a natureza do espetáculo

)


amarelas
eram as flores do ipê

esparramadas nos galhos
e no palmo de asfalto
antes do chão

pétalas e mais pétalas
falando ao meu silêncio
a p r e s s a d o


exalando o indomável
escândalo da beleza


(lau siqueira – poema vermelho pintado de verde)

MONTEIRO LOBATO
Considerado reacionário por alguns, Monteiro Lobato sempre teve a minha admiração. Muito pela sua literatura, mas, também pela ousadia de intervir na cadeia produtiva do livro. Na sua literatura, destaco um livro pouco conhecido: “O Presidente Negro”. Neste livro Lobato já previa (em 1937, se não estou enganado) a eleição de um presidente negro nos Estados Unidos. O protagonista venceria uma disputa onde os favoritos eram um homem e uma mulher. Tal e qual se deu na última disputa pela chave da Casa Branca. Obama venceu uma mulher branca e depois um homem branco. No mesmo livro, o pai do Jeca Tatu anunciava a comunicação por transmissão de dados, algo muito semelhante ao que hoje é a internet.


AINDA MONTEIRO LOBATO
Agora leio na CULT que em 1918 Lobato escreveu uma carta aos comerciantes brasileiros, perguntando se queriam vender “uma coisa chamada livro”. Na época, existiam apenas 30 livrarias no país. A maioria, pra variar, no eixo Rio/Sampa. O escritor conseguiu a adesão de donos de bancas de revista, mercearias, farmácias e papelarias. Assim ele conseguiu constituir uma rede com quase dois mil distribuidores em todo o Brasil. A CULT afirma que foi uma façanha para a época. Eu tenho certeza que ainda hoje seria. A atitude de Lobato seria, segundo a revista, o prenúncio de um fenômeno dos dias atuais: a venda de livros no supermercado. Na verdade, Lobato detonou com o mito do escritor-empreendedor. Ainda hoje a distribuição é a maior dureza para a imensa maioria dos escritores. Principalmente para os que estão fora do eixo das grandes editoras e distribuidoras.

NO PORTOPOESIA2
Em outubro passado estive participando do PortoPoesia2, em Porto Alegre. Foi um verdadeiro resgate da minha cidadania poética, já que certa vez tive poema publicado na revista Blau, como "poeta páraibano". Foi um prazer enorme me aproximar fisicamente dos poetas da minha terra. Na ocasião, falei um pouco sobre as necessidades do escritor ser, também, um empreendedor. Afinal, somos o ponto de partida na cadeia produtiva do livro. Houve alguma reação dos poetas da platéia. Alguém chegou a dizer que a tarefa do poeta se esgotava no suado exercício da palavra. Nunca acreditei muito nisso. Sempre tive que batalhar pelos meus livros. Nunca tive patrocínio de nada nem de ninguém. Nunca tive uma editora preocupada em organizar meus rabiscos. Se não vendo, além do vexame de ver no canto da parede as caixas com os livros encalhados, preciso abrigar o prejuízo. Não tenho tido muito tempo para me dedicar ao ofício, mas meu livro tem percorrido outros espaços distantes das livrarias. Recentemente, por exemplo, vendi bem num stand do SEBRAE, durante o Festival de Cinema de Língua Portuguesa (IV CINEPORT). O ponto principal das vendas, entretanto, é aqui no blog. Lobato nos ensinou que é preciso inventar caminhos. "Caminhos não há/ mas os pés na grama/ os inventarão", como já escreveu Ferreira Gullar. Essa discussão me interessa!

TRIBUTO AO MAESTRO VILÔ
Na sexta à tarde estive numa mesa debatendo sobre o carnaval da cidade. Um debate bastante produtivo e contundente que resultou em um texto, a pedido dos organizadores, que já está publicado no blog Pele Sem Pele. O maestro Vilô foi uma referência enorme para o carnaval na terra natal de Ariano Suassuna. Confira o texto!

NALDIMARA
A visitante de número dez mil foi Naldimara, uma bela e querida amiga residente aqui mesmo em João Pessoa. Ela já possuía o livro. Ganhou o direito, pois, de escolher a quem presentear com o seu segundo exemplar. A cada mil visitas, a partir de agora, vou conceder um livro, caso o visitante se identifique e solicite.

UM POEMA DE VANILDO BRITO

Um pedaço de céu lavado de chuva,
a rua imensa a se perder de vista,
as imaginações acesas -
e uma alegria de brincar com a vida
como se ela fosse
uma grande ciranda colorida.

(poeta paraibano, um dos expoentes da chamada geração 59. Poema extraído do livro Poesia Selecta Seleta Carmina, que reúne as obras completas de Vanildo Brito. Edições Linha D'água, do amigo Heitor Cabral)

Comentários

líria porto disse…
caro poeta
encantam-me os ipês - então, envio-te um poema antigo e miudinho:

amarelo
líria porto

ao subir a minha serra
pergunto ao ipê
: por que sóis?

