assimétrico
& compulsivo



.........pensamento
é plano sem planos
que aos brotos revela
ramagens

...............jamais raízes

sinais amputados duma
pele tramitando seus
imensos contrários

mastigando palavras
inundadas duma beleza
absolutamente inútil

(lau siqueira – poema vermelho)

ESCREVER É UM ABISMO
“Tem qualquer coisa em escrever poesia que leva um homem pra beira do abismo”, disse Charles Bukowski. Gosto de medir a coerência das frases. No caso, a coerência chega a ser o próprio abismo. Então fico pensando na empáfia dos que acreditam saber tudo de poesia. Como desvendar o infinito? Fico pensando, pensando... e a conclusão é a mesma sempre: não sei como nem quando será o próximo verso. A racionalidade na poesia é uma doença inevitável. A racionalidade é o próprio abismo.

POESIA E TRANSGRESSÃO
Algumas vezes percebo que há quem confunda a transgressão na linguagem poética com poetas embriagados e drogados. Palavrão não é transgressão de linguagem, porra! Falar sobre drogas, homossexualidade, muito menos. Alguns poemas circulantes por aí parecem muito mais com manifestos existenciais. Não! Também não chegam a ser meramente confessionais. Tem substância literária, mas... parecem apenas algo de desapego na pele do sossego. Escreve-se, algumas vezes, apenas para chocar. Isso é atitude social e não literária. Nem perco meu tempo.

O PIOR DE TUDO
O pior é que não estou falando de blogs de meninos e meninas que, na insensatez da idade, resolvem agredir a moral cristã dos pais que roncam no quarto ao lado. Falo de gente madura que está dentro da cena. Não desprezo o palavrão num poema. Mas, jamais vou usá-lo como um emblema puramente marqueteiro para ganhar a simpatia duma certa fração da juventude transviada. A juventude que interessa é a que exercita o mergulho, mesmo longe do mar. Não dá pra fazer apologia ao que não presta. Nem na literatura nem na vida. A Poesia tem certa vocação pedagógica, mesmo quando incomoda, quando desafina o coro dos contentes.

RETRATOS FALHADOS
Recebi o belo livro de poemas da poeta Dalila Teles Veras, Retratos Falhados publicado pela Escrituras. Nascida na Ilha da Madeira, Dalila chegou ao Brasil em 1957 (ano que eu nasci) e nunca mais deixou o país de Drummond. Compondo a beleza do livro de Dalila, os desenhos de Constança Lucas. Vale uma busca pelas livrarias.

POEMA DE DALILA TELES VERAS

Em meu dedo
o teu dedal

(tento, mãe
costurar tua memória
prender-te ao que me resta)

Incertos pontos
que a vista embaçada
não deixa urdir

(Memória, poema de Dalila Teles Veras. Do livro Retratos Falhados – Escrituras, Editora e Distribuidora-SP, 2008)

Comentários

nick mendes disse…
olá, como amante da poesia e novos poetas gostei dos seus versos. simples e profundos. parabéns
abraços.
Anônimo disse…
Olá, Lau
Honrada e agradecida por constar deste espaço que generosamente (com)partilha o mundo das nossas letras.
dalila teles veras
Anônimo disse…
Olá, caro Lau
Fico honrada e agradecida por constar deste espaço inteligente que generosamente (com)partilha nossas letras.
dalila teles veras
http://dalilatelesveras.zip.net/
Ceci disse…
Sinceramente, estou alimentada para esta manhã, provavelmente não necessitarei de almoço, guardo a beleza sincera e inovadora do seu texto, Lau. Viva!
Paula Ilha disse…
Gostei muito do seu blog.

Um pensamento próprio é determinado por tantos fatores e, dessa forma, como um pensamento alheio poderia ser entendido de forma autêntica?

É uma discussão um pouco complexa. Mas, de algum modo, o artista leva o leitor a um estado de reflexão e disposição para a criação de seus próprios pensamentos.

“O homem só ensina bem o que para ele tem poesia.” Rabindranath Tagore
rapaz, tava com umas dumas ou três saudades de comentar aqui. venho sempre, mas - acho que posso dizer isso depois de ter um livro e um abraço seus - não me sentia com vontade de comentar. agora sim.
duas coisas: primeiro sobre a prosa, que concordo com (quase) tudo, primeiro com o bukowski, depois com tu e, depois... sei lá, tem "não" demais por ali. é muito não-lau isso aí. se bem que tu é não-tu também, né. Sei lá
segundo: com o poema da madeirense. Massa! tava essa segunda no Democom (semana da democratização da comunicação), ali no Decom, e assisti um curta do cearense Márcio Ramos: "Vida maria". Animação a la Clips MTV, mas muito bonito. Vale a pena, fala do eterno ciclo mãe-filha. Suave e belo.
esse texto foi quase um post! mas é isso aí, assassinei a saudade do espaço!
Bem, pra mim poesia é atravessar uma ponte de pétalas sobre um abismo. Mas aí, me lembro de meu automuro e quero as asas. Quanto aos palavrões em muitos poemas, eles realmente soam inócuos e sem propósito. Comentar o poema de Dalila é quase inviável, uma vez que minha nostalgia transita na mesma via. Abraços!
Benny Franklin disse…
Poesia Sim: um soco na mesmice!
Abçs!

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