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segunda-feira, 7 de setembro de 2009

paradigma



a vida é um eterno
ir embora

costura de
instantes diluídos
na eternidade

tempo de retornos
irreparáveis

e encontros
irreconciliáveis


(poema vermelho – lau siqueira)

POETA MARGINAL
Era início de noite, num desses dias passados. Estava eu no Espaço Mundo, Centro Histórico de João Pessoa, conversando com um conhecido. De repente chega um cidadão grisalho, magro, falante, vendendo seus folhetos de poesia. Era o poeta Valter di Lascio. Paulistano do Bexiga (no momento paraibano da bixiga lixa) que sumiu de casa e nunca mas voltou.

POETA MARGINAL I
Bem... é certo que os poetas marginais ainda resistem. Apesar de alguns serem muito chatos e esteticamente péssimos. Ou uma coisa ou a outra. Ou, na pior das hipóteses, ambas. Ontem estava eu num evento onde um destes seres se apresentou e deu medo de tão ruim. No entanto, a questão é a seguinte: a Poesia Marginal existe?

POESIA MARGINAL EXISTE?
O poeta Chacal esteve aqui em João Pessoa, se não estou enganado, no ano passado. Criou-se uma polêmica com o professor, poeta e crítico de poesia e MPB, Amador Ribeiro Neto. Amador questionou a existência da Poesia Marginal enquanto referencial estético. Chacal retrucou: a Poesia Marginal inexiste há 30 anos. Fico com Amador. Segundo ele, as análises sobre a Poesia Marginal, são antropológicas, sociológicas, históricas. Jamais as análises são poéticas. Não vai aí nenhuma ofensa, apenas uma crua constatação. Uma postura corajosa e honesta de um grande estudioso da Poesia Brasileira Contemporânea, bateu o martelo.

MAS, OS POETAS MARGINAIS EXISTEM!
Gostei de ter encontrado o poeta Valter di Lascio. Gostei imenso de ver o poeta Chacal convidado por um dos mais importantes festivais de arte do Nordeste, o FENART. Não se trata aqui de uma guerra de vaidades. A Poesia Marginal construiu seus ícones. Podemos citar Nicolas Behr, Ulisses Tavares, Leila Mícolis, Cacaso, Chacal e outros. Hoje a Poesia Marginal se tornou apenas o marketing desses nomes. Os remanescentes, como Valter di Lascio, que ainda levam uma vida um tanto quanto beat no mangue libertário. Nos fazem mesmo acreditar que a Poesia Marginal inexiste enquanto movimento literário. Os poetas marginais? Ah, esse existem. Ainda bem.

AMADOR RIBEIRO NETO
Considero o poeta Amador Ribeiro Neto um dos nomes mais importantes da Poesia Brasileira Contemporânea. Tanto como pesquisador, quanto como poeta transgressor. Seu livro, Barrocidade, é um dos mais significativos lançamentos da Editora Landy e ouso dizer que um dos mais importantes livros de poesia desta cruzada de milênios. Confiram aqui
as duas colunas dedicadas a este episódio com Chacal que o poeta publicou no Jornal A União. Antenado como poucos, Amador é o principal responsável pela entrada da literatura contemporânea no Curso de Letras da Universidade Federal da Paraíba. Não quero dizer com isso que o poeta Chacal não mereça, também, todo o meu respeito. No entanto, honestidade intelectual é fundamental.

UM POEMA DE VALTER DI LASCIO

Dias e dias de cama
Febre, náuseas, enjôos
Angústias, boca seca,
E no peito... um vazio.
O que tu fizeste foi propaganda
enganosa
Me deste teu amor, e eu
o devorei
Só não sabia que tinha
Validade vencida.

(Propaganda enganosa, poema de Valter di Lascio, do folheto poético Biscoito com Champagne)

GRAN FINALE
Escutar All Di Meola é tudo de bom! Foi assim que escrevi este post. Mas, concluo com uma dica aos amigos e amigas do Rio de Janeiro: dia 17 a cantora Érica Maria estará no Mofo da Lapa, com seu show. Érica é um dos nomes emergentes da novíssima MPB.

8 comentários:

Eveline disse...

Muito bonito poema;cheio de dança, cheia de idas e vindas, costurado com rimas.
=)
Abração,
Eve

susannah disse...

