a versão

pessoano

não raras vezes
afeiçoado às imensidões

fingidor sem sentimentos
voláteis colhendo impressões
fervidas vivas

como um bicho que perdeu
os olhos comendo imagens


(poema recolhido – lau siqueira)

CONVERSA DO RE (...) VERSO
Estive conversando com uma amiga sobre o ato ao mesmo tempo divino, sublime, impuro e insano de escrever poemas. Soube que se sente desconfortável enquanto poeta, quando lê um bom poema. Acha que talvez os seus não sejam assim tão bons. Melhor não pensar nisso, amiga. E muito menos perder de vista esse sentimento. O espírito crítico e as boas leituras são o solo fértil e o oxigênio na medida para a composição de um bom poema. Ao tempo que não se pode esquecer que um bom poema tem um efeito pedagógico para quem escreve e para quem lê. Quanto a poeta maior, poeta menor... Não há fita métrica para medir a diversidade estética que cerca os poetas. Muito menos para a estatura de um instrumento de linguagem que é absurdamente mutante diante dos olhos criadores do leitor. Escrever o poema deve ser, sobretudo, um grande prazer ou uma grande necessidade. Afora isso, podemos dizer que poemas de dor não existem, poemas de amor muito menos. Existem apenas poemas. Bons poemas ou poemas meia boca. O que importa é que em algum momento escrever se tornou imprescindível. Caso contrário eu diria apenas, “não gaste seu tempo escrevendo poemas desnecessários”. No mais, duvidem profundamente do que escrevi.

condição perene

nas cheias
o rio comanda o espetáculo

e as margens são apenas
degraus para o leito mais fundo

nas secas
o rio é a margem

(poema do meu terceiro livro, Sem meias palavras – 2002. ls)

O LIVRO SAGRADO DO POETA
Na verdade, penso que o poeta nasce para escrever um único livro. O poeta é o que se pode chamar de condensador de emoções inteligentes, cuja vida inteira cabe em um haicai. O poeta nasce para a essência. Com a vocação da essência. Não que isso seja bom ou ruim. Mas, é quem tende a mergulhar cada vez mais nos escombros de significantes e significados, a procura do átomo (e por favor, duvide mais essa comigo).
O poema acima é do meu terceiro livro. Na verdade é um poema do meu livro. Uma antologia muito pessoal que ainda não foi esticada no curtume e que talvez jamais chegue a ser esticada. Ainda assim valeu a pena ter escrito cada poema. Poemas, aliás, que não mais se seguram nas alças do próprio verso. Poemas que voam! E voam apenas para que sejamos todos, pássaros...

tese de machado

no entalhe
a madeira se reparte

com porte de quem
cumpre o rito criador

o machado parte

a árvore tombada
já não é a mesma

virou linguagem

substrato e signo de
abismo e arte

(poema musicado por Paulo Roh. ls)

LUIZ AUGUSTO CRISPIM
“A partir do momento em que o poeta deixa de funcionar como elemento de decoração para determinado complexo social ou parte dele, tem-se por conseqüência a estabilização de uma consciência artística cujo objeto será a projeção analítica das individualidades mais absolutas, mais elementar das formas de participação obtida entre o artista e o mundo – acima de qualquer pré-conceito formulável pelo primeiro que aqui se pretende analisar.”
(do livro Por uma estética do real, de Luiz Augusto Crispim. União Editora-PB, 1969)

PELE SEM PELE
Em breve publicarei um texto no blog Pele Sem Pele, sobre o pensador que foi Crispim, escritor paraibano falecido ano passado. O texto partirá da leitura do livro Por uma estética do real, cuja orelha é escrita por um outro personagem importante da vida literária da Paraíba, Virgínius da Gama e Melo. O último texto foi sobre Babilak Bah e seu maravilhoso enxadário.

Comentários

Pra mim, a boa poesia é aquela que faz com que alguém se identifique nem que seja com uma linha. Que faz com que alguém sinta junto com você o que está alí. Pra mim, duas frases podem ser um lindo poema. Sem métrica, sem rima, sem estilo. Um bom poema envolve, faz sentir e pensar.
Lau,

creio que não haja bons poemas no sentido de compêndios escolares... e sim de repercussão.

Um bom texto é aquele que ressoa, repercute no ser do leitor, transformando-o. Assim, o valor de uma obra poética é, portanto, relativo. Depende dos estados emotivos, valores e conhecimentos que permeiam as relações subjetivas e objetivas do público-leitor.

Mais um grande post. Agradeço a leitura.
Eu grito, Poesia Sim!

Beijos 
H.F.
Mirse disse…
Lau,

A cada vez que leio um poema seu, mais o admiro!

em a versão, quantas verdades, e de tal forma tão bem escrito que passa sem se ver o contido dentro do incontido ser.

Meu amigo, parabéns!!!!

POESIA SIM!

SEMPRE!

Forte abraço

Mirse
Lis Cristina disse…
sabe, que sou sempre intríseca ao ler seus poemas,quando li este post,,as palavras rasgaram ao peito,e num silêncio,,atravessei desertos fora de mim, e consegui ser capaz de encontrar um oásis no recandido da sua alma.
E num silêncio,,palavras gritaram, bradaram, aplaudiram..a POESIA SIM!
Obrigada:)
BAR DO BARDO disse…
gostei em especial da "tese de machado" - luminar...
tavares disse…
to adorando esse blog...

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