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Mostrando postagens de Abril, 2009
piás



precisamos proteger os pequenos

os que no mangue consomem a deixa
dos que rejeitam os rios e os peixes

precisamos proteger os pequenos
que guardam-se de nós em piolas
de uma modernidade infame

precisamos proteger os pequenos

os que não tem nada e que nada mais
esperam da nossa estranha forma de
compreender o que não há e não ousa


(. .)


porque no silêncio mestiço dos becos
as pedras são puro giz e as palavras
derretem asfalto e cravam unhas
amoladas num medo taciturno

na disputa do lixo
de um crepúsculo triste

(lau siqueira – poema vermelho. PS – lá nos pampas, os guris mestiços de indígenas com brancos eram chamados de piás.)

VONTADE DE VOMITAR
A realidade das ruas não revela todas as faces do abandono. O apartheid duma sociedade falida. A miséria arma os seus cercos pela cidade. Em salões de glamour decadente, ostentações cospem em nossas consciências. Hoje, numa coluna social, vi uma foto de um pomposo jantar para certa famosa e opulenta viúva…
espanto



como se fosse
outro esse mundo
tosco que me sorve
pelo avesso

pessoas palavras
coisas

deuses no
ventre do oco

tudo consumido
no espasmo
do que não sou

mas abala
e de dentro

contempla

(poema vermelho – lau siqueira)

POEMAS VIVOS
Nunca sei quando vou escrever um poema. Mas, sempre tento. Quase que diariamente me jogo nas palavras com sede de anteontem. No entanto, na maioria das vezes, apenas engasgo. Talvez por isso tenha dificuldade imensa de afirmar a poesia enquanto mero exercício cerebral. A poesia, em mim, nasce do que contemplo no sentido das palavras, a partir do que a vida me oferece. Seja doce, seja acre. Meu pensamento, sente. Meu sentimento, pensa. Não sei definir onde começa e onde termina o que me parece uno.

ANTÔNIO CÍCERO
Foi uma suave experiência do saber. Talvez pudesse descrever desta forma o prazer que foi a palestra do poeta na semana que passou. Infelizmente, não pude ficar para o debate. Na verdade, sempre acho o debate o melhor momento. Antônio Cícero é um poeta despido da …
barrabás


a arte que me parte

arde

sinistro da silhueta
no estridente circo
das certezas

do medo que morde

(poema vermelho – lau siqueira)

BUENAS NOVAS
Recebi com alegria esta notícia. O professor, crítico de MPB e Literatura, doutor em semiótica e poeta transgressor, Amador Ribeiro Neto, conta que meu livro Texto Sentido foi adotado por ele no Curso de Letras da UFPB, em teoria da poesia. Obrigado Senhor! Senhor Amador!

CIDADE POEMA
Estão circulando em busdoor (no vrido dos buzão) em Porto Alegre, como divulguei antes, dois poemas meus no projeto Cidade Poema. O que eu não divulguei ainda é que o projeto tem um site pra lá de bacana: www.cidadepoema.com

CULTURA? CULTURA!
Recebi algumas perguntas para publicação num site. Uma delas sobre a importância da cultura para a sociedade. Então, lembrei Arnaldo Antunes; “Bactéria num meio é cultura” e resolvi publicar minha resposta, especificamente, aqui no blog.

CULTURA?
Em países como a França, o patrimônio cultural é uma das principais bases da economia (…
rio
sanhauá



anéis
e dedos se foram

resta a carne seca
em ossos dissipada

o coração - poço de
coragens vencidas

no alvo da retina
a nitidez do que
não existe(tudo é belo
e triste)
(poema do livro Texto Sentido)

DIÁRIO DE UM LOUCO
Assisti Esperando Godot, em Porto Alegre há uns 25 anos atrás, ou mais. Um clássico de Becket. Adorei! Tempos atrás, assisti A Gaivota, de Tchecov, com o grupo Piollin. Bárbaro! Domingo, a convite do meu amigo Jorge Bweres, diretor do espetáculo, fui assistir Diário de Um Louco, de Nikolai Vassilievitch Gogol. Também adorei. Inclusive escrevi a respeito no blog Pele Sem Pele. O bom teatro sempre busca bons textos.

ROMAN JAKOBSON
“É a poesia que nos protege contra a automação, contra a ferrugem que ameaça a nossa fórmula do amor e do ódio, da revolta e da reconciliação, da fé e da negação.”

POESIA SIM
Pensar o poema, às vezes, parece um ato repetitivo. Isto se não nos libertamos do aprendido e do apreendido, para a experiência de colher imagens e transportá-las para a pimenta do…
quatro paredes

e se te amo ainda como
em eterna e cálida despedida
cozendo em trapos a vida
sem ânimo para colher o pomo

deste olhar lacerado e inútil
de onde sopro tua ausência
e meus olhos de eterna ânsia
desmembram tua beleza fútil

é que trago em mim a lágrima
e os destroços do naufrágio
- corpo e alma em desvario

vestindo a soberba demência
do que soçobra entrementes
solidão entre quatro paredes

(poema do meu quarto livro, Texto Sentido)

POEMAS ESCOLHIDOS
Sabe no que dá medo morrer? Na possibilidade de alguma alma caridosa publicar meus piores poemas. Por isso deleto tanta coisa. Tenho receio de ser confundido. Meus erros são distraídos e certeiros. Não sou como James Joyce que dizia que “um homem de gênio não comete erros. Seus erros são voluntários e são os portais da sabedoria.”

