domingo, 10 de maio de 2009

SARGENTO GARCIA
(em memória de Caio Fernando Abreu)

teus lábios em minha pele

cálidos como as matilhas
selvagens do encanto

meu pau solene
feito átrio aço
incontido de paixão e medo
busca o abrigo do teu hálito

nenhuma voz crepuscular
na indução do desejo

nação de gemidos

escarro na boca
escancarada
da cidade

(tentativa de poema homoerótico escrito especialmente para o jornal Colméia, do Movimento Espírito Lilás – MEL, em julho de 2004)

CONTRA A HOMOFOBIA
Em geral não gosto de escrever poemas por encomenda. Mas, algumas causas são por demais nobres, reconheço. Em 2004, incorporado na luta contra a homofobia fui provocado e escrevi o poema acima. Na verdade, uma tentativa de poema com temática homoerótica. Acho que não fui bem sucedido, mas republico como forma de me posicionar permanentemente contra tantos assassinatos de inocentes, incentivados e praticados pela covardia homofóbica. Todavia, sempre que falo em poemas por encomenda, lembro que João Cabral de Melo Neto escreveu Morte e Vida Severina, para atender um pedido de Maria Clara Machado.

POESIA ENCENADA
Nos dias 12 e 13 acontecem as eliminatórias do projeto Poesia Encenada, do SESC-PB. A atriz Kaline Brito me pediu para encenar algum texto meu. Inscreveu dois poemas do livro Texto Sentido. Um deles, O Discurso da Pele. O Outro, Bobo da Corte. Ambos foram classificados. Agora é esperar pela encenação (jamais pela premiação). Merda pra nós, Kaline!

CURSO DE CRIAÇÃO POÉTICA
O poeta Claudio Daniel realiza um curso de criação poética no Ateliê do Centro, localizado na rua Epitácio Pessoa, 91, próximo à estação de metrô República, em São Paulo. O curso, que acontece aos sábados, das 15 às 17h, é dividido em vários módulos, com exposições teóricas sobre Mallarmé, Valéry, Ezra Pound, Haroldo de Campos, entre outros poetas, e exercícios práticos de criação. Informações sobre o curso estão disponíveis no blog Laboratório de criação poética, na página
http://labcripoe.blogspot.com. Quem estiver interessado em participar pode enviar uma mensagem para o e-mail claudio.dan@gmail.com.

CHICO CESAR
O novo presidente da Fundação Cultural de João Pessoa - FUNJOPE é o cantor e compositor paraibano, Chico Cesar. Muitas esperanças construídas cercam a posse deste mallarmaico nascido na “praça de guerra” do Alto Sertão paraibano, Catolé do Rocha. A história política da Paraíba vai cumprindo seu destino-aroeira (é a volta do cipó de aroeira no lombo de quem mandou dar, cantava Geraldo Vandré). Estou entre os que apostam e se aliam à gestão do companheiro Chico Cesar. Tive o prazer de ter presidido esta fundação nos anos de 2007 e 2008. Meu antecessor, em 2005 e 2006, foi o ator Luiz Carlos Vasconcelos. Como diz minha amiga Fernanda Svendsen, “artista no poder, sempre!”

POEMA DE FERNANDO PESSOA

Tenho tanto sentimento
Que é freqüente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheço, ao medir-me,
Que tudo isso é pensamento
Que não senti, afinal.

(“Logopéia”, poema de Fernando Pessoa. Não lembro de que livro. Copiei do meu blog anterior, onde não colocava as referências)

2 comentários:

Super Bruna disse...

Saudações, Lau.

Ai, que arrepio senti ao ler Caio Fernando Abreu. Um dos meus nomes favoritos, em tudo.
"Amanhã, decidi, amanhã sem falta começo a fumar."
Ótima escolha de conto para homenagear. E igualmente ótima homenagem, erótica e crua, como o conto.

É um absurdo ainda existir a homofobia. Somos todos homo (sapiens sapiens).

Que você e Kaline quebrem a perna!

Eu queria um curso de Criação Poética em João Pessoa...

A fotografia que tirei com você está no meu blog, vai lá e salva .)

Ósculos&Amplexos.

Lis Cristina disse...

Ao ler este post,,fiquei estática,,
nem sei se eu sou eu mesma...
entrei numa embarcação...
E pensar que fiquei 1 mes em João Pessoa, e quase fizei residência fixa,,merda!!!!pra mim!!
Fernando Pessoa ,,antes de voce um dos meus favoritos..guarde este!!

Dizes-me: tu és mais alguma cousa
Que uma pedra ou uma planta.
Dizes-me: sentes, pensas e sabes
Que pensas e sentes.
Então as pedras escrevem versos?
Então as plantas têm idéias sobre o mundo?

Sim: há diferença.
Mas não é a diferença que encontras;
Porque o ter consciência não me obriga a ter teorias sobre as cousas:
Só me obriga a ser consciente.

Se sou mais que uma pedra ou uma planta? Não sei.
Sou diferente. Não sei o que é mais ou menos.

Ter consciência é mais que ter cor?
Pode ser e pode não ser.
Sei que é diferente apenas.
Ninguém pode provar que é mais que só diferente.

Sei que a pedra é a real, e que a planta existe.
Sei isto porque elas existem.
Sei isto porque os meus sentidos mo mostram.
Sei que sou real também.
Sei isto porque os meus sentidos mo mostram,
Embora com menos clareza que me mostram a pedra e a planta.
Não sei mais nada.

Sim, escrevo versos, e a pedra não escreve versos.
Sim, faço idéias sobre o mundo, e a planta nenhumas.
Mas é que as pedras não são poetas, são pedras;
E as plantas são plantas só, e não pensadores.
Tanto posso dizer que sou superior a elas por isto,

Como que sou inferior.
Mas não digo isso: digo da pedra, "é uma pedra",
Digo da planta, "é uma planta",
Digo de mim, "sou eu".
E não digo mais nada. Que mais há a dizer?

Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"
Heterónimo de Fernando Pessoa