árido & ácido




cerzindo ventos
na paisagem

.................farrapo
duma simbiose de
............escambos


um nada comum
por entre falésias
.........e instantes

rugindo miras

como quem despe
risos descarnados

(poema vermelho – lau siqueira)

CRITICAR OU DESQUALIFICAR?
É lamentável o recorte que alguns críticos da literatura brasileira contemporânea buscam para justificar seus argumentos. Especialmente pelas suas escolhas na conceituação da contemporaneidade. Acabam confundindo pedantismo com erudição. Recentemente li, numa conhecida revista virtual, uma entrevista que muito me impressionou pelo desconsolo extremado. Um desconsolo estupidamente repartido entre entrevistador e entrevistado. (Desconfio de reflexões coletivas sem contraponto!) Mais uma vez confirmei que as dúvidas são as minhas melhores certezas. Afinal, a velocidade é a marca desse tempo de tragédias descartáveis e misérias indomáveis. Talvez o grande poeta brasileiro contemporâneo esteja, neste momento, inaugurando um blog. Como analisar a literatura do nosso tempo apenas com os parâmetros do passado?

O QUE É CONTEMPORÂNEO?
A leitura a partir de parâmetros imutáveis em um tempo onde a velocidade é a marca mais profunda é, no mínimo, uma aberração. Um poeta, ao criticar a poesia contemporânea deve ter o mínimo cuidado de não excluir-se do cenário. Não dá pra disfarçar-se na pele do crítico. O que há de mais agudo em termos de poesia brasileira contemporânea, por exemplo, que Gregório de Mattos? O neobarroco nos ensina que contemporâneo é o que se colhe de um tempo não linear. O recorte temporal é uma lástima na análise literária. Um engano que poderá nos levar aos mais escandalosos equívocos. Encerra valores, limita olhares... enfim!

SIM, MAS...
Se o que dizem tem referência no que se está escrevendo hoje (analisando os últimos 20 anos, por exemplo) o risco de um profundo deslize é pulsante. Principalmente porque alguns veiculadores dessa crítica limitam seus olhares ao que é publicado no eixo Rio/Sampa. Até concordo. Alguns dos autores publicados e incensados nacionalmente têm como sustentação da sua literatura, a possibilidade de pagar uma edição com distribuição nacional. Mas, em qualquer circunstância nivelar por baixo é, no mínimo, miopia aguda. Jamais podemos confundir expressão de gosto pessoal com crítica. Da mesma forma que não podemos confundir expressão de sentimentos com poesia. Imaginem o risco que corro ao publicar experimentações, poemas inéditos! Mas, o Poesia Sim existe exatamente para isso.

O LIMITE DO ILIMITE
Se até mesmo as placas de rua e o chamado “internetês” são considerados fenômenos lingüísticos relevantes, como podemos julgar irrelevante uma poesia que nasce também desses fenômenos? A poesia atua na margem de erro da linguagem, na transgressão do ridículo, na fermentação dos elos entre a criação e o acúmulo de saberes. Ao mesmo tempo, não é nada disso. Qualquer certeza neste aspecto me enche de desconfianças. Ando lendo coisas que me fazem cada vez mais acreditar que o sabor da poesia nem sempre é o que espera uma crítica com um rigor postiço, montada em conceitos generalizantes. Esta crítica, no máximo, destaca-se pela desatenção e pelo pedantismo.

UM POEMA DE HOPKINS

Ser estrangeiro é minha sina e vida, em meio
A estrangeiros. Meu pai e minha mãe amados,
Irmãos e irmãs em Cristo de mim apartados,
Só Ele meu partir/meu porto, espada e espeto.

A Inglaterra que eu honro como esposa, cheio
De sonhos de criar, não movem nem cuidados
Nem rogos, nem rogar eu ouso, desolado s-
Ócio de um lar que gera guerras em seu seio.

Agora estou na Irlanda e é já a terceira ida
Ao longo exílio. Não que o exílio iniba o gesto
De amor, amar. Mas a palavra mais querida

Que eu crie o céu cinzento ceifa presto
E o inferno enfeia em fel, do povo não ouvida
Ou, se ouvida, olvidada. E eu solitário resto.

(poema de Gerald Manley Hopkins – 1844/1889, poeta inglês e teórico de poesia. Tradução de Augusto de Campos. Editora Perspectiva. Extraído do livro A Beleza Difícil)

Comentários

Fred Matos disse…
Lau,
É sempre bom vir aqui ler a sua ótima poesia e as suas sempre lúcidas e oportunas observações.
Ótimo domingo
Grande abraço
Nydia Bonetti disse…
Fantástico tudo isto que escreveu, Lau. Tua lucidez e sensibilidade me impressionam. Isto sem falar na tua poesia, verdadeiro brilhante. Abraços.
xico_skywalker disse…
Ola .. belo blog de poesias...
acabei de abrir o meu .. se vc puder dá uma força agradeço desde já ...
linkei vc ... linke eu tb ...
abraço
ate mais...
Roberta disse…
Lau Siqueira,

Primeiro, a afirmação imperiosa de um blog: Poesia Sim. Ela cuida para que atentemos que a poesia é fonte, necessário alimento de almas, e que sim, é tema para muitas e boas discussões. E para silêncios comovidos.

Então você se descreve com tal delicadeza, tão desabrido, que emociona: "Todos os dias eu acendo um Sol dentro de mim. Todos os dias eu frequento as quatro fases da Lua." O sol e a lua se elencam para formar um conjunto cosmológico de alma que no mínimo, tem a dizer, iluminuras.

Escreve, verso a verso, o que ruge na mira do instante: ventos, escambos, falésias acontecendo os risos e o olhar que se renova, vendo assim, pelo verso, propondo releitura.

Em seguida extrai uma visão lúcida e crítica da própria crítica contemporânea, expondo os delimites das novas fronteiras, e o virtual ainda por explorar. Bandeirantes de novas plagas cibernéticas virão para demontar "conceitos generalizantes", e descobrir tesouros tantos, e se abrirem a novos e velhos leitores. Sempre amantes.

Desse longo comentário, o desfecho: dizer como é bom encontrar tudo isso num mesmo espaço, e confirmar que a Internet é sim, uma ferramenta importantíssima para quem gosta, cultiva, se sangra, se sagra à poesia, amando-a no bico da pena (que é tecla), à sina da escrita, ou no negro dos olhos, que estampam interpretações.

Eu logo volto, para mais leituras comovidas, e essa verborragia toda.
Juliana Meira disse…
"risos descarnados"
belo o "poema vermelho"!
parabéns por teu espaço Lau, "poesia sim" sempre!
Dina disse…
Lau, entre beber o vinho e conversar com o enólogo, o que preferes? E entre discutir literatura e escrevê-la?
O poema é fabuloso, um ponto final bem ferocínico no despotetamento que há por aí. Quanto à crítica literária, li uma vez que "críticos são pessoas que não sabem escrever, escrevendo para pessoas que não sabem ler". Não me lembro quem disse isso, mas concordo! Abraços!!!

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