refrão


os ventos são algazarras
do infinito
em nossos cabelos gris

(bis)


(do meu quarto livro, Texto Sentido)

EZRA POUND
“(...) estou firmemente convicto de que se pode aprender mais sobre poesia conhecendo e examinando realmente alguns dos melhores poemas do que borboletando em torno de um grande número deles. De qualquer forma, uma grande quantidade de falsos ensinamentos é devida à suposição de que os poemas conhecidos da crítica são realmente os melhores.”
(do livro ABC da Literatura, tradução de Augusto de Campos e José Paulo Paes, Editora Cultrix-SP)

QUAIS OS SEUS MELHORES POEMAS?
Boa parte das pessoas que freqüentam o blog Poesia Sim, também são poetas. Ocorre-me perguntar, então: Você conhece seus melhores poemas? Esta não é, certamente, uma pergunta para ser respondida com sim ou não. Pelo menos eu não posso responder assim.
Certa vez, convidado pelo poeta e professor Amador Ribeiro Neto para participar de um momento com seus alunos e alunas no Curso de Letras da UFPB, descobri que estavam estudando alguns poemas meus, inéditos. Exatamente poemas que eu havia deletado ao realizar a seleção para o livro Texto Sentido. Será, então, que eu sei quais são meus melhores poemas? Você sabe quais são os seus? Como se escolhe um poema? Pelo prazer estético ou por algum tipo de representatividade do mesmo?

COMO SELECIONAR POEMAS PARA UM LIVRO?
Minha primeira provocação neste sentido se deu em 1993, quando publiquei O comício das Veias em parceria com os contos de Joana Belarmino, na época minha mulher. Decidimos publicar um livro numa conversa comum de casal. Era como se estivéssemos decidindo jantar fora ou comprar lençóis novos. Tínhamos, na época, contos e poemas “datilografados” e guardados na gaveta do criado mudo. Decidimos colocar a mão na gaveta, aleatoriamente, como método de seleção. E assim foi feito. Era quase uma brincadeira nossa. Mesmo assim o livro mereceu uma generosa crítica do professor e poeta Hildeberto Barbosa Filho num jornal dos Diários Associados.

E OS DEMAIS?
Em 1998, recentemente divorciado, dialoguei com a minha solidão dorida para publicar O Guardador de Sorrisos pelo experimental selo Trema. Decidi, então, fazer uma coletânea de toda a minha produção, misturando poemas visuais e concretudes, com textos como “Aos predadores da utopia”.
Em 2002, publiquei Sem Meias Palavras com o seguinte critério: distribui uma seleção pessoal de 100 poemas para alguns amigos realizarem a seleção. Os poemas selecionados pelos meus amigos foram publicados e bem aceitos pelos mais diversos olhares da crítica. Por exemplo, professor e poeta Amador Ribeiro Neto apontou as possibilidades neobarrocas do livro e desta vez Hildeberto Barbosa Filho deu grande destaque num texto publicado em jornal e, posteriormente, também em um de seus livros de critica literária.

AOS PREDADORES DA UTOPIA
Nesse texto ele se referia ao livro O Guardador de Sorrisos, como um livro de “experiências ocasionais”. No entanto era exatamente em O Guardador de Sorrisos que estava o poema Aos predadores da Utopia (dentro de mim/ morreram muitos tigres/ os que ficaram/ no entanto/ são livres), um poema que me deu algumas alegrias tipo um e-mail de uma leitora brasileira, moradora de Nova Jérsei, dizendo que aquele poema era um amuleto na sua vida. O poema foi, posteriormente, publicado e republicado em vários veículos com enorme destaque. Aliás, um poema que eu próprio não dava muita importância. Se você acompanhou esta ladainha até aqui, faço a pergunta: como você conceitua seus melhores poemas?

POEMA DE ARTHUR RIMBAUD

Álacre
Vai:
Nacre
Rei.

Acre
Lei.
Fiacre
Cai!

Dama:
Tombo.
Lombo

Dói.
Clama:
Ai!

(TRADUÇÃO DE Augusto de Campos. Poema publicado em ABC da Literatura, de Pound)

Comentários

Muito boa a discussão, Lau!

Bem..., como você mesmo pontua, acredito que nem sempre a nossa seleção pessoal é a mesma do leitor - falo do leitor comum e não de leitores escritores. Para haver uma intersubjetividade entre autor-obra-leitor é preciso que se atribua significância à leitura.

Logicamente, - como escritores somos também interlocutores de nossas criações, até porque os sentidos de uma obra vão se modificando mediante novas leituras até mesmo para seus autores -, entretanto, nem sempre aquilo que nos parece dotado de riqueza contextual, valores e bom uso da linguagem evoca beleza e significância ao leitor não-autor. Isso demonstra que a leitura é algo muito subjetivo e o gosto mais ainda, depende da soma de experiências e leituras de mundo de cada um.