Poesia Marginal, assim, com letra maiúscula, foi um movimento poético e político, um modo de se situar à margem do que se fazia na época, um meio revolucionário de publicar os poemas e rever a linguagem, fora dos alcances "eruditos" (?), "acadêmicos", enfim! Hj poesia marginal existe? Enquanto movimento não mais. Talvez haja um "estilo marginal de ser" que os poetas daquela geração construiram e que alguns insistem em perpetuar sob nova roupagem. Repetiriam os outros poetas, os que andam pelas ruas, os mesmos gestos que vejo fazerem as flores em noites de lua cheia? Ou seja, seriam esses a mímese mal acabada do poeta amaldiçoado, que oferece seus versos à lua (à luta? haveria uma luta hj?). A poesia é marginal em si. Desvia-se das categorias, ainda bem. E está viva. A que se vende por marginal morre ao virarmos a esquina. Há de se separar o joio do trigo, não é?

Marli Reis disse...

...eterno ir embora...

Que encanto sua forma de juntar as palavras e tecer um presente!
Bj

lau siqueira disse...

Sinceramente, Susannah, preciso pensar profundamente sobre o que você disse. acho que a Poesia Marginal (que seja com maiúscula) jamais existiu como um movimento. Talvez por isso nunca tenha produzido um manifesto. E sinceramente, não vejo problemas na erudição. Vejo sim no pedantismo de alguns, mesmo marginais. Entre os marginais ou não marginais, sempre há que se separar o joio do trigo e o joio do joio. Gosto de muitas coisas de Chacal, sou leitor de Nicolas Behr, acho que Cacaso me influenciou, por exemplo, muito mais que Leminski. E declaro por onde for que Leila Mícollis é uma das minhas grandes influências. Mas, continuo achando que toda a contestação tinha mesmo muito mais um vetor sociológico que literário. Acho que Amador foi muito coerente na sua análise. Mas, respeito profundamente você. pessoas como vc dão sentido aos meus blogs.

susannah disse...

Complicado este espaço tão estreito para a gente falar de coisas tão difíceis. Às vezes posso deixar passar umas coisas. Mas houve um movimento, ainda que movido por um vetor sociológico, que se situava nessa marginalidade representada por uma linguagem mais informal, mais espontâneo. Alguns poetas dessa geração conseguiram permanecer, os que vc cita são exemplo de algo que se situava talvez além do vetor sociológico. Tanto isso é verdade que o Cacaso, o Leminski, o N Berh são estudados ainda hj. Ainda têm o que dizer às consciências de hj. Mas ainda volto à velha questão do que seja marginal hj. As fronteiras entre núcleo e periferia, culturalmente falando, são difíceis de precisar. Uma questão a ser mais bem desenvolvida.
Bjs!

Betomenezes disse...

Oi Lau,

Também concordo sobre essa opinião, vejo por aí muita especulação socio-antropológica sobressaindo sobre a análise estética da poesia. É claro que a poesia está incluída em um cenário, porém vejo que no final ela deve sobreviver a isso.

Abraço.

Beto.

Andréa Lima disse...

Oi Lau,entrando de sola na discussão... Estava na internet procurando alguma coisa sobre o Valter Di Lascio, figura que conheci e com quem troquei várias ideias durante o ano de 2002, quando morei em Fortaleza, CE, e acabei encontrando o seu blog. Fiquei surpresa ao ver que és de Jaguarão, porque é a cidade onde nasci e moro atualmente, de onde te escrevo.
Voltando ao assunto do Valter, coleciono e guardo com carinho várias edições do BIS COITO COM CHAMPAGNE e na verdade me surpreendo com alguns de seus escritos... citaria aqui "A pequena história do Beco e da Avenida", para mim de uma simplicidade e beleza sem tamanho.
Achei bacana uma entrevista com o poeta que encontrei no blog de um jornalista, segue o link: http://www.overmundo.com.br/overblog/sobre-o-cimento-frio
Mando um abraço desde a fronteira!

Andréa Lima disse...

Oi Lau,entrando de sola na discussão... Estava na internet procurando alguma coisa sobre o Valter Di Lascio, figura que conheci e com quem troquei várias ideias durante o ano de 2002, quando morei em Fortaleza, CE, e acabei encontrando o seu blog. Fiquei surpresa ao ver que és de Jaguarão, porque é a cidade onde nasci e moro atualmente, de onde te escrevo.
Voltando ao assunto do Valter, coleciono e guardo com carinho várias edições do BIS COITO COM CHAMPAGNE e na verdade me surpreendo com alguns de seus escritos... citaria aqui "A pequena história do Beco e da Avenida", para mim de uma simplicidade e beleza sem tamanho.
Achei bacana uma entrevista com o poeta que encontrei no blog de um jornalista, segue o link: http://www.overmundo.com.br/overblog/sobre-o-cimento-frio
Mando um abraço desde a fronteira!