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domingo, 14 de junho de 2009

RAZÃO NENHUMA


o que escrevo
é apenas parte
do que sinto

a outra parte
finjo que minto
e acredito

(poema do meu terceiro livro, Sem meias palavras, Ed. Idéia-PB, 2002)

MÁRCIA TIBURI
Logicamente que vou pinçar aqui um fato isolado num artigo da professora Márcia Tiburi (Cult 133), onde ela aborda o conceito de instalação e outros babados da arte. Portanto, sem precipitações além das minhas próprias, ok? Márcia sentiu necessidade de escrever o artigo após ser inquirida por uma jovem aluna universitária de Santa Catarina, durante uma palestra. A menina queria saber que danado era a tal da instalação. Márcia percebeu, então, o quanto ainda é preciso começar do zero. O que me deixa perplexo, entretanto, não é a pergunta da aluna. Mesmo que seja considerada ingênua ou desinformada. O que me deixa perplexo é o silêncio dos demais. Principalmente dos que tinham certeza que sabiam o que era uma instalação.

EDUCAÇÃO E REFORMAS
Ainda hoje há uma predominância professoral, corporativista e conservadora sobre as políticas para a educação em nosso país. Talvez tenha sido mesmo um avanço a determinação de garantir um percentual (25%) para as escolas. No entanto, a Educação não pode nem deve ser tratada apenas no âmbito escolar. Uma revolução na Educação Brasileira passaria por muitas estradas. Uma delas iria certamente rever as concessões de rádio e TV que em sua imensa maioria derrubam qualquer tentativa de implementação de uma mentalidade produtiva em nossos jovens.

POETAS DE HOJE EM DIA(ANTE)
Recebi um presente carinhoso da poeta Priscila Lopes, a antologia organizada por ela e por Alice Gallina. Mais uma boa tentativa de desvendar o universo poético brasileiro. Como diz Jayro Schmidt na quarta capa do livro, se trata de um trabalho que representa “um recorte e todo um panorama que, por sua vez, compõe camadas de semas e semantemas agrupados por estratégias poéticas que vão do discurso mais ou menos coloquial à visualidade do poema.” Além de Aline e Priscila, amigos como Ronaldo Werneck, Estrela Ruiz Leminski, Wilson Guanais e Marcelo Sahea fazem parte da antologia. Os demais, confesso, não conhecia. O que revela a importância de um trabalho assim para divulgar os novos poetas. Salve, salve, Pri!

UM POEMA DA ANTOLOGIA

sou poeta
de um poema
inacabado

: ainda
espero
o inesperado

(destaco na antologia este poema de Wilson Guanais. Numa rápida vista d’olhos, pude observar outros bons poemas da ousada investida de Priscila e Aline)

EU TENHO APRENDIDO COM O SILÊNCIO
Durante o nosso dia encontramos alguns tipos de silêncio. O silêncio terno e o silêncio taciturno. O silêncio terno flutua pelos corredores, sem medo do abraço. O silêncio taciturno refugia-se numa espécie de couraça. E se revela múltiplo. Existem tristezas que se arrastam para a gosma cinzenta da injúria. E o silêncio somente incomoda na fala de quem não pensa.

UM TEXTO DE FLÁVIA MUNIZ
“Menos silêncio houvesse e seria a culminância da obra. Mas não: são as voltas. Como me tornar mais humana? Como provocar as chamas incisivas da fala? O amor é mais largo que a morte. O tempo não dissolve palavras escritas em cartas. Por isso escrevo, para fazer do tempo uma espécie de abraço enorme. O conforto é usar vírgulas no lugar de ausências. O corpo sabe dos lugares das páginas. Quando foi que nossas letras entrelaçaram os pés? Sempre sei a próxima frase, mesmo quando a boca é outro nome, e o nome a presença aguda da falta. Não é poesia o que escrevo e me permaneces a alargar as ruas, as vias, as praças. Porvir é pássaro livre. Voar é epifania. Na imaginação o amor acende o sol, a distância o desejo. Querer perto e beijo é oásis no deserto? O rio da vida deságua em mar aberto... O ponto final não aprisiona o tempo da história. Papel e pele guardam a memória do imponderável. As linhas não contém a língua. A língua escreve em papel-corpo o pergaminho do fogo.”
(publico aqui de forma privilegiada o texto de Flávia)

