sábado, 22 de agosto de 2009

fagulhas





impulsão dos corpos
que descem e sobem
no coletivo

(pausa)

de tão ausente
quase não vi o rosto

(pausa)

rigor antigo
face e rugas
do invisível

(pausa)

com suas mãos
caminhantes

(pausa)

alinhavo do infinito

(pausa)

bico ferino
realidade ponteaguda

(pausa)

como uma agulha
espetando a memória
de um silêncio absoluto


(lau siqueira – poema vermelho)

POESIA É RISCO
A revista CultPB (
www.cultpb.com) só tem um defeito: demora demais a carregar as páginas, nas mãos da placa avó do PC do Besta aqui. Mas, têm várias grandes vantagens. Uma delas é a sensibilidade aliada ao profissionalismo de Érica Chianca e Taísa Dantas. Uma revista virtual de qualidade, com uma puta duma vocação para ser impressa e bombar geral. Em uma das suas últimas edições, fui convidado a misturar meu trabalho com os desenhos de uma jovem artista. Foi assim que conheci Luyse Costa, estudante de História na UFPB, 22 anos, com a qual estou reincidindo na proposta da Érica e da Taísa, com a criação do blog “Poesia é Risco”.

POESIA É RISCO I
Luyse fez a gentileza de comparecer ao sarau organizado pela atriz Suzy Lopes, no projeto Café em Verso & Prosa. E logo foi surgindo a idéia de darmos prosseguimento ao que nos foi sugerido. Então fizemos uma primeira experiência a partir de um papo virtual e nos surpreendemos com a repercussão entre os amigos e até mesmo entre pessoas do “muído” e do miado. Assim, decidimos organizar a produção para o projeto não virar um bordel de ocasiões. Vamos publicar poema e desenho todo sábado. E principalmente sentir o gosto da coisa, do eterno desafiar-se em busca do melhor resultado. Um pouco de disciplina nunca danificou a anarquia de ninguém. Já pensamos no próximo tema. Neste, abordamos um ancião que ela viu no terminal integração, vendendo agulhas.

COLETIVOS DE ARTISTAS
Uma das boas novas do pensamento estético neste início de século é o fato real do surgimento de coletivos artísticos. Ou seja: a definição do processo criativo como ato partilhado, ao mesmo tempo em que se processa o abandono das vaidades inúteis e a progressiva supressão do ego. A partir do momento em que a criação se solidifica como uma ação coletiva, as coisas ficam mais próximas de uma possibilidade real da transgressão, da necessária reinvenção dos sentidos no que há de mais sólido do artista: o que se desmancha no ar.

POEMA DE SYLVIA PLATH

Sou prateado e exato. Não tenho preconceitos.
Tudo que vejo engulo no mesmo momento
Do jeito que é, sem manchas de amor ou desprezo.
Não sou cruel, apenas verdadeiro---
O olho de um pequeno deus, com quatro cantos.
O tempo todo medito do outro lado da parede.
Cor-de-rosa, malhada. Há tanto tempo olho para ele
Que acho que faz parte do meu coração. Mas ele falha.
Escuridão e faces no separam mais e mais.

Sou um lago, agora. Uma mulher se debruça sobre mim.
Buscando em minhas margens sua imagem verdadeira.
Então olha aquelas mentirosas, as velas ou a lua.
Vejo suas costas, e reflito fielmente.
Me retribui com lágrimas e acenos.
Sou importante para ela. Ela vai e vem.
A cada manhã seu rosto repõe a escuridão.
Ela afogou uma menina em mim, e em mim uma velha
Emerge em sua direção, dia a dia, como um peixe terrível.

(Espelho, de Sylvia Plath – tradução de Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça. Edição da Iluminuras: Poemas.)

3 comentários:

Erica Maria disse...

fagulhas. prova de que vc vê, ouve e sente o cotidiano.

te adoro gigantescamente!

Nani disse...

pai, sao lindos os desenhos que ela faz! vi agora do velhinho que vende agulhas, é a mesma poesia que botou nesse post, ne? 'como uma agulha espetando a memoria de um silencio absoluto' =)

Papagaio Mudo disse...

Olá,

gostei muito do design do seu livro, o primeiro no sidebar. Não que eu não aprecie o conteúdo. Me agradou essa Fagulha e arrefeceu.
Abraços,

Gustavo