quinta-feira, 6 de agosto de 2009

as flores mallarmaicas

queria
num poema
oferecer flores
um jeito lógico
de não arrancá-las
placidez silvestre

! como as flores
da adivinha mallarmaica
“que nunca estão no buquê”
e cujo aroma experimentamos
nas planícies viageiras
do significado
a palavra pétala
entre húmus e caules de linguagem
embriagando a dor extraída
deste pólen com o qual enlouqueço
as abelhas africanas
do esquecimento

mas tudo que tenho
são essas mãos vazias e uma
paixão petrarquiana
de insuportável hálito
modernista
(poema do meu terceiro livro, Sem meias palavras - ls)
MEIOS SEM ARRODEIOS
Luciana Marinho mora em Recife e é professora universitária. Talvez nem tenha ainda avaliado o peso do seu próprio texto. Escreve com a mesma sensibilidade com que captura imagens quando seu instrumento não é a palavra, mas a fotografia. Então, revela-se uma fotógrafa atenta ao temporal e ao eterno das coisas. O fato é que ela escreve como quem fotografa. Aproxima os sentidos do intelecto no imaginário do leitor. Estabelece uma relação direta e de absoluta sinceridade entre a linguagem poética propriamente dita e as suas frações e vertentes. Coisas da conjugação necessária entre tradição e modernidade. Linguagens e olhares para muito além do contido. Assim é o texto de Luciana Marinho.

POEMA DE LUCIANA MARINHO

“Sentava-se no mar até seu vestido crescer
como crescem as papoulas vistas num rio.
Sentia os plânctons dourarem seu ventre.
Seu ventre como pedra ancorada
desejando chuvas.
Sentia-se embebida no sargaço
no cheiro intolerável das coisas restando.
Quanto mais a brisa vinha
mais descia seu corpode mil tentáculos nascendo
e se afogava.”

FOI NO ORKUT
Foi no orkut que descobri o poema acima. Como instrumentos de interatividade poética, Orkut e blog talvez sejam os principais vetores deste início de século. A tecnologia fez uma revolução reversa. Algo fora do controle das mentes que pensaram apenas as ferramentas. Nos parece que a internet é, inegavelmente, o mais importante meio de fusão e difusão da boa poesia contemporânea no planeta. Apesar de coisas horríveis proliferarem de forma assustadora. No meio de tudo é possível garimpar textos absolutos, como os de Lu, textos de um lirismo que ao mesmo tempo converte e transgride.
,.
“Há sempre alguém que não vemos nos doando flores. Este pensamento trouxe o infinito para o peito dela e um deixar-se ali onde o humano cresce livre da morte do silêncio. Da morte da partilha. Da morte da solidão. Ela aninha-se na palma da mão da humanidade. O sagrado move-se em suas artérias como nos olhos dos apartados, dos feridos, dos sem céu. Ela aninha-se na respiração profunda das árvores. Caminha junto ao martírio dos cravos. Atravessa os inquebrantáveis em suas verdades. Atravessa os tolerantes entre iguais. Atravessa os catalogadores de seres. Descansa onde o bico do pássaro recolhe a seiva. E flores.”
(Mundos Invisíveis, por Luciana Marinho)

A BOA LITERATURA É A QUE EXTRAPOLA
Já contei por aqui de uma palestra do José Eduardo Degrazia, no PortoPoesia2, onde ele palestrava sobre a origem do mini-conto. Segundo Degrazia, tudo começou com as prosas poéticas de Baudelaire. Uma tese para, no mínimo, merecer a nossa maior atenção ao nos depararmos com textos como estes de Luciana Marinho, transcrito acima. Ela nos mostra que a boa literatura nem sempre está nos livros e muito menos nos meios políticos que dilapidam a boa literatura, independente de rótulos e missangas. Quais são as nossas fronteiras no processo da criação?

LUCIANA MARINHO
Visite o blog abandonado de Luciana Marinho. Certamente você encontrará um mundo muito mais rico do que eu poderia descrever e uma literatura feita de delicadezas e certezas incertas.
Conforme escrevi no prefácio do livro de estréia de Valéria Tarelho, a literatura contemporânea se alimenta dela mesma.

7 comentários:

Luciana Marinho disse...

fico feliz ao me conhecer por meio de tuas palavras e de um olhar em que a poesia nasce livre. obrigrada, lau! beijo. beijo.

Analuka disse...

Querido Lau de alma lunar, é com imenso prazer que encontro aqui em teu blog esta linda e merecida homenagem à poesia de Luciana Marinho, esta pessoa delicada e extremamente sensível. Também conheci Lu e sua poesia através do orkut, que, como dizes, é um meio capaz de proporcinar boas possibilidades de encontros, trocas, descobertas... (apesar de seu uso menos sábio por alguns que usam as ferramentas contemporâneas para disseminar coisas menos benignas do que a poesia, a arte, o amor...). A escrita de Luciana é algo de uma leveza e luminosidade, de uma suavidade densa, de um encantamento tocante, de um mistério pulsante que embriaga!... Suas letras, palavras, imagens e sentidos traduzem a linguagem e pulsação, os matizes e delicadezas de uma alma sensível e interessada em olhar o mundo com olhos aguçados, atentos, apaixonados e por vezes melancólicos, mas, sempre, sedentos de seiva, de sentido e sabor!
ABraços alados a ambos, meus queridos amigos Lau e Luciana, almas tão belas e poéticas!

Herculano Neto disse...

Saudações poéticas!

Fafá disse...

...a Lú é mágica, em todos os sentidos...ela brinca, ela saracoteia, ela faz poesia, ela ensina, ela faz amizade, apaixona e nos deixa apaixonados por ela...essa é a Lululinda...a doce Lú...bjo bjo bjo

Waldicleidy disse...

A vida me apresentou a doce Lu...
Divisão de águas em minha vida,
Ela é o que escreve e fotografa,
beleza encantamento...Poesia!!!
Minha eterna professora...

Preta disse...

Por onde Lu passa... Flores nescem!

Ane disse...

Lu exala lirismo...