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quinta-feira, 16 de julho de 2009

armagedom


árido
mas ainda é um rio
sumido na sobrevida
dos juncos
golpeados
pela água pouca

na batalha final do
leito com a margem


(lau siqueira – poemas vermelhos)

A NOVA POÉTICA DO BANDEIRA
O poeta Manuel Bandeira representou a simplicidade do rigor. Ou quem sabe o rigor da simplicidade. Com poemas, ele determinou alguns universos da compreensão poética. Um desses poemas foi “Nova Poética”. Um poema que é, na verdade, uma teoria. Um artesanato que propõe conceitos e determina prazos de validade para si próprio. Então... Leia o poema “Nova Poética”, do grande Manuel Bandeira! Uma contestação, uma ruptura com a poesia distante da vida que era feita naquela época (1949). Um grito consciente, honesto e lúcido para os poetas do seu tempo.

“Vou lançar a teoria do poeta sórdido.
Poeta sórdido:
Aquele em cuja poesia há a marca suja da vida.
Vai um sujeito.
Sai um sujeito de casa com a roupa de brim branco
[bem engomada,
[e na primeira esquina passa um caminhão
[salpica-lhe o paletó de uma nódoa de lama:
É a vida.

O poema deve ser como a nódoa no brim:
Fazer o leitor satisfeito de si dar o desespero.

Sei que a poesia é também orvalho.
Mas este fica para as menininhas, as estrelas alfas,
[virgens
cem por cento e as amadas que envelheceram sem [maldade.

(o poema é “Nova Poética”, do grande poeta brasileiro Manuel Bandeira. Extraído do livro Análise e Interpretação de Poesia, da coleção Margens do Texto, da Editora Scipione. Organizado por José de Nicola e Ulisses Infante.)

POESIA VIVA
A poesia nos ensina a descobrir a covardia colhida nas patas do divino. Largas estampas de significações que nada representam a não ser a própria linguagem e seus movimentos naturais (apesar de nem sempre aceitos). Um oco onde cabe sim a pesquisa. No entanto, jamais o preconceito estético amparado em teses pra boi dormir. A ética do poema é a eterna busca. O olho cravado no imperceptível, no acaso, no que nada representa num mundo de palavras amestradas. A poesia não é uma musa partida ao meio, encandeada pelo desejo de um poema seco como um mar morto.

POESIA HÍBRIDA
Não são poucos os que rastilham de agonia o passado, a história sobre a qual construímos a própria história da literatura viva de Língua Portuguesa. Considerando aí que poesia escrita seja mesmo um gênero literário. Salvo uma ou outra tese inflamada de vanguardas passadas, uma vez escrita... Espaço-tempo onde poetas e pensadores da palavra construíram referencias históricos inquestionáveis. Como a Poesia Concreta. Como a permanente investigação estética e experimentação com a linguagem, enquanto princípio e enquanto processo.

DANDO BANDEIRA
A tese de Bandeira dá conta de uma poesia enraizada no palpável. Na verdade, no átomo do significado. Um poema cuspido na parede. Sem palavras, sem cores, sem saliva. Sem nada! Apenas um poema ou a sede dele. Esta é a Nova Poética que continua dando bandeira. De tão densas as suas razões, até hoje impera. A poesia como agulhas arrancadas da pele, desafogando os vasos sanguíneos do poema. E sobretudo a palavra como tema. Afinal, para o poeta nada existe de mais real que a palavra. Nada mais cru. Nada mais sublime, nada mais ácido... Coisa que pluma e afunda: com o movimento das asas, com o peso das juntas...

CONTÍCULO
Ouvia sempre Pink Floyd – “Wish You Were Here”. Não suportava meias verdades, meias palavras, meias metades. Dizem que morreu sem perceber que ainda estava vivo.

JANELA CULTURAL
Mais um bom veículo para a cultura nordestina dialogar com o mundo - muito especialmente a paraibana. O site Janela Cultural, idealizado e editado por Elinaldo Rodrigues traz sempre as novidades de uma terra que respira cultura. Elinaldo é um dos empreendedores da área cultural em João Pessoa que merece todo o nosso respeito. É um jornalista ético. Tem credibilidade na praça.

POEMA DE
VALÉRIA TARELHO


da próxima vez
que o amor bater
em minha porta
atenderei

armada de cautela
usando colete
a prova de balelas

(autodefesa, poema de Valéria Tarelho, que em agosto deixa de ser inédita em livro, publicando o belo Sol a Cio)

Um comentário:

Luciana Marinho disse...

que gostoso reler esse poema de bandeira... uma louvação à poesia das "impurezas do branco" (drummond). e me arrancou risos, a valéria tarelho.

boa quinta, lau!
bjos