domingo, 5 de julho de 2009

cordas vocais



a garganta é uma represa
de tudo que não pode ser dito

sumidouro de palavras que
percorrem na boca o véu dos
resumos infinitos


permanência do assombro
no espelho orvalhado
das manhãs

(lau siqueira – poemas vermelhos)

A POESIA DOS GRANDES PROSADORES
Estive lendo um artigo de Rodrigo Petrônio sobre a poesia de Jorge Luiz Borges. No texto eram apontados os altos e baixos do autor de obras emblemáticas em prosa, como a História Universal da Infâmia. Conheço pouco a poesia de Borges. Mas, o livro O Elogio das Sombras poucas vezes retiro da estante para as necessárias releituras de um poeta. Penso que a grande poesia de Borges está exatamente na sua magnífica prosa e nos seus ensaios. Esse Ofício do Verso, por exemplo, é um dos meus livros de cabeceira. O mesmo ocorre com Machado de Assis, prosador genial e poeta que também mantenho delicadamente dormindo na estante. A poesia precisa provocar permanentemente o leitor. Sou do tipo de leitor que precisa conversar com os livros: para ouvir e ser ouvido.

A PEDAGOGIA DO POEMA
Dificilmente lemos duas, três, cinco vezes um romance ou mesmo um conto. Com o poema não acontece o mesmo. Há poemas que leio há muito e desde sempre. Há poetas que são como se estivessem sempre nos chamando pra conversar, através dos seus livros de poemas. Como Rilke, Bandeira, Pessoa, Kaváfis, Maiakovski, Carlos Pena Filho, Hopkins, Drummond e tantos. A poesia nos ensina a recomeçar permanentemente. Apreender e aprender, sempre. Até que tudo se dissolva no bar. Digo: no ar.

AS PEQUENAS GRANDES DISTÂNCIAS
A literatura moderna vem sendo construída em cima de referenciais interessantes. Parece-me que já comentei por aqui, mas vou repetir. Em outubro passado estive participando do PortoPoesia2 em Porto Alegre. Fiquei para além da minha mesa, assistindo as palestras e os debates seguintes. Uma das falas que muito me chamou a atenção foi a de José Eduardo Degrazia, afirmando que tinha como referencial de mini-conto, as prosas poéticas de Baudelaire.

POESIA SUPERIOR POESIA INTERIOR

Dia desses, relendo os conceitos disparados por um poeta-ensaísta no prefácio de uma conhecida antologia, fiquei pensando acerca das suas argumentações para estabelecer as diferenças e justificar suas opções. Claramente o “mano-poeta” estabelecia distâncias nas suas observações. Amparava as suas análises nas prováveis origens literárias de cada um e não no osso duro de cada poema. Pose de academia. Argh!

RELEITURAS
Claro que existem formas e formas de leitura e releitura. Por exemplo, tempos atrás estive papeando pelo MSN com a poeta chilena Patrícia Cabezas. Tentei traduzi-la para o português. Na verdade, amparado pela idéia de tradução enquanto modo de reler uma obra e dar a ela um contorno aproximado com a cultura da língua em questão e mesmo com alguns elementos da nossa própria capacidade de criar. Traduzir poemas é um desafio interessante demais para a minha incompetência. Quanto à Patrícia Cabezas, sei pouco a respeito. Sei que é advogada e que foi uma das vítimas da brutalidade do regime do ditador Pinochet. E sei, também, que escreve poemas e nunca publicou um livro.

Soledad

Estoy tan sola,
Que casi no me siento.
Mi cuerpo es imperceptible
Ni siquiera la soledad me carcome los huesos
Porque ya no me siento
Y.. entre el sueño y la vigilia
Con esta liviandad de cuerpo
Tal vez hay nada

Sólo silencio


Silêncio

Estou tão só
Que quase não me sinto
Meu corpo está imperceptível
Nem mesmo a solidão corrói meus ossos
Porque já não me sinto
E... entre o sonho e a insônia
Com esta leveza no corpo
Talvez eu não seja nada

Só o silêncio

(Poema ainda inédito de Patrícia Cabezas, do Chile, colhido e traduzido por mim, num papo do MSN)

2 comentários:

Flávia Muniz disse...

Lau!

vim aqui!
bj

Anônimo disse...

Olá, queria convidar toda a gente a visitar a visitar o meu blogue de prosa-poética: http://ocantodoescrevinhador.blogspot.com/.Obrigado. Aguardo a vossa visita.Abraço.