vermelho – lau siqueira)

FRED SVENDSEN
Certamente que um dos mais importantes artistas plásticos do país, Fred Svendsen ( origem dinamarquesa) deu-nos a honra de ter nascido na Paraíba. Aliás, seu pai foi um dos precursores do cinema na terra de Vladmir de Carvalho. Fred estará lançando mais um livro de desenhos, no dia 3 de março, 20 horas, na Alliance – rua poeta Targino Teixeira, 60, Altiplano, João Pessoa-PB. Visite o site de Fred: http://www.svendsen.jpa.com.br/

7 comentários:

BAR DO BARDO disse...

Quintana já pertence à eternidade que nos bronzeia faz tempo... mais brasileiro, difícil. Uma amor de poeta. Lírico a dar com chicote!!!

SIM, POESIA. SIM!

Hercília Fernandes disse...

Belíssima postagem, Lau. Parabéns!

Aprecio muito o formato do Poesia Sim. Você nos presenteia sempre com belos poemas e fortuna crítica. Educa-nos o coração, a mente e a alma simultaneamente.

Irei em busca da entrevista do Quintana, e vivenciar um pouco da sua inesquecível experiência.

Novamente, parabéns pelos poemas e conteúdos expressos na postagem.

Abraços,

H.F.

Adenarie Silva disse...

indi-gestão

ovo a galinha
verdes não
mas tem seu olho
como a rua
como o repolho

Adenarie mais uma vez disse...

Seu comentário foi salvo e será exibido após a aprovação do proprietário do blog.

quanta respons(abilidade).

apertodemãofaminto.até mais

Fiota disse...

não sei por que em 'outras eras' imaginei-a como uma música... e me lembrei também de tribo ethnos. beijo, tico.

Erica disse...

chorei.

Compulsão Diária disse...

Texto impecável. Vejo além do poeta um resenhiosta, um jornalista (?)voltado para a literatura e o cotidiano. Um cronista..

Estou aqui encantada com seu trabalho.
Poemas exatos, com estilo