terça-feira, 14 de abril de 2009

plantio


nem a morte me cala
por isso escrevo
e transponho linguagem
em valas

vou regando verbos e estrume
para crescer
no que não conheço

poema
ou
insulto


(do meu terceiro livro, Sem meias palavras, Ed. Idéia-PB, 2002)

PEN(S)AR O POEMA
(...) Penso sobre o que escrevo. Sei que quando o poema vem já não é mais tempo de pensar. O poema precisará ter sido pensado antes. O tempo do poema é outro. O tempo do poema é o tempo de uma conjugação de derivados da condição humana com artefatos insidiosos de linguagem. Pensar o poema, portanto, não é no ato da sua execução que se dá. Pensar o poema é um ato da existência do poeta. O momento do poema - da artesania do poema - é o transbordamento de tudo. O instante em que o homem é o próprio espírito e por isso se faz poeta. (Dizem que esse momento não existe. Eu acredito, mas confesso que já senti.) Com a matéria bruta da linguagem em mãos, entra em cena o escultor. Então, já não há mais o que pensar... mas, muito que transpirar a própria (ins)piração.

PEN(S)AR O POEMA I
Sempre achei meus poemas imprecisos e imprestáveis. Ainda bem. Há os que consideram ter elaborado completudes do infinito em cada verso. A vaidade é a pior inimiga dos artistas. O poeta ruge quando surge vestido de linguagem. Como sempre digo, este é o momento de não ter medo do ridículo. Afinal, é preciso transgredir-se. Levar ao último grau da existência, a experiência com a linguagem e a coragem de duelar no escuro com as palavras. Palavras que nem sempre apresentam as respostas esperadas. No meio desse salto absurdo, tem de tudo: do abismo ao deserto.

NA ERA DA VELOCIDADE
De que será feita a memória da Terra daqui a milhares de anos? Onde estarão os arquivos, as edições antigas de livro, em 3250 dC quando nenhum vestígio do nosso tempo terá restado se não a sua memória na pele da espécie humana. No futuro, não haverá espaço para uma história chapa branca. Apesar do que aflige os que temem o amadorismo, a anarquia e a falta de ética na internet. No futuro a história será um mergulho imenso num universo de verdades e mentiras herdadas de uma modernidade falida.

POEMA DE LÚCIO LINS


quando o tempo
me cobrir os céus
com a anágua suja
da tua espera
e teus lábios
forem duas margens
um
gritando calmaria
outro
clamando tempestade
eu voltarei
de corpo e barco
e por ti
seguirei minha viagem

navegarei
entre teus braços
e segredos
eu
serei teu búzio
tu
serás o meu degredo

(duas margens, poema do meu saudoso amigo, Lúcio Lins. Este poema foi musicado e gravado por Chico Cesar. Foi gravado, também, por Eleonora Falcone)

8 comentários:

Apoena disse...

Há tempos vejo q há poesia sim...
nem sempre com certeza e nexo ela me atinge.

www.apoesiadesonos.blogspot.com

Nem sempre os ventos são tão fortes pras palavras e digo "poesia sim"

Viviana Fernandes disse...

Lau,
é lindo este teu poema. Por um acaso destes da vida entre duas paredes de papel, lembrei-me de um soneto saído após tal leitura. Ei-lo aqui:

Deixa que eu seja a intriga ou a flor,
A lingüiça no prato que não queres,
A mais sonsa de todas as mulheres,
A santa no alto do seu andor.

Deixa que eu seja das fronhas o alvor,
A Inês que já é morta, o que quiseres!
A ambulância louca, seja o que for!
Tu serás corrimão em meus prazeres.

Chega-te mais, amor, vem, faz biquinho...
Põe meus fartos seios em tuas mãos,
Dois melões ardendo no mesmo ninho...

Vem comigo dançar na cena mais louca
E explodir, na confluência dos vãos,
Uma Via-Láctea em minha boca!...

Um beijo,

Viviana

Adriana disse...

teu insulto me cala porque é poesia...lindo!

Betomenezes disse...

Poesia sim!

belos poemas, bela composição, bela música.

betomenezes.

Nydia Bonetti disse...

Nem a morte pode fazer calar a palavra. Que belo poema, Lau.
Um abraço
Nydia.

Apoena disse...

Em um insulto à normalidade escrevi sem reler, o link estava errado, é:

www.apoesiadesons.blogspot.com

Visitem meus verbos soltos

Com certeza regamos verbo e estrume para a vida.. em poesias e insultos. Sem meias palavras mais uma vez elogio.

carlos augusto disse...

teu insulto me acusou,estou certo de que um dia seri sua vitima...

Anônimo disse...

que teu afeto meu afetou é fato,agora.....dê sua opiniao huahsuahs