quinta-feira, 2 de abril de 2009

estampido



a bala
em sua
trajetória
escreve
a palavra
morte

quando
disparo
é certeiro

quando
não
é pura
sorte

(Poema do meu segundo livro, O guardador de sorrisos, lançado em 1998 pela Trema Edições)

POESIA E REALIDADE I
Publiquei “estampido” em 1998, no meu segundo livro. Lembro que escrevi este poema nalgum dos anos noventa. Neste dia 1º de abril de 2009, lembrei dele. Um poema para uma realidade doente.
.
PRIMEIRO DE ABRIL DESPEDAÇADO
No começo da noite de ontem eu estava numa longa mesa de amigos e amigas comemorando o aniversário de uma colega de trabalho, num restaurante. Era 1º de abril, mas a violência urbana nos bateu no ombro e gritou bem alto: Eu não sou uma mentira! Então o assalto foi anunciado. Vi dois caras armados se dirigindo ao caixa do restaurante. Outros (não sei quantos) começaram a recolher carteiras e celulares. Estava tudo muito surreal. Parecia que as cenas estavam ocorrendo numa rapidez lenta. Lembro que estava ensaiando tranqüilidade quando começaram os tiros. Muitos tiros. Não sei quantos. Então nos jogamos debaixo da mesa. Crianças chorando. Ruído de pessoas apavoradas. O medo estampado no olhar de todos. Tudo ali na frente daquele mar imenso. Sob testemunho de uma falésia. Tudo ali, na ponta do Cabo Branco. Mais uma vez a realidade mordeu a nossa esperança. (Confira detalhes aqui.)
.
GENTE SANGRANDO
Um segurança reagiu e levou dois tiros. Um no rosto e outro no abdome. (Soube que não está bem.) Dois assaltantes também foram baleados. Vi um deles no inicio do assalto, com um revolver na mão. Não sei calcular a idade, mas era muito jovem.
.
CRIANÇAS MORTAS
Lembro de um provérbio Chinês que fala de dois pescadores que teriam visto, certo dia, crianças mortas descendo o rio, na correnteza. Ficaram apavorados. Mas, enquanto um deles exclamava seu horror o outro saiu caminhando com passos largos. O primeiro, indignado, se virou e gritou: “Onde você vai? Como é que você vai embora enquanto crianças mortas são jogadas no rio?” E o outro disse: “Eu vou pegar quem está jogando crianças no rio.”
Penso que devemos buscar a nascente de tudo. Aqueles assaltantes eram crianças mortas.

POESIA E REALIDADE II
Os poemas são arrancados de algum ponto da realidade. São artefatos de linguagem. E são arrancados de uma realidade tantas vezes visível e tantas vezes não. O poeta é um ser de linguagem. Um malabarista que caminha com um pé na vida e outro na palavra. Circunstâncias vividas, profundamente pensadas ou sentidas. Todas elas são reais! As palavras fotografam as coisas de um ângulo tipo “imagem na ação”. Mas, realidade é realidade... Sentimento é sentimento. Pensamento é pensamento. A palavra é.
E poesia é imaginação!


TEMA DE GRAFFITI
ADOTE UMA PALAVRA DE PAZ!

21 comentários:

Bob Marinho disse...

Poesia SIM!!!
muito bom...muito bom mesmo!!!

=oD

Regina Lyra disse...

Querido PoetAmigo Lau,
Seu poema Estampido está mais atual do que nunca. Sinto por você e seus amigos presenciarem a barbárie. Sinto muito mais os que saíram feridos enquanto se divertiam.
TERROR - Regina Lyra
/A vida é o agora./ Os assaltantes estão soltos,//
/as pessoas de bem torturadas pelo medo.//
Beijos solidários, Rê

BAR DO BARDO disse...

PAZ é minha filha do coração tem tempo.

Digo sim a ela.

POESIA é outra do coração.

Digo sim a ela também.

