quarta-feira, 29 de abril de 2009

piás



precisamos proteger os pequenos

os que no mangue consomem a deixa
dos que rejeitam os rios e os peixes

precisamos proteger os pequenos
que guardam-se de nós em piolas
de uma modernidade infame

precisamos proteger os pequenos

os que não tem nada e que nada mais
esperam da nossa estranha forma de
compreender o que não há e não ousa


(. .)


porque no silêncio mestiço dos becos
as pedras são puro giz e as palavras
derretem asfalto e cravam unhas
amoladas num medo taciturno

na disputa do lixo
de um crepúsculo triste

(lau siqueira – poema vermelho. PS – lá nos pampas, os guris mestiços de indígenas com brancos eram chamados de piás.)

VONTADE DE VOMITAR
A realidade das ruas não revela todas as faces do abandono. O apartheid duma sociedade falida. A miséria arma os seus cercos pela cidade. Em salões de glamour decadente, ostentações cospem em nossas consciências. Hoje, numa coluna social, vi uma foto de um pomposo jantar para certa famosa e opulenta viúva de um dos imortais da Academia Brasileira dos Hipócritas. Senti vontade de vomitar!

POEMA ENGANADO
Não existe poema engajado. Existe poema enganado. Na verdade a poesia não precisa de rótulos ou de justificativas para que seja aceita nos meios e nas mensagens. Os temas são livres. E com as novas leis ortográficas, os tremas também. A poesia é o eco transbordante de um silêncio que de tão denso, vira linguagem.

POLÍTICA
Viver é uma circunstância política. Dentro ou fora das estruturas partidárias ou governamentais. Política é uma das muitas linguagens do homem. A forma como se relaciona consigo mesmo e com a sua circunstância. Política é conceber na diferença, a luta contra as sempre tão imensas desigualdades. Política não é lugar de ladrão.

POEMA DE PABLO NERUDA

Por qué mi ropa desteñida
se agita como uma bandera?

Soy um malvado alguna vez
o todas las veces soy bueno?

En que se aprende la bondad
o la máscara de la bondad?

No es blanco el rosal del malvado
y negras las flores del bien?

Quién da los nombres y los números
al inocente innumerable?

(poema LXIV do Livro das Perguntas, de Pablo Neruda. Publicado no Brasil em edição bilíngüe da LPM, com tradução da poeta Olga Savary, em espanhol no Poesia Sim)

3 comentários:

Mirse disse...

A poesia é o eco transbordante de um silêncio que de tão denso, vira linguagem!

Como sempre, Lau você exceeeeede!

Lindo o seu poema lembrando dos pequenos seres esquecidos. Tenho um já preparado, não tão elegantemente, sobre os abutres que ninguém gosta, porque são feios, e se alimentam de carniça, mas estão em extinção.

Hoje só se preza o belo, até nos animais?

Adoro Neruda! e tenho esse poema dele .

Muito boa essa postagem!

Abração

Mirse

Adriana disse...

Lau,
Lindo e lido seus poemas, você tem uma sensibilidade para captar a poesia onde menos esperamos.muito bom, sempre!

cristinasiqueira disse...

Lau,

Sim eu amo poesia.E por assim ser
nesta noite de outono em silêncio e abandono eis-me aqui buscando parceria em palavras que me deleitem o apetite vital.
Passei devagar pelos piás e poemas.

Até mais,

Cris

Ps-se vc passar pelo www.cristinasiqueira.blogspot.com deixe seu comentário.