cilada



comungo com as pequenas coisas

com o que mergulha no sumidouro
das horas mortas

também com as flores miúdas
que harmonizam o jardim e
com abelhas que somem
no invisível

estabeleço um tempo para a fruição
do que mensuro no pulsar das
coisas tortas e nos espaçamentos
da alma

depois teço a esperança
retomando o eito do cansaço


como se os limbos da calma
que degola meus gestos pusessem
em minhas mãos o
lodo cinzento do que não sou

a lua permanece intacta entre as
nuvens a devorar o uivo e o lobo
sedento das paisagens inanimadas

e a escuridão contempla
meu olho nu


(POEMA SEM PELE – Lau Siqueira)

NUNCA ESCREVA PUTO
Machado de Assis tinha razão. Quando estivermos com raiva, não devemos escrever. Podemos gritar, espernear, pular da janela (no térreo, claro), mas, jamais escrever. A palavra escrita deve ser sempre produto de algum tipo de lucidez. Mesmo quando imersa na embriaguês suave do efeito abstrato. Aliás, principalmente quando imersa na embriaguês cambaleante do abstrato. Onde uma imensa lua sem entradas e sem saídas, assiste o significado beber o nome das coisas. Por isso, não escreva quando estiver puto. A ira é uma embriaguês incontrolável. Usemos a tese de Machado e cortemos essa possibilidade. (dia desses disse mais ou menos isso pra mim)

ETIQUETA PRA EUNUCO
Hoje eu li numa coluna social (conhecidíssima pelo poder político e econômico que articula em torno de si) uma repugnante defesa da castração como forma de punir crimes de abuso sexual. Então pensei: como é cangaceira a tropa da elite! E além de tudo, burra e embrutecida pelo parasitismo. Pensa que se modernizou porque anda em carro importado, mas apenas virou talibã via satélite. Que coisa! A elite brasileira, burra e decadente, na maioria das vezes, sustenta o ego na corrupção e mente que trabalha. Por tantos crimes historicamente comprovados, não surpreende que ainda hoje seu mais largo pensamento em termos de justiça propõe exatamente o combate ao crime, com outro crime... E assim se forma opinião nos embalos que viram fotografias em colunas sociais. Porcos!

CONEXÕES
As palavras, assim como os fatos, as coisas, as pessoas, os astros, o mato, o ar... Tudo tem conexão direta e absoluta. Como disse Antônio Cícero, no entanto, não se lê poesia com os mesmos olhos que lêem notícias nos jornais. Mas, as palavras são as mesmas. O problema é que algumas viram mesas. As palavras embebidas em poesia viram coisas, regurgitam fatos, espetam pessoas, comungam com os astros, tem cheiro de mato e se desmancham no ar, mesmo as não sólidas. As palavras são aleatoriamente óbvias... e obviamente aleatórias. Cada significado, uma história. Memória?

E POR FALAR NISSO...
Ontem eu estava lendo alguma coisa de Umberto Eco, em As Formas do Conteúdo e destaquei isto especialmente para o blog: “o juzo fatual extrai perceptivamente ou intelectualmente o dado perturbador de fora da linguagem. São os ratinhos mortos no laboratório que obrigam a dizer ‘o ciclamato é mau’. E a morte é um fato extra-semiótico.
A metáfora, ao contrário, extrai a idéia de uma conexão possível de dentro do círculo nas suas conexões estruturantes.”

NINGUÉM MENOS QUE JOMARD

AUGUSTO Valéry de CAMPOS
pelo drumundano j m b

Ser poeta, não. Poder imaginá-lo.
O que não se negocia facilmente.
Amemos a dificuldade: fácil é sempre
o AUTOMATISMO: o que se faz sem pensar.
Se tudo se mostra tão previsível e
parecido com gerações domesticadas,
ousemos as situações-limite da fala,
escrita, escrituras e mais escriDURAS.
Das filhas de Lilith aos bastardos da
poeticidade substantiva sem temer os adjetivos.
ROSA DO POVO, não sendo elitista nem populista,
perfumou-se rosa cidadã multicultural. Pós-Tudo.
O difícil é sempre novo, novelho? Perigo.
MÁQUINA DO MUNDO enferrujou-se de
incentivos fiscais do pré-sal às salivas
da impunidade corroendo quase tudo em vão.
Falo do mundo: falar não nos é suficiente.
O não compreender bem definido pode e deve
engendrar uma lucidez interativa. Amazonica.
Perigosamente sem traumas epidérmicos.
Pelo CONGRESSO INTERNACIONAL DO MEDO
reencontrar o sentimento do mundo no
aquecimento global entre desmatamentos?
Pela tentativa de dizer o que é difícil dizer
e muito mais escrever entre muros.
Pela indissolubilidade da forma e do fundo,
do estilo/conteúdo, do real/simbólico,
do comunicável e do silêncio da contracomunicação.
FORMATIVIDADE. Em processo sem pandemias.
Convergência de oposições dilaceradas.
Pelo risco de oferecer aos leitores mais do que
eles e elas suportariam. Sem traumas edipianos.
Pela impossibilidade dos claros enigmas e das
sentimentaloides notícias amorosas.
No multiverso das crueldades a literatura
não pode ser inocentemente envaidecida.
Deuses secretos e orixás indiscretos circulam
pelas salas de aula sem paredes. Pulsações.
Dos impasses reciferidos aos impactantes ACRElíricos.

PS.: Pedro Vicente Costa Sobrinho
divulgar na I Feira do Livro no Acre.


Jomard Muniz de Britto, Recife, maio de 2009 (recebi por e-mail do amigo Jomard)

Comentários

Flávia Muniz disse…
Lau:

esse poema é muuuito bonito!!

bj
“A palavra escrita deve ser sempre produto de algum tipo de lucidez. Mesmo quando imersa na embriaguês suave do efeito abstrato”.

Lau,

compartilho com as suas sensíveis e ponderadas pontuações analítico-poéticas. E, sempre que me encontro em alguma das situações explicitadas, recolho-me ao silêncio, à reflexão. Isso para, quem sabe, compreender - ou me perder - (n)os mistérios que envolvem as palavras e as coisas.

Belíssima postagem, caríssimo poeta. Gostei tanto que, no blog da Maria Clara, encontra-se a sugestão de leitura de sua matéria. Simplesmente Poesia!

Parabéns!

Um abraço caloroso,

H.F.
BAR DO BARDO disse…
sim
sim
sim

bons textos

boa poesia
Doooooisss! ;) hihihihi

Tudo bom, meu amigo poeta? Lindas obras, como sempre!

Tá chegando o show, heim? Te vejo lá!

Beijo!
Nossa Lau! Esse "Cilada" ficou muuuuito bom!! "a lua permanece intacta entre as
nuvens a devorar o uivo e o lobo
sedento das paisagens inanimadas"? Sensacional!!!

Abraço!!
Lis Cristina disse…
Ciladas, ardis, armadilhas apenas metáforas da leitura nos desarticula as expecta- tivas do destinatário e se faz transgressoras por natureza..
Lua que permanece intacta,,lua que tanto poetas escreveram,,intactas,,porque são apenas testemunha silenciosa!!Perfecto!!!

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