*

gosto dos teus versos, da tua escrita!
besos
Mirse disse…
Lindo poema, Lau!

Como todos que cria! Mas esse me tocou de uma forma especial, não sei porque...ainda.

As premonições de Monteiro Lobato são famosas. Pelo menos quando o soube me tranquilizei em relação às minhas.

Realmente, há de se inventar meios para percorrer caminhos. No caso de livros e discos também. Lobão conseguiu se livrar da pirataria e dos absurdos que as distribuidoras cobravam.

É preciso muita fé e coragem.
Como adoro seu livro e faço propaganda mesmo, faço também votos que consiga outros meios de reconhecimento, além do blog.

Um forte abraço

Mirse
BAR DO BARDO disse…
apesar de algumas teorias que nos falam acerca da dessacralização dos objetos d'arte e da morte do autor... nada mais vivo e sacro que a vaidade literária. lau, suspeito que bem poucos literatos se dão ao trabalho de divulgar seus escritos - isso seria "obrigação" da crítica literária e do jornalismo cultural - caso existissem. e quantos fariam feira (sem conotação depreciativa) de suas "obras-primas"...

lau, isso é papo de moréia ensaboada...

no mais, eu digo SIM!
Mari Amorim disse…
Segue um trecho da petição:

“Um projeto de Lei do Senado brasileiro quer bloquear as práticas criativas e atacar a Internet, enrijecendo todas as convenções do direito autoral. O Substitutivo do Senador Eduardo Azeredo quer bloquear o uso de redes P2P, quer liquidar com o avanço das redes de conexão abertas (Wi-Fi) e quer exigir que todos os provedores de acesso à Internet se tornem delatores de seus usuários, colocando cada um como provável criminoso. É o reino da suspeita, do medo e da quebra da neutralidade da rede. Caso o projeto Substitutivo do Senador Azeredo seja aprovado, milhares de internautas serão transformados, de um dia para outro, em criminosos. Dezenas de atividades criativas serão consideradas criminosas pelo artigo 285-B do projeto em questão. Esse projeto é uma séria ameaça à diversidade da rede, às possibilidades recombinantes, além de instaurar o medo e a vigilância.”
Isso é sério,abracei esta causa,abrace tb...
seu comentário é importante sua assinatura também
boas energias,
Um poemínimo do ipê para você:

Pássaros pingam mel.
Cálices de flores
gritam no alto dos ipês.

Abraços.
Batom e poesias disse…
Menino, você precisa escreve seus post separados, pois não é que gostaria de comentar um a um?
Sobre o poema lindo do início, sobre "pai do Jeca Tatu", aqui de Taubaté(cidade vizinha), e ainda sobre as dificuldades do poeta/escritor estender suas atividades além do suado exercício das palavras para publicar os próprios escritos...

Como Monteiro Lobato, preciso inventar caminhos para trocar idéias com você.

Por enquanto deixo um beijo
Rossana
leonorcordeiro disse…
Querido Lau,

Acabei de escolher o seu blog para receber o selinho “Vale a pena acompanhar este blog!”.
Escolhi 15 blogs que distribuem poesia pela blogosfera.
O meu desejo é que os meus visitantes comecem a acompanhar o seu blog para serem presenteados diariamente com os seus versos.

Grande abraço!
Com carinho,

Leonor Cordeiro
Flávia Muniz disse…
Oi Lau!

Esse poema parece meus olhos!


bj
adelaide amorim disse…
Lau, ando com saudade daqui e de você. Este post está particularmente muito bom, obrigada por ele, pelos ipês e tudo mais. Um beijo.
Marco Aqueiva disse…
caro Lau:

Como um grilo que perde
seu canto comendo o do(s) outro(s)

depois de reler seu Texto Sentido, retorno aqui à Poesia Sim para parabenizá-lo:
muito me apraz seu trabalho:)

Publiquei ontem outro poema seu no Valise. E desejo publicar outros poemas críticos seus ao poema/poesia/poeta.
Bem sei que já me autorizou fazê-lo; porém, se não for pedir demais, será que o amigo poderia selecionar-me uns dois ou três enviando-me em word por e-mail?

É que a correria é grande; e assim facilitaria a publicação...

Um grande abraço,
M.
: A Letreira disse…
Lau, sêo minino. Tô aqui sisperando (esperando desesperadamente) meu livro! Abs. Sônia, a Letreira. Ei, ter neta é tudo de bom heim ? Eu era a neta querida da minha vó... ai que delícia!
nina rizzi disse…
tudo lindo, poeta. ex-certos e poema. adoro ypês. na minha terra tem ypês onde os sabiás se arre-voam e cantam.

e me fez lembrar outro, da mesma líria (eu, a vaidosa)

poema para nina rizzi
líria porto

o ipê estava seco
mas num de seus galhos
havia flores

pensei
deus não abandona as árvores

que deus?

talvez um que ria das dores
e chore cores lindas

*

beijo.

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