AS ESCOLHAS CERTAS
Por outro lado, muitas vezes desconfio muito das minhas escolhas. Ano passado estive presente numa sala de aula do curso de Letras da UFPB, onde um grupo estava estudando a poesia de Caeta…
teia


então fui diluindo a loucura
ao compreender que a nascente
de tudo era um caos

urbano e diurno

aprendi a velejar pelas calçadas
como uma sombra entre sombras

sem inventar rastros
ousei vestir os sapatos da morte
e revelar-me ao círculo visceral
da existência

nem fui o
insano ou o decrépito humano

apenas despi a coragem e vivi
sem pele a lapidação da alma

perdi o que
não era essência

e agora
pleno de mim
não sei nem sou


(poema do meu quarto livro, Texto Sentido, Ediçõeds Bagaço-PE, 2007)

CIDADE POEMA
Desde ontem meus poemas circulam em busdoors (adesivos na parte de trás dos ônibus) pelas ruas de Porto Alegre. Trata-se do projeto Cidade Poema, idealizado e dirigido pela jornalista e escritora gaúcha, Laís Chaffe. Participam também do projeto poetas como Edson Cruz, Fabrício Carpinejar, Ricardo Silvestrin, Laís Chaffe, Diego Petrarca e outros.

CIDADE POEMA I
O projeto é bastante ousado. Prevê a colocação de mais de 100 out-doors ao longo dos próximos dez meses. Além de versos em “bolachas” de cerveja, im…
plantio


nem a morte me cala
por isso escrevo
e transponho linguagem
em valas

vou regando verbos e estrume
para crescer
no que não conheço

poema
ou
insulto

(do meu terceiro livro, Sem meias palavras, Ed. Idéia-PB, 2002)

PEN(S)AR O POEMA
(...) Penso sobre o que escrevo. Sei que quando o poema vem já não é mais tempo de pensar. O poema precisará ter sido pensado antes. O tempo do poema é outro. O tempo do poema é o tempo de uma conjugação de derivados da condição humana com artefatos insidiosos de linguagem. Pensar o poema, portanto, não é no ato da sua execução que se dá. Pensar o poema é um ato da existência do poeta. O momento do poema - da artesania do poema - é o transbordamento de tudo. O instante em que o homem é o próprio espírito e por isso se faz poeta. (Dizem que esse momento não existe. Eu acredito, mas confesso que já senti.) Com a matéria bruta da linguagem em mãos, entra em cena o escultor. Então, já não há mais o que pensar... mas, muito que transpirar a própria (ins)piração.

PEN(S)AR…
poema


o poema é
a nudez que me veste
na mesma derme que
rasga as algemas e os
vetores do nome que sou
quando apenas respiro
fraudulento de minha espécie
pensando sentindo sentindo
pensando

(.........)

queria cinco
pares de unhas afiadas para escrever
meu poema pelas paredes
como uma grafitagem de beleza
escondida nos becos

(.........)

penso arrancar as telhas para ver
melhor a lua

(.........)

arrancar as telhas já vale o poema

(.........)

penso que poema algum é tudo

(.........)

penso com minha alma de veludo

(poema do meu quarto livro, Texto Sentido)

ESCREVER POEMAS
Não publico um poema inédito aqui no blog há séculos. Mesmo assim continuo escrevendo, acreditem. Varo madrugadas sentado em frente ao computador. Digo sempre que escrever poemas é o exercício permanente das nossas impermanências. A questão é que não consegui, nos últimos tempos, extrair dos meus exercícios um único poema que julgasse passível de ser publicado aqui no Poesia Sim (imagine em outros espaços). Por isso, estou apagando tudo. Escrevo e …
ruído d’água
no rio nascente
música dos peixes

(Na verdade, isto é um Haiquase. Uma tentativa de haikai que publiquei no meu terceiro livro, Sem meias palavras- 2002)

ELEONORA FALCONE
A cantora paraibana Eleonora Falcone estará realizando uma série de shows do circuito BNB, entre Sousa-PB e Fortaleza-CE, passando por Cajazeiras(PB), Nova Olinda (CE), Juazeiro do Norte(CE), entre os dias 14 e 18. Confira a agenda e o trabalho de Eleonora Falcone, no site www.eleonorafalcone.com.br . Poderemos ter uma noção da grande cantora que é Eleonora Falcone em alguns vídeos que estão no site. No entanto, é ao vivo que ela arrasa. Um show para pessoas sensíveis e pulsantes de qualquer cultura. Confira!

