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sábado, 28 de março de 2009

laranja mecânica



às vezes me desespero
e cometo absurdos

às vezes simplesmente
fico mudo

não sei de onde vim
nem porque assim
me desnudo


(do meu segundo livro, O guardador de sorrisos)


PROCURA-SE UM TÍTULO
Estou em pleno processo de construção do meu quinto livro. Desta vez é uma composição conjunta com a artista visual Constança Lucas. Começa, então, o drama da escolha do título e da seleção dos poemas. Escolhas que devem ser ao mesmo tempo lógicas e inventivas. Nunca foi fácil. Com este não está sendo diferente. Até porque já estou vivendo também a agonia do financiamento. Sempre é uma aventura. Afinal, meus leitores e leitoras são, na verdade, os meus editores. Portanto, preciso de, pelo menos, 300 editores investindo R$ 10,00 cada um. Tem sido assim. Mas, no momento preciso dizer que procuro ardentemente um título. Esta é a agonia do presente.

RESISTÊNCIA AO MERCADO
Há muito não estou mais interessado em vender meus livros nos espaços formais, ou seja, nas livrarias da cidade. Por uma questão de bom senso. (Abriria exceção para uma livraria de Lisboa, especializada em livros de poesia.) As esperanças mínguam quando o assunto é mercado do livro. No final do ano passado, na Bienal Internacional do livro de Fortaleza-CE, participei de um debate com livreiros e editores do Nordeste (articulado pelas boas intenções Ministério da Cultura) sobre a circulação do livro nordestino. Um debate que no meu entendimento, começou equivocado porque excluía o ponto de partida da cadeia produtiva do livro: o escritor. Ao mesmo tempo, o grande interesse era vender livro didático para o Estado. Vendem livros como se fossem açougueiros. Fodam-se!

COM SIGNAÇÃO OU SEM SIGNAÇÃO
Há quem pague para entrar nesse mercado através de co-edições cujo risco do editor e do livreiro é zero. Respeito, mas não entro nessa. Prefiro subverter a ordem. Meus poemas estão nas grandes livrarias apenas na antologia Na virada do século – poesia de invenção no Brasil. O vestígio de mercado do meu último livro se resume aos sebos onde foram desovados (localizei dois na net). Os demais obedecem o critério da venda direta. Prefiro dar meus livros que entregá-los nas mãos desses açougueiros de papel que, como diz o poeta Chacal, na hora de pagar nossos direitos pela consignação, “nos recebem a dentadas.” Lembro de uma cena, em Sampa, quando encontrei Plínio Marcos e ele me apresentou um livro prometendo: “compre que eu prometo morrer logo para valorizar a obra.” (E morreu.)

LIVRO DA TRIBO

Na pagina 111 tem uma observação interessante no Livro da Tribo. Um dos editores, Decio Melo, cita o meu nome, o de Márcia Maia, de Cairo Trindade e Líria Porto. Decio provoca os leitores, solicitando que procurem nossos poemas no índice para compará-los os demais autores ou autoras. Fui fazer a experiência, mas sem ler os meus poemas e dos amigos citados cujo trabalho já conheço. Então abri na pagina 164 e li o seguinte texto: “Há mais pessoas entre você e eu do que pode sonhar nossa vã monogamia.” A autora e Thessa Guimarães. Matou a pau!

POEMA DE
GUIDO CAVALCANTI


Pelo olhar fere o espírito sutil
que faz na mente o espírito acordar,
do qual se move o espírito de amar
que faz todo outro espírito servil.

Não o descobrirá o espírito vil,
tal é o dom deste espírito sem par,
espírito que faz tremer o ar
do espírito que faz dama gentil.

E deste mesmo espírito se move
um outro doce espírito suave,
que um espírito segue a mercê.

O qual espírito espíritos chove
e dos espíritos conhece a chave,
por força de um espírito, que vê.

(“Pelo olhar fere o espírito sutil”, poema de Guido Cavalcanti, poeta italiano nascido em Florença, 1255 e falecido em 1300. Tradução de Augusto de Campos)

9 comentários:

Mirse disse...

Laranja Mecânica, Um SHOW de poema!
O poema de Guido Cavalcanti, é também belíssimo. É preciso coragem para viajar por outras paradas.

Parabéns, Lau.

Notifique-me dos seus livros. Preciso tè-los.

Paz, amigo!

Abraços

Mirze

Nydia Bonetti disse...

Lau
Bacana a idéia dos leitores editores. Quanto aos títulos, é mesmo uma agonia, até para os poemas, imagino para um livro. E o "mercado"... Sem comentários.

Laranja mecânica: É não é por esta capacidade de se desnudar tão facilmente, que o poeta é poeta?!

Mais um poema que é uma jóia. E rara.

Abraços.

BAR DO BARDO disse...

boa sorte com o título.

Ana disse...

Coisa louca essa de poeta/ escritor não valer nada... É como se não existíssimos. E no entanto, o mundo inteiro lê. Pouco, na contagem geral, mas lê.

Sim, é um processo difícil esse de "montar" o livro. Como se ele fosse uma peça, e no conjunto, significasse (e sempre significa) algo a mais.

Enfim...

O título virá.
bjs

Ana disse...

Em tempo (acho que não entrou): excelentes poemas, seu e do Guido!
bjs!

Pri Six disse...

Acho que você vai achar o título em algum poema seu, lau, e não necessariamente num título, mas sairá um nome. Quem sabe de Constanza tb?!
dependendo do contexto, você poderia ouvir umas músicas que estou ouvindo agora, acredito que você gostaria das músicas, e dependendo da seleção dos poemas, lhe daria alguma nova idéia...
Bj da sua fã e amiga de sempre,
Priscila Six
Vou fazer assim, lhe mandarei as músicas em mp3, ok? bjinho!

Alexandre Brito disse...

de Patrícia (Pagu) Galvão sobre Plínio Marcos, funileiro de profissão e palhaço do Circo Pingolô, em Santos, nos idos 1958, ao substituir (do dia pra noite) ator da peça 'Pluft, o Fantasminha':

"...esse menino vai longe."

(desde então tornaram-se "amigos de infância")

:o)

viva Guido Augusto Cavalcanti de Campos!


Poesia Sim Lau...
aquele abraço!

Mari Amorim disse...

Lau,
grata,pela visita e comentário,conheci sua poesia,atravé do amigo Joeldo Holanda,e fiquei fã a primeira vista.Fiquei emocionada,com seu carinho.Estou sempre aqui.
Luz!
Mari Amorim

Thessa disse...

E vai saber que esses trocadilhos literários têm Lau Siqueira de antiga inspiração!
=)