Dia desses, não me lembro exatamente quando, discorria com o amigo e poeta português Vicente Ferreira da Silva, do blog d’Inatingível, sobre o assunto; e durante o debate uma questão nos inquietou: - será que os poetas, na Blogosfera, têm produzido vislumbrando o leitor não-escritor; ou, contrariamente, têm direcionado os olhares sobre si mesmos?...

Deixo esse questionamento no ar...

Novamente, parabéns pelo conjunto de conteúdos expresso em o Poesia Sim.

Abraços,

H.F.
Roseli disse…
Este comentário foi removido pelo autor.
Héber Sales disse…
Muito bem colocada essa questão, Lau. Dá o que pensar. Assim, de bate pronto, me ocorre que a auto-avaliação dos nossos poemas pode mudar com o tempo e que é preciso um certo distanciamento para se visualizar todas as possibilidades de uma obra.
Um abraço.
paulo de toledo disse…
lau, esse negócio de escolher o nosso melhor poema é realmente deveras dificultoso. o q acontece comigo é gostar mais sempre do mais recente (q eu tenha considerado bem feitinho, é claro). parece q os poemas antigos, de tanto serem lidos por nós mesmos, acabam perdendo um pouco da "novidade". assim tb acontece com aqueles poemas de outros autores q já lemos várias e várias vezes e q parecem não nos impressionar tanto qto acontecia nas primeiras leituras.
mas, como exercício de egocentrismo, indico o meu "musa em fuga" e a série "concreróticos", q estão disponíveis na web.

abrações,

paulo
Mirse disse…
Muito boa a exposição ee os questionamentos. Melhor ainda os poemas. São magníficos.
Na minha opinião quem escreve segue ou tenta imitar seus ancestrais escritores. Self que impulsiona a escrita.Expondo o que escreveé alvo de julgamento, vaias ou aplausos, que ao escritor não interessa, uma vez que não está num palco. É necessário selecionar e lapidar poemas. Mais nada!

Abraços

Mirze
Lis Cristina. disse…
Ser poeta , não é uma ambição minha , mas é viver nas montanhas, ter vida interior...A poesia em mim..é como voce escreveu, ao mesmo tempo que ama..dói, clama e grita Ai!!
Ai!
Obrigada pelo comentário deixado..
Amei seu blog..e os textos que li
Beijos
Sabe só tenho medo de quando o Senhor chegar eu não estiver fazendo direito, porque está presente em mim , ao mesmo tempo a lei do pecado, é como um duelo..um duelo de mim..talvez
Boa tarde, Lau Siqueira.

Ah... A sua pergunta, para mim, é fácil...
Não, não... Claro que não. É inquitante.

Eu gosto demais; amo escrever - principalmente - poesias. Mas sou escritora amadora.

Gosto quando escrevo as poesias menos "trabalhadas". As que escrevo direto no editor de texto e não mudo nem uma vírgula. Tais me remetem a momentos absolutamente reais de minha vida e, sempre que as leio, me alegro ou me entristeço...

As demais - mais "lapidadas" - também me agradam, vieram de uma inspiração muito significativa também, mas não tão real.

Só não digo, nem sob tortura, quais são estas ou aquelas, rs.

Gostei muito do seu blog. Eu gosto de beber e, aqui, é uma boa fonte.

Forte abraço.
Muito prazer,
Taninha
fred disse…
Querido Lau,
Como faz tempo não comento no seu blog, apesar de vir sempre beber água limpa, cheguei com umas abobrinhas na cabeça para tentar responder à irrespondível questão e, pimba!, abre os comentários um da Hercília, ao qual me curvo e, caso me seja permitido, assino com ela.
Abração.
(explicação desnecessária: escrevo em minúsculas por zelo pelos rizomas e por intenção declarada em destituir hierarquizações, portanto é uma ação política - se sobrevem outra tipologia é por encanto)

pontinho de vista sobre o ponto de vista do pound:

estou cada dia menos convicto de que se possa aprender mais sobre a poesia
se não tivermos acesso à diversificada produção poética
tanto nos tempos
quanto nos espaços
deste planeta

se tivermos acesso apenas há alguns dos melhores poemas eleitos
por alguns
como sendo os melhores poemas
(quem elege?)
eu poderei saber um tanto
sobre estes, especificamente estes
melhores poemas
e
da melhor maneira possível
me posiciono ao lado de pound
sobre os limites contidos em torno
tanto da escolha
quanto de quem escolhe
os melhores poemas
e até os melhores poetas
- no caso: a crítica renomada
e hoje, amparada pela mídia -

lembro agora de um texto do régis bonvicino quando se reporta à poesia norteamericana
e o que chegou
para nós brazucas
como sendo "a melhor poesia norteamericana"
- segundo ele: uma merda
que foi deliciada por tantos
dos mesmo críticos que escolhem
os melhores poemas de hoje
de ontem e de sempre...

