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terça-feira, 30 de junho de 2009

Fotografobia

Guardo as imagens que recolho na memória.
Ou mesmo na falta dela.

Sou um pensador de memórias não vividas
para uma vida de tecer memórias antigas...

(do meu próximo livro, Poesia Sem Pele)

DE LÍRIOS

Escrevo de dentro de uma caixa de ossos. Dos alambrados da pele. Com olhares que estimulam o que sereia palavras. Não escrevo o que não me retalha ou me dilui nas coisas. Palavras são lâminas. Agudez que percorre os múltiplos rios das correntes sanguíneas. (Rios que solapam a alma.) Por isso não retiro nunca o que digo. Mas, volto atrás se o engano se confunde com o medo do abismo. Escrever poemas é não temer os abismos!

LIVRO DE POEMAS
Quando empresto um livro de poemas que gosto é como se entregasse à pessoa um pedaço de mim. Quando dou um desses livros, um pouco da minha existência vai junto. Às vezes as pessoas nem percebem. Então empresto e o livro nunca mais volta. Talvez seja esta a mais delicada forma de presentear. Um livro que já tenha contaminando nossas células com o infinito...

POESIA E MERCADO
Poesia não vende? Eis um mito do mercado do livro. Na verdade, poesia não vende, mas... Livros de poemas vendem. Rimbaud continua vendendo. Quantas edições - em quantas línguas – das obras completas de Lorca já foram para as ruas? Pessoa ainda vende muito. A edição dos melhores poemas de Quintana bateu a casa dos 100 mil exemplares vendidos. Um estudo recente sobre o mercado do livro revelou que em algumas regiões, poesia vende mais que a Bíblia. Poesia não vende?

POESIA E MERCADO I
Ocorre que a lógica da poesia é a palavra e suas metalurgias e não o mercado. Isso é indiscutível! Mas, não dá pra deixar de pensar que os melhores poetas, autores dos mais significativos poemas, acabaram criando um produto de consumo. Consumo intelectual, mas consumo. E nada menos que “uma coisa chamada livro”. Uma relação desmistificada por Monteiro Lobato no início do século XX ao deparar-se com um país continental com apenas 30 livrarias para onde, em tese, distribuir seus livros. Como já disse aqui, ele enviou correspondência para donos de mercearias, farmácias, bancas de jornais e afins, com uma pergunta desmistificadora das relações da literatura consigo mesma e com o sistema em vigor. “Você quer vender, também, uma coisa chamada livro? Perguntava Lobato. E conseguiu com isso estabelecer uma rede com mais de dois mil pontos de vendas para seus projetos editoriais.

POESIA E MERCADO II
Logicamente que os poetas contemporâneos têm mais dificuldade. Mesmo assim, vendem. Claro que não como um Quintana. Claro que não como um Leminski. Acontece que a nova poesia brasileira, por exemplo, é escrita por poetas cinqüentões. O poeta, quando amadurece, cai do pé. Morre. A luta corporal com a palavra é coisa para uma vida inteira. Viver de poesia? Vá perguntar para os repentistas como é que se faz. Ou então, seja parceiro de um Lenine, um Chico Cesar, um Caetano, um Lula Queiroga para beber na fonte. E se o poeta contemporâneo quiser viver de poesia? Fácil! Vai trabalhar, mano!

COM A PALAVRA EDLA VAN STEEN
“A poesia sempre foi escrita para leitores que têm o código de leitura. E esse, aprende-se na fase escolar. Tanto aqui como na Europa e nos Estados Unidos. A Coleção Melhores Poemas já vendeu mais de um milhão e quinhentos mil exemplares, nestes 25 anos de vida. Dizer que brasileiros não lêem poesia é temerário. Os inteligentes lêem. Há uns três anos escrevi o roteiro – Primeira pessoa – para Eva Wilma, cheio de poemas. Ela era aplaudida de pé.”
(em entrevista para William Costa, para o jornal O Norte, de João Pessoa, em 29 de junho de 2009)

POEMA DE GIORGOS SEFÉRIS

Sinto muito ter deixado um largo rio passar
entre meus dedos
sem beber uma só gota.
Agora eu me afundo na pedra.
Um pinheirinho sobre o chão vermelho,
não tenho nenhuma outra companhia.
O que eu amava perdeu-se com as casas:
eram novas ainda no verão passado
e desabaram com o vento do outono.

(poema XVIII de Estória Mítica, tradução de José Paulo Paes. Giorgos Seréris, poeta grego, nascido em 1900 e falecido em 1971. Ganhou o Nobel de Literatura em 1963)

4 comentários:

Samelly Xavier disse...

nunca mais passei por aqui... imagino que você está morrendo de saudades das minhas palavras-chaves-abrem-portas, rs. mas a culpa é sua que desde que eu mudei de morada, só foi lá pra dizer que tava enfeitada demais...rs

beijo recitado, moçinho

Moacy Cirne disse...

Pelo visto, o seu próximo livro promete. E muito. E há um poema seu no Balaio. É o segu do que publico, em pouco tempo.

Abraços.

Batom e poesias disse...

"Palavras são lâminas... Escrever poemas é não temer os abismos!"

Texto destacado por conta da identificação imediata.

Não sei se um poeta consegue viver apenas de poesia, mas eu sempre compro livros de poemas e também os ganho. Presentes preciosos.
Seja de poetas antigos e/ou contemporâneos, vivos, mortos, qualquer nacionalidade... Conforme meu coração se encanta ao folheá-los nas livrarias.
O último que comprei foi: "Nenhuma poesia é inocente" de Enio Mainardi. Estou gostando.

Saudades daqui e de suas visitas na minha casinha

bjs Lau
Rossana

PÉ DE PITANGA disse...

Caro colega de poesia,
Vim visitar sua casa, e amei!
Parabéns...