UM POEMA EMBLEMÁTICO DE JOSÉ PAULO PAES


a poesia está morta

mas juro que não fui

eu eu até que tentei fazer o melhor que podia para salvá-la

imitei diligentemente augusto dos anjos paulo torres
carlos drummond de andrade manuel bandeira
murilo mendes vladimir maiakovski joão cabral de
melo neto paul éluard oswald de andrade guillaume
apollinaire sosísgenes costa bertold brecht augusto
de campos

não adiantou nada

em desespero de causa cheguei a imitar um certo (ou
incerto) josé paulo paes poeta de ribeirãozinho
estrada de ferro araraquarense

porém ribeirãozinho mudou de nome a estrada
de ferro arraquarense foi extinta e josé paulo paes
parece nunca ter existido

nem eu

(Acima de qualquer suspeita, poema de José Paulo Paes, colhido na revista ETCétara, Literatura & Arte, número Zero)

10 comentários:

Batom e poesias disse...

É muita coisa boa ao mesmo tempo.
Eu me afogo feliz em tanta poesia...

Bjs
Rossana

Franklin Maciel disse...

Gostei muito do seu blog, seguirei daqui por diante

Qdo puder, dê uma conferida no meu, gostaria muito de conhecer sua opinião
Grande abraço

www.franklinmaciel.blogspot.com

Franklin Maciel disse...

Gostei muito do seu blog, seguirei daqui por diante

Qdo puder, dê uma conferida no meu, gostaria muito de conhecer sua opinião
Grande abraço

www.franklinmaciel.blogspot.com

Priscila Lopes disse...

Lau, agradeço pela atenção aqui no blog. Espero que aprecie a leitura da coletânea.

Sobre à Marcia Tiburi - que esteve aqui em Floripa, sim, mas infelizmente eu estava trabalhando e não pude participar do debate. Não que concorde absolutamente com ela, mas sua personalidade forte, sua inteligência e argumentação são enriquecedoras em qualquer discussão ou Saia Justa.

E sim, há muitas questões no Brasil que ainda têm de ser retomadas do zero, principalmente quando o assunto é Arte.

Outro dia, em meu trabalho, perguntaram o que estou lendo; respondi que se trata de um livro de ensaios: ninguém sabia o que significava isso, nem tenho certeza se agora sabem, e se sabendo, será que compreenderam por que alguém se interessa por "ensaio"?

Enfim, era só mais uma "pontinha" que queria acrescentar.

Um abraço!

A Gata por um Fio disse...

" (...)
escrevo
apenas
(...)
que sinto "

: todas as razões para gostar
da tua poesia!

Mirse disse...

Perfeito, Lau!

Tanto a parte que escreve, quanto a que finge que mente e acredita!

O poema de José Paulo Paes está maravilhoso!

Ontem li uma entrevista da Márcia sobre filosofia. Mas o estarrecedor, é isso que você tocou. O silêncio, embora sabido.

Cenas de cotidiano, onde se vê alguém no chão estendido, ou passando mal e ninguém faz nada. Medo? Ou será o admirável e horrendo mundo novo que estamos.

Parabéns, Lau!

Beijos

Mirse

BAR DO BARDO disse...

a flavinha deu um golpe muito alto!

parabéns!

poesia, eu digo sim!

lau siqueira disse...

E tu conheces a Flavinha, Pimenta? Mirse, sempre me alegra sua presença carinhosa. Por um fio? Fio-me! Pri, mas que danado é ensario? rsrsrsrs Vou lá sim, Franklin... rossana, quem se afoga sou eu... rsrsrs

Michelle Crístal disse...

Existem tristezas que se arrastam para a gosma cinzenta da injúria. E o silêncio somente incomoda na fala de quem não pensa.
Me silenciei e não me incomodei
Belo Trabalho

Isabella Nucci disse...

sua poesia me fez lembrar de um poema do glorioso Fernando Pessoa:
"O poeta é um fingidor,
Finge tão completamente que chega a fingir que é dor,
A dor que deveras sente."
Seu blog é como uma caixinha de surpresas, sempre que entro nele, fico encantada com as coisas que leio e releio. Sucesso!!