PELE SEM PELE
Ainda não tenho certeza se devo mudar o formato do blog Poesia Sim. Por enquanto, preferi investir no Pele Sem Pele, onde guardo meus textos mais longos. Na verdade, o blog funcionava mais como um arquivo de textos. Artigos sobre leitura, política cultural, livros e artes plásticas, música...…
pedro sobre pedra



o oceano era tanto
que a vida inteira
balançava

diante de um
arco feito horizonte

o instante era uma
atitude medida na
inquietude do vento

) éramos algo
pesado planando
sobre as águas )

o infinito e o incerto
balançavam as ondas


( homens
velas e madeira
sobre o oceano (


gritos de um povo
inscrito no silêncio

proscrito do que de
tão imenso




...e o que pesquei
nesta vida inteira

foi
o
mar

(poema vermelho – lau siqueira)

PEDRO BUCHUDO
Ano passado ouvi um relato de um pescador da praia da Penha, aqui na capital da Paraíba, que muito me impressionou. Ele disse que viajou com mais dois companheiros pescadores, numa jangada, até o Rio de Janeiro. Eles foram entregar as reivindicações dos pescadores ao presidente da República. Na época era o Juscelino. Esse relato foi feito por um homem chamado Pedro Buchudo. E ele relatou tudo numa assembléia do Orçamento Democrático, um instrumento de gestão instituído pela Prefeitura Municipal. Portanto, falou para centenas de pessoas, num microfone. Sem medo que alg…
cataplaft


com tacapes digitais
e tangas pierre cardin
cariris contemporâneos
invadem o shopping

jantam champignons
com xerém
num self-service

ajustando penas
desajustam cocares
da cultura pagã

cultuam corpos
em academias

investem fortunas
da floresta tropical
nas delícias
da nova moda verão

já sem matas
matam-se nas guerras
da pós-modernidade

disputas sangrentas
por hectares de asfalto
ou pontos de venda
de coca
(ou pepsi)

e dançam o rap
da globalização

com as mãos enfiadas
nas algemas ideológicas
do terceiro milênio

(poema inédito escrito não sei quando - ls)

POEMA RECUPERADO?
Sempre fui bastante desconfiado com o poema acima. Sabe aquele texto que nos parece, ao mesmo tempo, infeliz e necessário? Nunca consegui mexer nesse poema. Nunca consegui melhorá-lo. Também nunca tive tesão de publicá-lo. Está publicado apenas no Jornal de Poesia. Depois de mais de dez anos do seu nascimento, trago novamente esse “Cataplaft” para uma leitura crítica dos visitantes do Poesia sim.

REPERCUTINDO
Repercutiu na mídia o tópico da e…
margem




mutantes & permeados
pela infâmia vamos aos
limites do eixo

lá onde as
borboletas dizem sim

e nada mais importa...

nem o segredo
que revolta

nem o certo
em linhas tortas

(poema vermelho - lau siqueira)

ANTONIO CICERO
Uma noticia ótima para a toda a Nação Paraíba e arredores. No próximo dia 23 de abril o poeta Antônio Cícero dará duas conferências, como convidado do Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes da UFPB. Pela manhã, as 09h, no Auditório 411, ele estará proferindo a conferência “O que é poesia?”. No mesmo dia, às 16h ele terá um encontro com professores e estudantes do Programa de Pós-Graduação em Filosofia, com o tema “O conceito de natureza humana.” Imperdível!

GULLAR NA BRAVO
O poeta Ferreira Gullar deu uma entrevista na Bravo que vale a pena ser conferida pelos que curtem e pelos que não curtem o maranhense José Ribamar Ferreira. Veja uma palhinha: “Uma parcela da crítica sustenta que você é o maior poeta brasileiro vivo. É mesmo? Imagine! E como se mede o tamanho de um po…
estampido



a bala
em sua
trajetória
escreve
a palavra
morte

quando
disparo
é certeiro

quando
não
é pura
sorte

(Poema do meu segundo livro, O guardador de sorrisos, lançado em 1998 pela Trema Edições)

POESIA E REALIDADE I Publiquei “estampido” em 1998, no meu segundo livro. Lembro que escrevi este poema nalgum dos anos noventa. Neste dia 1º de abril de 2009, lembrei dele. Um poema para uma realidade doente. . PRIMEIRO DE ABRIL DESPEDAÇADO No começo da noite de ontem eu estava numa longa mesa de amigos e amigas comemorando o aniversário de uma colega de trabalho, num restaurante. Era 1º de abril, mas a violência urbana nos bateu no ombro e gritou bem alto: Eu não sou uma mentira! Então o assalto foi anunciado. Vi dois caras armados se dirigindo ao caixa do restaurante. Outros (não sei quantos) começaram a recolher carteiras e celulares. Estava tudo muito surreal. Parecia que as cenas estavam ocorrendo numa rapidez lenta. Lembro que estava ensaiando tranqüilidade quando começaram os tiros. Muitos tiros. N…