na verdade esses limites estão muito mais nos seres que compõem
a eleita e renomada crítica
do que propriamente nos poemas
eleitos
embora
cada um pague
de uma forma ou de outra
o tributo por ser eleito...


por outros pontos de vistas:

qual a relação entre o ser e a perfeição?
serão as categorias científicas que define?
será a religião?
"melhor" aqui é um juízo kantiano?
"melhor" é julgamento estético atrelado ao "habitus" de bourdieu?
ou está relacionado
como nos disse francastel
na memória
ou mais exatamente
nas memórias diferenciadas de todos esses críticos?

o poema de bernardo soares é melhor do que o de fernando pessoa ou ele é melhor porque é o bernardo é uma invenção da alma criativa do pessoa?

quais as paisagens visuais estéticas
olfativas degustativas
culturais etc etc
que interferem nas escolhas de um poema?

a ciência obteve êxito na separação: técnica e poética.

sua filha: a crítica, valoriza sobremaneira a distinção, a fragmentação e essa separação.

diante disso
em que medida
estão o técnico e o emotivo
nas escolhas dos poemas?

será que já não é o momento
de superarmos a categoria "melhor"?

eu
particularmente
prefiro deixar a mão
não a própria ou nem sempre a própria
mas a alheia
flanar
como fez lau
relaxadamente
e com capricho
tocar e brincar
como o acaso das escolhas

prefiro ler e sentir um poema
e dizer desse eu gosto
não porque seja o melhor
mas porque esse poema
me apresenta
um olhar diferente sobre a lavradora de cana
sobre a morte
sobre a infância em cascadura

por outro ângulo
e sinceramente
eu escrevo
para provocar emoções
sejam quais forem
eu escrevo
sobre as frestas
os ciscos
o incerto
o impreciso
o que está no ralo de luz
não pago tributo
nem dívida

lau e hercília
abraços ternos
e
abre-se o campo
para uma bela discussão...

valeu!

(segue sem revisão...)
BAR DO BARDO disse…
caro lau, nunca nada publiquei em papel e, até pela idade avançadérrima de 43 anos em que encontro, dificilmente me farei dessa forma.

é um problema sério o de preparo de uma antologia íntima, mas eu acho que não me seria lá muito difícil.

a eleição - imagino - seria por meio do gosto pessoal, nada além disso.

o coração sempre faz as melhores escolhas.

mas, veja bem, o meu coração está no cérebro.

digo sim à poesia.
BAR DO BARDO disse…
Acerca do que HF comenta, sou bastante egoísta para dizer que escrevo para mim mesmo. Ou seja, escrevo literatura para quem gosta de literatura, eu. Sem arrogância, mas quem não gosta de literatura não deveria, em princípio, acessar blogues dedicados a isso. Há tantas outras opções...
Lis Cristina. disse…
Boa noite, Buenas Nothes?
Se puder dá uma passadinha no meu blog e veja o que escrevi...
beijos...
Este lugar é perfeito para refletir..e para nos demasiar , desvanecer na poesia...
Digo sim a poesia...
nydia bonetti disse…
Lau
Realmente este não é apenas um questionamento, como disse, é uma provocação.É mesmo complicado.
"Todo poeta torna-se fatalmente um crítico" - verdade.
"Todo poeta escreve para si mesmo" - verdade.
"O poeta vale pelo melhor dos seus poemas" - verdade.
Todo poeta sabe quais são seus melhores poemas - MENTIRA.:)
Agora este "refrão", é dos seus melhores - dentre tantos.
bjos.
Constança Lucas disse…
escrever poesia é uma necessidade individual, partilhar é uma vontade, qualidade é uma série de saberes sensiveis

publicar em blogues é um ato de partilha, com quem? saberemos?
são sempre poucos os que dão de si comentando

Lau continue trazendo poemas para cá

Abraços
Constança
Regina Lyra disse…
Poeta querido Lau,
Bela discussão e bom encontro com pessoas conhecidas nesse mundo da internet e fora dele. Escrever poesia não é nada fácil. Cada vez melhoramos, com o tempo e com as leituras. Mas sobretudo com a visão de mundo que se tem, com a natureza que nos premiou com a arte poética. Os dias de hoje não são como os de ontem. Procuro fazer da arte uma forma de contribuir com o meu tempo e a história. A poesia está amalgamada com a vida e a criação.
Beijos,

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