Mariana disse...

meu deus, pai! :(:(:( nao vejo a hora de te ver hoje!

Mirse disse...

Lindíssimo "ESTAMPIDO"!
Paz é minha palavra chave que desejo a você.
POESIA SIM, é meu mantra!

Beijos Lau!

Mirse

Constança Lucas disse...

caramba que coisa, a violência é algo tão atroz
espero que estejam refeitos do susto

abraços
Constança

Constança Lucas disse...

com a poesia podemos trazer PAZ

siwa disse...

Excelente blog. Parabéns. Voltarei.

siwe disse...

Excelente blog. parabéns. Voltarei de Lisboa para o visitar.

Clarissa Marinho disse...

Nossa,Lau,que situação horrível!Espero que vc esteja bem!
bjo

Dina disse...

As melhores inspirações, creio eu, advêm dos momentos de crise. Nem que existencial. Neste caso, policial. Vai achar que JP é Passárgada agora, vai.

Bruna Mitrano disse...

a realidade chega assim, forte assim...
infelizmente não foi mentira de 1° de abril.
espero que você supere o trauma (se é que houve), mas não esqueça, é importante lembrar.


belo poema.

fúcsia disse...

ainda bem que tem a POESIA para acolchoar a dureza da realidade.
vitória lima

lau siqueira disse...

Posso dizer que passei um dia ainda impactado com os acontecimentos de ontem. Ficamos assim, embasbacados de horror. Mas, passou...

Dina, menos, viu? Deixa de transformar uma realidade pos-moderna nas tragedias gregas.

Enfim, foi susto. Valeu!
Lau

lau siqueira disse...

Digo: Valeu a força. abraços! Lau

Luciana Marinho disse...

belo post. tão digno ao "buscar a nascente de tudo", ao ouvir nos tiros a humanidade gritando sua infância morta. cuidemos da poesia, nela as crianças nascem.

beijo.

Hercília Fernandes disse...

"Penso que devemos buscar a nascente de tudo. Aqueles assaltantes eram crianças mortas".

Concordo com as suas palavras, Lau. Enquanto não atendermos à realidade de que é preciso "cuidar" de nossas crianças, estaremos produzindo "anomias" que remetem os homens a estranhamentos e desvios de toda e qualquer ordem humanizadora.

A poesia, como qualquer uma outra forma de expressão artística, pode contribuir nesse processo de rehumanização, mas fazem-se necessárias "ações concretas" para que se alcance o núcleo das problemáticas.

Lamento, sinceramente, por essa sua experiência. Bom seria que não existissem "causos" dessa natureza, cujos fechos são por demais realistas e, por isso mesmo, não se pode ignorar...

Forte abraço, meu amigo.

Bem Aja e Haja!
H.F.

Luciana Marinho disse...

"cuidemos da poesia, nela as crianças nascem"... embora compreenda a linguagem e o uso da língua enquanto ação sobre o outro e sobre o mundo, não utilizo a palavra poesia restringindo seu sentido a uma dada manifest-ação da língua, a literária. antes dela estar nos livros, ela se expande na vida e no coração do homem. é a poesia dos gestos humanizadores; dos atos libertários; dos silêncios subversivos; dos encontros amorosos tão vividos por paulo freire em sua prática educativa, mesmo quando nesta nem se abria um livro de literatura. as crianças que nascem no Ser de Poesia também não se restrinjem às nossas idades pré-adolescentes. mas isso já é uma outra conversa... :) beijos.

Gauche disse...

Nossa, Lau, quando li este post, fiquei muito preocupada com você. Sei que, fisicamente, está bem. Mas espero que esse estar bem esteja além do físico.

Beijos, caro.

Antzella disse...

Bom saber que estás bem. E minha palavra de paz é Poesia. Em qualquer situação, por mais adversa que seja. Poesia, Lau.

montedepoesias.

Marli Reis disse...

Meu abraço, de paz!